BRASÍLIA – A relação comercial e diplomática entre o Brasil e os Estados Unidos entrou em uma de suas fases mais críticas dos últimos anos.

TENSÃO DIPLOMÁTICA: Pix, desmatamento e ameaça tarifária dos EUA põem governo e oposição em alerta
A relação comercial e diplomática entre o Brasil e os Estados Unidos entrou em uma de suas fases mais críticas dos últimos anos. / Foto: Reprodução X - Eduardo Bolsonaro

Terminaram nesta semana as audiências públicas consultivas promovidas pelo Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR, na sigla em inglês), que discute a aplicação de uma tarifa linear de 25% sobre mercadorias brasileiras. A justificativa de Washington aponta o sistema de pagamentos instantâneos brasileiro, o Pix, e o desmatamento ilegal como fatores que prejudicam a competitividade de empresas norte-americanas.

A ofensiva econômica, baseada na Seção 301 da Lei de Comércio dos EUA, mecanismo frequentemente usado pelo governo de Donald Trump para retaliar parceiros comerciais, mobilizou tanto a diplomacia do Palácio do Planalto quanto a oposição brasileira.

A disputa narrativa: Pix e Meio Ambiente
O argumento norte-americano de que o Pix cria barreiras de mercado para gigantes de tecnologia e de cartões de crédito dos EUA foi rebatido formalmente pelo Itamaraty. Em um documento de defesa de 29 páginas enviado a Washington, o governo brasileiro defendeu a neutralidade da ferramenta. Em outra frente, os EUA alegam que o desmatamento ilegal no Brasil atua como um subsídio indireto, barateando commodities agrícolas de forma desleal.

As audiências contaram com a presença de observadores do governo federal e com a participação da oposição. O pré-candidato Flávio Bolsonaro discursou no evento, defendendo o Pix e defendendo a suspensão temporária das tarifas enquanto os dois países negociam. Para o senador, a aplicação do "tarifaço" poderia ser capitalizada politicamente pela esquerda no Brasil, transformando o embate econômico em disputa eleitoral interna.

Do outro lado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva também classificou a medida como prejudicial para ambos os países. Contudo, a avaliação de bastidores do Palácio do Planalto é de que as audiências têm caráter eminentemente político. Por essa razão, a equipe técnica do Governo Federal foca em negociações bilaterais diretas nos bastidores, buscando diminuir o escopo do tarifaço ou obter exceções para setores estratégicos, uma vez que a reversão total é vista como improvável até o prazo final de decisão, estipulado para 15 de julho.

Temores de soberania e segurança nacional
Se o embate tarifário já desenhava um cenário complexo, o clima diplomático esquentou ainda mais após manifestações do Ministério das Relações Exteriores enviadas à Câmara dos Deputados.

O chanceler Mauro Vieira admitiu, em documento oficial de resposta ao Congresso, que o governo brasileiro teme as consequências da designação das facções criminosas Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras por parte de Washington.

Segundo a nota do Itamaraty, a classificação unilateral por parte dos EUA abre precedentes jurídicos na legislação americana para sanções severas e, em um cenário extremo, justificativas para ações extraterritoriais. "Há, ademais, o risco de uso da força militar dos EUA contra o território nacional", alertou Vieira no texto.

Embora o Ministério da Defesa e analistas militares considerem a hipótese de uma intervenção armada altamente improvável e de tom excessivamente alarmista, o reconhecimento formal do risco pelo chefe da diplomacia brasileira escancara o tamanho da fenda que se abriu na relação entre Brasília e Washington. Os próximos dias, até o fechamento do prazo do USTR em julho, ditarão se a retórica se converterá em sanções duras e isolamento econômico.