Em 14 dias, empresária encerrou negócio de roupas e abriu editora que passou a fechar contratos milionários.
Duas semanas. Foi esse o intervalo entre o encerramento do brechó de Rhayane Souza Fanaia e a abertura da empresa que a colocaria no centro de uma investigação sobre contratos milionários para a venda de livros a prefeituras de Mato Grosso do Sul.
Rhayane Souza Fanaia encerrou seu brechó em novembro de 2021 e, duas semanas depois, abriu a Editora Avante, que obteve contratos milionários com prefeituras de Mato Grosso do Sul sem licitação. O Gaeco investiga se ela era apenas laranja de uma operação controlada pela família Jafar. Investigadores identificaram pagamentos equivalentes a 1% dos contratos públicos feitos a ela e R$ 2,9 milhões transferidos pela editora para sua conta.
Em 4 de novembro de 2021, o CNPJ do Brechó Rhayane Souza Fanaia foi baixado por encerramento voluntário. Exatos 14 dias depois, em 18 de novembro, nascia a Souza & Fanaia Comércio de Livros e Serviços Editoriais Ltda., conhecida como Editora Avante.
O salto foi rápido: da revenda de roupas usadas para uma empresa que, em poucos anos, recebeu milhões de reais do poder público.
A mudança brusca de atividade chamou a atenção do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado) desde o começo da apuração. Na portaria que instaurou o procedimento investigatório criminal, a investigação destacou que Rhayane era aparentemente inexperiente no segmento editorial e que a empresa havia sido criada recentemente, sem notoriedade que, em princípio, justificasse contratações milionárias por inexigibilidade de licitação.
Naquele momento, a própria investigação lembrava que, antes dos livros paradidáticos, Rhayane atuava justamente com a revenda de roupas usadas.
O brechó havia sido aberto em 4 de março de 2021 e durou oito meses. A Avante surgiu com capital social de R$ 40 mil. Menos de um ano depois de sua criação, já havia fechado um contrato de R$ 1.044.355 com a Prefeitura de Miranda, sem concorrência entre empresas.
E a compra feita por Miranda não foi exceção. Vieram contratos com Ivinhema, Ladário, Bonito e outros municípios sul-mato-grossenses, sempre em um negócio que parecia improvável para quem, pouco tempo antes, tinha a outra atividade empresarial, aponta o Gaeco.
Foi daí que surgiu a pergunta que atravessa as 472 páginas do PIC (Procedimento Investigatório Criminal) conduzido pelo Geaco: Rhayane era de fato a empresária por trás da Editora Avante ou apenas dava nome a um negócio comandado por outras pessoas?
A conclusão a que chegaram os investigadores é que embora Rhayane aparecesse formalmente como proprietária da Avante, ela não tinha autonomia gerencial nem financeira sobre a empresa. Segundo a investigação, os verdadeiros controladores são Rossana Paroschi Jafar e os filhos Giovanni, Olívia e Felipe Paroschi Jafar, em atuação conjunta com Heyder Bartz e Francisco Anizio dos Santos.
A tese foi demonstrada no pedido feito à Justiça para prender a família Jafar e Rhayane, ex-namorada de Giovanni. A moça foi presa preventivamente no estado de Goiás durante a deflagração da Operação Gutenberg, assim como outras 15 pessoas.
As apurações apontaram ainda que depois de a Avante receber dinheiro das prefeituras, Rhayane era chamada, por meio de aplicativos de mensagens, para distribuir os valores. Foram identificadas pelo menos nove datas em que ela teria recebido instruções para fazer essa divisão.
Ela aparece então movimentando contas bancárias, fazendo pagamentos, recebendo dinheiro, assinando documentos, indo a bancos para realizar saques e enviando valores a outros investigados. Em uma das conversas, depois de a editora receber pagamento de uma prefeitura, ela resume a situação em uma frase direta: "Agora só distribuir".
Aquele 1% – Outro padrão identificado nas movimentações financeiras também chamou a atenção do Gaeco: em diferentes contratos ou pagamentos feitos por prefeituras, Rhayane recebeu valores que correspondiam exatamente a 1% do negócio público. No contrato de Miranda, de R$ 1.044.355, aparece um pagamento de R$ 10.443,55 para ela.
De Ivinhema, diante de um valor de R$ 586.862,50, ela recebeu R$ 5.868,63. De Bonito, um pagamento de R$ 818.958,50 foi acompanhado de uma transferência de R$ 8.189,59 para Rhayane, e de Ladário, o contrato era de R$ 459.286, e o valor destinado a ela foi de R$ 4.592,86.
Em registros financeiros reproduzidos pelo Gaeco, alguns desses pagamentos aparecem identificados como "PLR", sigla conhecida no meio empresarial como Participação nos Lucros e Resultados, seguida do nome do município.
O volume recebido por Rhayane cresceu muito além desses pagamentos de 1%. Em relatório posterior, que ampliou o período e as contas analisadas, os investigadores identificaram uma soma de R$ 2.963.880,85 transferida pela Editora Avante para a antiga dona de brechó.
Dinheiro vivo – Os volumes em dinheiro também são destaque na investigação. Em uma primeira análise, o Gaeco encontrou 23 saques em espécie das contas da editora que totalizaram R$ 1.066.000,00. Segundo o relatório, Rhayane foi responsável por quase todas essas retiradas.
As conversas, no entanto, levaram os investigadores à conclusão de que Francisco Anizio dos Santos coordenava parte das operações, definindo datas, horários e valores e, em algumas ocasiões, levando Rhayane até as agências bancárias.
Em uma conversa sobre a conta da empresa, ela chegou a dizer que era Anizio quem sabia qual era sua agência e quem era seu gerente.
Há também episódios em que Rhayane informa o saldo disponível da Editora Avante e pergunta a Rossana Paroschi Jafar como deveria proceder. Em um desses casos, depois de receber a orientação para aguardar, a investigação registra uma transferência de R$ 61.752,74 para Giovanni Paroschi Jafar.
O elo com a família Jafar – A entrada de Rhayane no mercado editorial também está ligada, na investigação, a seu relacionamento com Giovanni Paroschi Jafar, filho de Mirched Jafar Júnior e Rossana Paroschi Jafar, que foram sócios administradores da Gráfica e Editora Alvorada, empresa já investigada anteriormente por contratos públicos de livros. O pai morreu em abril de 2021 e meses depois, Rhayane, então namorada de Giovanni, abriu a Editora Avante, que vendia livros paradidáticos produzidos pela Alvorada, segundo o Gaeco.
A investigação usa essa cronologia como um dos elementos para sustentar a suspeita de continuidade do modelo de negócios anteriormente associado à Alvorada.
Antes dos livros, brechó e academia – A trajetória empresarial de Rhayane registrada pela Receita Federal antes da Avante era mais modesta. Seu brechó foi aberto em março de 2021 e encerrado em novembro do mesmo ano. Fora do procedimento investigatório, outros registros também mostram um vínculo dela com a Academia Onfit, que funcionava na Avenida Noroeste, em Campo Grande, mas fechou.
Rhayane não aparece como dona da academia no QSA (Quadro de Sócios e Administradores), mas no site da academia, ainda disponível na internet, o e-mail divulgado para contato é o dela, rhayane.souza.fanaia@gmail.com.
Imagens do Google Street View mostram a fachada da academia no endereço em 2019. Registros mais recentes exibem o prédio já sem o banner maior de identificação, que ocupava a parte frontal do imóvel.
A reportagem não encontrou quem oficialmente representa Rhayane já que o processo tramita em sigilo, mas deixa o espaço aberto para manifestações da defesa.













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