Pessoas que tenham determinadas características clínicas prévias à infecção pelo vírus da Chikungunya, podem desenvolver formas mais graves da enfermidade, especialmente aquelas que têm algum nível de comprometimento articular que não precisa, necessariamente, ter sido provocado por alguma doença.

Idosos, grávidas, doentes crônicos e até atletas têm mais chances de quadros graves de Chikungunya
/ Foto: Força-tarefa monta ambulatório em quadra de escola para atender famílias indígenas com Chikungunya - Crédito: Clara Medeiros / Dourados News

Pessoas que tenham determinadas características clínicas prévias à infecção pelo vírus da Chikungunya, podem desenvolver formas mais graves da enfermidade, especialmente aquelas que têm algum nível de comprometimento articular que não precisa, necessariamente, ter sido provocado por alguma doença.

“Por exemplo, nós podemos ter um músico que toque violão, que toque piano há muito tempo, tendo Chikungunya. Pelo desgaste das suas articulações falangianas, provavelmente terá Chikungunya muito mais intensa. Um atleta, um maratonista, um jogador de basquete, de vôlei, um professor de educação física poderá ter Chikungunya mais intensa, porque tem as suas articulações já um pouco desgastadas pela prática esportiva. Pessoas idosas, pela idade, que tenham um comprometimento articular, também poderão ter Chikungunya mais grave”, explica o médico com pós-doutorado em medicina tropical, Rivaldo Venâncio da Cunha.

Chefe de gabinete da Presidência da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), Cunha é uma das maiores autoridades do Brasil e referência internacional em pesquisa sobre Febre Chikungunya.

Ele está em Dourados para integrar a força-tarefa de combate ao surto na Reserva Indígena que inclui capacitação voltada a profissionais da saúde sobre os protocolos adequados para casos suspeitos e confirmados.

DOENÇAS CRÔNICAS E REUMATOLÓGICAS

O médico ainda chamou a atenção para pessoas com doenças crônicas, como diabetes e hipertensão arterial, além das autoimunes e reumatológicas, como lúpus eritematoso sistêmico ou artrite reumatoide, por exemplo. Essas podem ser mais afetadas não só pelo quadro, mas também devido às medicações.

"Tem um conjunto pequeno de pessoas que pode ter a Chikungunya na sua forma grave extra-articular. Não é incomum ter casos de envolvimento cardíaco, casos de envolvimento no fígado ou nos rins, por isso pessoas que tenham alguma doença cardiovascular ou endócrina antes da Chikungunya devem ter uma precaução adicional e procurar imediatamente ser tratadas diferentemente dos outros", alertou o médico.

GRÁVIDAS

Por se tratar de uma doença que tem uma progressão ‘muito arrastada’, grávidas infectadas correm o risco de transmitir para o bebê, principalmente nos 45 dias antes do nascimento.

"Essa criança nasce infectada, pode apresentar manifestações dolorosas à criança e à mãe. Pegar a criança no colo para dar mamá, a criança chora o tempo todo, não tem força para pegar o peito para mamar e aí muitas dessas crianças, a partir de três, quatro, cinco dias de evolução da doença, desenvolvem uma vermelhidão na pele que é seguida de lesões vesiculares e bolhosas", explica o médico. 

“São bolhas como se tivesse sido uma queimadura de sol ou para quem é mais técnico, aquilo que nós chamamos tecnicamente na medicina como síndrome da pele escaldada. Aquelas bolhas podem se romper, vão se infectar com bactérias que se não forem adequadamente tratadas com antibiótico, essa criança poderá ter, esse bebezinho recém-nascido de dias, de semanas, poderá ter uma infecção bacteriana grave e vir a falecer”, complementa o pesquisador.

Em Dourados, foram confirmados sete casos de grávidas com Chikungunya, sendo cinco no segundo e duas no terceiro trimestre de gestação. É quase a metade dos registrados em todo Estado, que tem um total de 16 casos em gestantes, conforme o Boletim Epidemiológico mais recente divulgado pela SES (Secretaria de Estado de Saúde) no dia 13 deste mês.

LIMITAÇÕES E ACIDENTES DOMÉSTICOS

Mesmo aquelas pessoas que não tem o risco de apresentar quadros mais graves, ainda vão sentir dores intensas e ter limitações diárias em casa ou no trabalho.

“Dependendo a intensidade do comprometimento articular do processo inflamatório, a pessoa tem limitação para se levantar do leito, para fazer as tarefas domésticas, para tomar banho, para colocar a roupa, para segurar uma escova e pentear o cabelo, por exemplo, para sentar-se, levantar-se de um vaso sanitário, ou seja, essa pessoa precisará de uma rede de apoio”, pontua Cunha.

Também há risco de acidentes domésticos. “Por exemplo, a pessoa resolve fazer uma comida, vai esquentar água para fazer o arroz, pega a chaleira com o processo inflamatório do punho, às vezes ela solta a chaleira e causa uma queimadura; vai passar ferro numa roupa, pode o ferro escapar; tem ‘ene’ acidentes domésticos relacionados com a fase aguda da Chikungunya”, pontua o médico.

Ele ainda lembra que dependendo o tipo de atividade laboral, muitas pessoas não conseguem voltar a trabalhar tão cedo e isso afeta na renda das famílias. “Deixam de ter o seu ganho, consequentemente vai faltar alimento na sua residência e esse processo social causado pela Chikungunya também, evidentemente, deverá ser levado em consideração”, complementa.

IMPACTO NA REDE

Para além da saúde e da rotina das famílias, o surto da doença ainda tem impacto na rede assistencial. Segundo o pesquisador, diferente da dengue que com uma ou duas visitas a unidades de saúde, em até dez dias costuma estar superada; pelo menos a metade das pessoas com Chikungunya em sua fase aguda, vai permanecer para além de duas semanas sentindo alguma dor, em geral, articular.

“Dessas pessoas, 50% irão progredir para além de três meses com alguma manifestação clínica, são aqueles que entram na fase crônica da doença, ou seja, é uma doença que no curso de sua evolução, o doente poderá ir cinco, oito, dez vezes a uma unidade de saúde, o que representa uma sobrecarga enorme”, acrescenta.

REDE HOSPITALAR

Essa elevação da pressão sobre a rede e necessidade de ampliação da capacidade de resposta em Dourados, está descrita no Decreto de Emergência publicado pela Prefeitura na sexta-feira, dia 20. O documento traz o panorama de elevação de casos dentro e fora das aldeias, além do aumento na demanda nas unidades básicas de saúde e rede hospitalar.

“Considerando as informações técnicas do Departamento de Gestão do Complexo Regulador que demostram ocupação de leitos de internação em patamar superior a 95%, com risco de comprometimento da capacidade de resposta assistencial oportuna, especialmente para casos moderados e graves”, descreve o documento, que permite a contratação emergencial de serviços e recebimento de recursos federais.

Em coletiva de imprensa na tarde de sábado, dia 21, para detalhar as ações previstas a partir do decreto, o secretário municipal de Saúde, Márcio Grei de Figueiredo, lembrou que a cidade é referência para atendimento hospitalar para toda a região, que essa tensão já existia antes do surto e, caso haja sobrecarga, a articulação com o Estado e o Governo Federal pode resultar na implantação de um hospital de campanha que atender a demanda excedente.

Por enquanto, a rede é organizada para que os pacientes com Chikungunya que precisem de atendimento hospitalar sejam encaminhados para outras unidades ligadas ao SUS (Sistema Único do Saúde) dentro do Estado. “Essa integração já acontece e a gente está até mapeando alguns novos fluxos para que esse paciente não fique na mesma rotina dos pacientes que já precisam de vagas durante as semanas”, pontua Márcio.

Os pacientes que apresentarem sintomas devem procurar o quanto antes a unidade básica de saúde mais próxima de casa. Na Reserva Indígena, além dos postos, também foi montada uma unidade que funciona como um ambulatório itinerante na quadra da Escola Municipal Indígena Tengatuí Marangatu. Os casos de necessitam de atendimento hospitalar são encaminhados prioritariamente para o Hospital da Missão.

SINTOMAS E COMO PREVENIR

A Chikungunya é caracterizada especialmente por febre alta de início rápido, dores articulares, musculares e de cabeça, além de inchaço nas articulações e manchas vermelhas na pele. Os sintomas podem surgir de dois a 12 dias após a picada do Aedes aegypti.

Para se proteger é importante usar repelente e eliminar os focos de proliferação mosquito transmissor da doença, eliminando água parada em recipientes de qualquer tamanho, para reduzir a cadeia de transmissão. "Tira 10 minutos do seu tempo por semana e olhe o seu domicílio, olhe as tampinhas de garrafa dentro de casas, vasilhas de 'pet', destrua esses criadouros que só assim ao longo do tempo a gente vai ter uma melhora da situação", orienta o secretário às famílias.