Campo Grande começou a semana praticamente parada nesta segunda-feira (15).
Logo nas primeiras horas da manhã, terminais vazios, garagens fechadas e pontos de ônibus lotados de passageiros à espera de um transporte que não veio marcaram o impacto imediato da greve deflagrada pelos motoristas do Consórcio Guaicurus.
A paralisação foi decidida em assembleia geral realizada na última quinta-feira (11), quando mais de mil trabalhadores aprovaram o movimento grevista em protesto contra o atraso no pagamento do salário de novembro, do adiantamento salarial e da parcela do 13º salário. Ao todo, cerca de 1,1 mil funcionários fazem parte da categoria, sendo aproximadamente 750 motoristas.
Segundo o STTCU-CG (Sindicato dos Trabalhadores do Transporte Coletivo Urbano de Campo Grande), os trabalhadores foram orientados a permanecer em casa, o que resultou na completa ausência de ônibus nas ruas da Capital durante a manhã.
Greve deve durar o dia inteiro
O presidente do sindicato, Demétrio Freitas, afirmou que a paralisação deveria se estender ao longo de todo o dia. Conforme ele, mesmo após o Consórcio Guaicurus ter efetuado o pagamento de 50% dos salários atrasados na última sexta-feira (12), a categoria decidiu manter a greve, já que o acordo previa a quitação integral dos valores devidos.
“Foi avisado que eles não precisavam vir. Depois da assembleia, foi comunicado que hoje não precisava nem ir à garagem. Então, todos os motoristas estão em casa”, explicou Demétrio.
Ainda de acordo com o sindicato, o retorno ao trabalho só ocorrerá quando forem pagos, de uma única vez, o salário de novembro, o 13º salário e o adiantamento do dia 20.
Decisão judicial exige 70% da frota, mas ordem não é cumprida
Na noite de domingo (14), às 22h, o Tribunal Regional do Trabalho da 24ª Região concedeu liminar determinando que pelo menos 70% da frota continuasse circulando durante a greve, considerando a essencialidade do serviço de transporte público.
A decisão, assinada pelo desembargador Cesar Palumbo Fernandes, proíbe paralisação superior a 30% da força de trabalho e fixa multa diária de R$ 20 mil em caso de descumprimento, além de outras medidas coercitivas. O magistrado também marcou audiência de conciliação para esta terça-feira (16), às 15h45, e determinou que um oficial de justiça notificasse imediatamente os dirigentes sindicais.
Apesar da liminar, a determinação não foi cumprida nas primeiras horas do dia. Questionado, Demétrio Freitas afirmou que o sindicato só foi oficialmente notificado da decisão por volta das 13h.
“É uma decisão que precisa ser cumprida, mas estamos avaliando. Na assembleia, ficou condicionado que só retorna a trabalhar com o pagamento na conta”, disse.
O sindicato avalia que, caso haja mobilização, o retorno parcial das atividades poderia ocorrer apenas na madrugada de terça-feira.
Passageiros prejudicados e impacto social
A ausência total de ônibus afetou diretamente cerca de 110 mil usuários do transporte coletivo, segundo a Prefeitura de Campo Grande. Trabalhadores, estudantes e pessoas que dependem exclusivamente do sistema enfrentaram dificuldades para chegar ao trabalho, consultas médicas e compromissos essenciais.
A reportagem constatou filas em pontos de ônibus, passageiros caminhando longas distâncias e motoristas de aplicativos registrando aumento significativo na demanda.
Prefeitura afirma repasses em dia e acusa má-fé
Em nota e em entrevistas, a Prefeitura de Campo Grande afirmou que está rigorosamente em dia com os repasses ao Consórcio Guaicurus e que a paralisação não tem relação com falta de pagamento por parte do município.
De acordo com a Agereg (Agência Municipal de Regulação dos Serviços Públicos), além de cumprir os valores previstos em lei, a Prefeitura antecipou 57% do repasse referente ao mês de novembro, totalizando recentemente R$ 19,5 milhões.
“O que a gente vê é um pouco de má-fé. Não existe nada em aberto. A perícia judicial aponta lucro da empresa nos últimos sete anos”, afirmou o diretor-executivo da Agereg, Otávio Figueiró.
Ele também destacou que o sistema opera com descumprimento de obrigações contratuais, como a renovação da frota. Segundo a agência, 197 veículos circulam com idade acima do permitido.
Consórcio alega crise e aponta inadimplência pública
O Consórcio Guaicurus, que já faturou mais de R$ 1,8 bilhão desde que assumiu o transporte coletivo, atribui a crise financeira à suposta inadimplência de repasses públicos. A empresa afirma viver situação crítica e solicita providências urgentes para regularização dos débitos.
Além disso, o consórcio recorre com frequência à Justiça para exigir mais recursos públicos, apesar de também contar com receitas oriundas das tarifas pagas pelos usuários e da publicidade em ônibus.
Pedido de intervenção ganha força
Diante da recorrência de greves, atrasos salariais, sucateamento da frota e constantes reclamações da população, um pedido de intervenção no transporte coletivo já foi protocolado e mobiliza assinaturas de populares.
O secretário municipal de Governo, Ulisses Rocha, confirmou que há uma ação popular com pedido de intervenção para avaliar a real situação financeira do consórcio, embora afirme que, no momento, essa medida ainda não foi adotada.
Multas e audiência de conciliação
A Prefeitura informou que estuda aplicar multa ao Consórcio Guaicurus pelo descumprimento do contrato e pela interrupção do serviço. Paralelamente, a Justiça do Trabalho tenta mediar o conflito em audiência marcada para esta terça-feira.
Enquanto sindicato, consórcio, Prefeitura e Judiciário travam um embate de versões, Campo Grande segue refém de um sistema que, mesmo bilionário, falha em garantir o básico: ônibus rodando e trabalhadores com salários em dia.











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