Diálogo interceptado pelo GAECO indica que investigados defenderam deixar a população de Nova Alvorada do Sul sem leitos após o município não aderir ao suposto esquema.
“Vai morrer todo mundo”: presos pelo GAECO teriam ameaçado saúde de Nova Alvorada do Sul
Diálogo interceptado pelo GAECO indica que investigados defenderam deixar a população de Nova Alvorada do Sul sem leitos após o município não aderir ao suposto esquema
Por: Vinicius Santos
14/07/2026 às 20h17
Dinheiro apreendido na operação
Conversas interceptadas pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (GAECO) apontam que Ed Carlo Britto Burgatt, conhecido como "Ed Carlos", então coordenador de Regulação e Assistência de Mato Grosso do Sul, teria utilizado a estrutura de regulação de vagas hospitalares como forma de pressão em tratativas envolvendo a prefeitura de Nova Alvorada do Sul.
As mensagens, datadas de setembro de 2022, indicam que Ed Carlos teria condicionado o encaminhamento de cirurgias e exames ao município à contratação da Editora Avante.
Segundo o material citado pelo GAECO, as tratativas relacionadas à venda de livros da Editora Avante para municípios de Mato Grosso do Sul continuavam entre Ed Carlos e Gabriel Taquino. Em uma das conversas, o tema abordado foi a possibilidade de contratação pela Prefeitura de Nova Alvorada do Sul.
De acordo com os diálogos, havia dificuldade para concretizar o negócio com o prefeito, que, segundo os interlocutores, estaria se alinhando com outros fornecedores.
Ainda conforme as conversas interceptadas, diante da dificuldade em fechar o acordo, Ed Carlos afirmou que "trancaria tudo" na regulação de saúde caso o município não concretizasse a contratação.
Nas mensagens, ele teria declarado: "eu tranco tudo aqui", "e não ajudo eles em nada" e "saúde zero".
Em contrapartida, segundo o conteúdo apontado pelo GAECO, caso o negócio fosse fechado, Ed Carlos prometia liberar R$ 300 mil em exames e cirurgias para Nova Alvorada do Sul.
Durante o diálogo, também são mencionados nomes de pessoas que, segundo as conversas, estariam auxiliando os interlocutores nas tratativas para a contratação junto ao município.
Outro trecho do material trata de propostas e valores. Conforme registrado, Gabriel Taquino informou a Ed Carlos que ele receberia R$ 80 mil caso o acordo em Nova Alvorada do Sul fosse concretizado.
As mensagens também registram o que o GAECO descreve como táticas de pressão. Em setembro de 2022, ao encaminhar a proposta ao município, Gabriel Taquino teria afirmado: "só opera se fechar" e "senão vai morrer todo mundo", em referência à liberação de cirurgias pelo Estado.
As informações constam em conversas interceptadas no âmbito de investigação conduzida pelo GAECO. Até o momento, o texto-base não apresenta manifestação dos citados sobre o conteúdo das mensagens.
Falta de orçamento impediu contratação e motivou sugestão para restringir serviços de saúde
Segundo o GAECO, a suposta negociação não avançou em Nova Alvorada do Sul devido à falta de orçamento do município. Em conversa interceptada, Gabriel Taquino informou que a prefeitura não iria realizar a contratação e, na sequência, sugeriu que Ed Carlos dificultasse o acesso do município a serviços vinculados à saúde.
De acordo com o material da investigação, Gabriel teria afirmado: "Deixa o povo sem leito lá" e "Suspende as cirurgias de Nova Alvorada", em referência à destinação de recursos e procedimentos para o município.
Esquema investigado deu origem à Operação Gutenberg
As tratativas envolvendo Nova Alvorada do Sul são mencionadas no âmbito da Operação Gutenberg, deflagrada pelo Ministério Público de Mato Grosso do Sul, por meio do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco/MPMS), em 7 de julho deste ano.
A operação cumpriu 16 mandados de prisão preventiva e 43 mandados de busca e apreensão nas cidades de Campo Grande, Dourados, São Gabriel do Oeste, Caarapó, Corguinho, Porto Murtinho, além de São Paulo (SP) e Abadiânia (GO).
Apesar de Nova Alvorada do Sul ser citada nas conversas interceptadas, a Prefeitura não foi alvo de mandados de busca e apreensão no âmbito da investigação.
Em nota, a administração municipal afirmou que não possui "qualquer contrato, convênio, parceria ou relação comercial" com a empresa investigada. A prefeitura também declarou que não realizou a aquisição de livros, materiais didáticos ou quaisquer outros produtos, seja por contratação direta, processo licitatório ou qualquer outra modalidade.













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