Estimulantes, exposição à luz e jornadas prolongadas estão entre os fatores que prejudicam o descanso.
Após aquele longo dia de trabalho, nem sempre é fácil conseguir uma boa noite de sono. Para algumas pessoas, o descanso é interrompido por despertares frequentes, pensamentos acelerados ou uma sensação de cansaço que persiste mesmo após horas na cama.
Segundo a Fiocruz, 72% dos brasileiros convivem com distúrbios do sono, como insônia, apneia e narcolepsia. Especialistas apontam que cafeína, refeições pesadas à noite, telas e álcool prejudicam o descanso. A estudante Victória Graffunder, diagnosticada com ansiedade, usa remédios, mas ainda dorme mal. A enfermeira Deborah Nunes, afastada por burnout, atribui o quadro aos plantões noturnos. Recomendam-se higiene do sono e acompanhamento médico.
Você se identificou? Pois saiba que não está só, já que a situação é mais comum do que parece. Segundo levantamento da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), realizado em 2023, 72% dos brasileiros convivem com distúrbios do sono, como insônia e apneia.
Na busca por noites melhores, há quem recorra a suplementos, medicamentos e mudanças na rotina. Mas hábitos aparentemente inofensivos, como tomar café no fim da tarde ou consumir tereré à noite, também podem interferir no descanso.
O café, tão presente na rotina dos brasileiros, é conhecido pelo efeito estimulante, mas não é o único alimento que contém cafeína. A substância também está no chocolate, no chá-mate e no tereré, companheiro de muitos sul-mato-grossenses.
O nutricionista Pedro Hernandes, de 24 anos, explica que o organismo pode levar de três a oito horas para eliminar metade da cafeína consumida. Por isso, o horário em que a bebida é ingerida faz diferença.
“Se você consumiu 50 mg de cafeína às 8h, às 16h o seu organismo ainda terá 25 mg da substância”, exemplifica Pedro.
Hábito cultural de MS - O tereré geralmente apresenta menor concentração de cafeína por porção do que uma xícara de café, que pode ultrapassar 100 mg da substância. Ainda assim, também tem efeito estimulante. A quantidade de cafeína ingerida depende de fatores como a erva utilizada, o tempo de contato com a água e o volume consumido.
A estudante Victória Graffunder, de 23 anos, enfrenta dificuldades para dormir desde os 15. Depois de procurar atendimento médico e passar por exames, começou a usar medicamentos para ajudar no sono. Mesmo assim, conta que continua acordando várias vezes durante a noite.
“Durmo assim, mais ou menos, porque acordo bastante. Mas pelo menos eu durmo à noite. Durante o dia, tenho que tomar um café para não sentir tanto sono, porque sinto muito cansaço”, relata.
Victória também foi diagnosticada com ansiedade e já tentou adotar estratégias de higiene do sono, como reduzir o uso de telas antes de dormir. Segundo ela, porém, a principal dificuldade está nos pensamentos que surgem quando se deita.
“Já tentei diminuir tela perto do horário de dormir. Percebo que a minha maior dificuldade é o pensamento acelerado, a frequência de pensamentos causados por preocupação na hora de dormir”, afirma.
Hábitos que atrapalham - As escolhas feitas ao longo do dia também podem influenciar a qualidade do sono. A alimentação é uma delas. Segundo Pedro, refeições muito volumosas ou pesadas perto da hora de dormir podem provocar desconforto e prejudicar o descanso.
O nutricionista recomenda concentrar as refeições maiores no café da manhã e no almoço, evitando excessos à noite.
A luminosidade é outro fator importante. O organismo produz melatonina, hormônio envolvido na regulação do ciclo de sono e vigília, principalmente em ambientes escuros. Por isso, reduzir a intensidade das luzes à noite pode ajudar a preparar o corpo para dormir.
Pedro explica que a exposição à luz intensa, inclusive a de dispositivos eletrônicos, pode interferir nesse processo. Entre as medidas de higiene do sono estão diminuir o uso de telas antes de deitar, reservar a cama para dormir e evitar o consumo de álcool, tabaco e cafeína perto do horário de descanso.
A melatonina também é comercializada como suplemento, mas seu uso exige orientação adequada. O mesmo cuidado vale para vitaminas, como a B12, cuja deficiência pode provocar cansaço, mas cuja suplementação não representa, por si só, um tratamento para distúrbios do sono.
Para Victória, a dificuldade para descansar também está relacionada ao ritmo da vida cotidiana. “Tudo é muito rápido, tudo é muito estressante”, afirma.
A estudante reforça a importância de procurar atendimento médico, fazer exames quando indicados e buscar acompanhamento psicológico para identificar as causas da dificuldade para dormir.
“Porque aí você pode ir na raiz desse problema e, se for necessário, medicação, suplementação, mudança de hábito, de rotina também”, diz.
Quando o trabalho não deixa descansar - Nem sempre é possível manter uma rotina regular de sono. Para profissionais que trabalham em turnos ou cumprem plantões noturnos, o desafio pode ser ainda maior.
É o caso da enfermeira Deborah Nunes, de 26 anos, que trabalha em um hospital público e está afastada por burnout. Segundo ela, mesmo quando conseguia dormir, acordava cansada.
“Uma das coisas que a minha psiquiatra falou foi que eu, mesmo dormindo, continuava cansada porque o meu sono não era reparador”, conta.
Deborah acredita que a falta de descanso contribuiu para o esgotamento que enfrenta. Ela relata já ter cumprido um plantão de 30 horas no CTI (Centro de Terapia Intensiva), sem conseguir descansar plenamente.
“As pessoas que fazem plantões noturnos acabam trocando o dia pela noite ou então fazem muitas horas seguidas. Aí dormem duas horas por noite, emendam um plantão no outro”, relata.
Na avaliação da enfermeira, o consumo de cafeína para suportar jornadas prolongadas também faz parte da rotina de muitos profissionais de saúde, criando um ciclo em que o estimulante ajuda a permanecer acordado, mas pode dificultar o descanso depois do expediente.














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