Criada em Bonito por Mirian Lúcia Queiroz e Ronaldo Caires, Guavira Alimentos superou desafios de produção e regularização para lançar um novo produto e chegar a 21 pontos de venda.

Da guavira ao butiá: casal transforma frutos do Cerrado em kombucha com identidade sul-mato-grossense
Em pouco tempo, a kombucha passou a ser comercializada em estabelecimentos de Bonito, Campo Grande, Sidrolândia e Maracaju. / Foto: Silva Fotógrafo

O que começou com algumas xícaras de kombucha compartilhadas por uma amiga transformou-se em um negócio que carrega sabores, histórias e elementos da biodiversidade de Mato Grosso do Sul. Em Bonito, o casal Mirian Lúcia Queiroz e Ronaldo Caires criou a Guavira Alimentos "Kombucha Guavira", marca artesanal que apostou nos frutos nativos do Cerrado para desenvolver produtos com identidade regional e valor agregado.

Depois de enfrentar dificuldades técnicas e regulatórias, os empreendedores iniciam uma nova etapa: o lançamento da kombucha de butiá. Com receita padronizada, rotulagem adequada e registro no Ministério da Agricultura e Pecuária, o produto já está pronto para chegar às prateleiras. O Santos Supermercado, em Bonito, será o primeiro ponto de venda da novidade.

A relação do casal com a bebida começou sem qualquer pretensão comercial. Mirian conheceu a kombucha na casa de uma amiga e convidou Ronaldo para experimentar. Como queriam consumir a bebida com frequência, receberam uma cultura de fermentação – conhecida como "scoby" – e aprenderam os primeiros passos da produção artesanal.

Com experiência profissional na cozinha e interesse pelos processos culinários, Ronaldo assumiu os testes iniciais. A produção começou dentro de casa, em recipientes de vidro reaproveitados, enquanto o casal experimentava combinações com frutas, ervas e especiarias. "Uma amiga nos apresentou a kombucha e ensinou como produzir. Começamos fazendo apenas para o nosso consumo, sem imaginar que aquilo poderia se tornar um negócio. Como o Ronaldo já trabalhava com cozinha, ele se interessou pela receita e passou a estudar para melhorar o produto", contou Mirian.

Da cozinha de casa para o mercado

As primeiras receitas nem sempre apresentavam o resultado esperado. Algumas garrafas tinham pouca gaseificação; outras acumulavam resíduos ou desenvolviam pressão excessiva. Em uma das tentativas com guavira, o casal acordou durante a madrugada com o barulho das garrafas estourando no espaço de produção.

O episódio revelou a complexidade de trabalhar com uma bebida fermentada e motivou Ronaldo a buscar conhecimento técnico. Ele participou de cursos sobre produção artesanal, fermentação, padronização e fabricação em maior escala. "Eu olhava para as kombuchas disponíveis no mercado e queria entender por que as nossas ainda apresentavam resíduos, diferenças de acidez ou pressão excessiva. A partir dos cursos, comecei a compreender melhor a fermentação e a padronizar cada etapa do processo", relatou Ronaldo.

Depois de meses de testes, as receitas se tornaram mais estáveis. Ainda assim, vender não estava nos planos. A mudança ocorreu quando familiares e amigos experimentaram a bebida e incentivaram o casal a levar o produto ao mercado.

A primeira caixa seguiu para Campo Grande e teve boa aceitação. Em pouco tempo, a kombucha passou a ser comercializada em estabelecimentos de Bonito, Campo Grande, Sidrolândia e Maracaju. Mesmo sem equipamentos automatizados para o envase e o fechamento das garrafas, a produção chegou a aproximadamente 900 unidades mensais.

Um produto com raízes no território

Desde o início, Mirian e Ronaldo buscavam um diferencial que conectasse a kombucha à identidade de Mato Grosso do Sul. Enquanto sabores como uva, maracujá e hibisco já eram comuns no mercado, os frutos do Cerrado surgiram como alternativa para valorizar a biodiversidade regional. A guavira foi a primeira escolha, inspirada na vivência de Ronaldo com o fruto desde a infância e na experiência com a utilização na gastronomia. Para transformá-la em kombucha, o casal dedicou cerca de um ano e meio ao desenvolvimento da receita, ajustando filtragem, quantidade de polpa e tempo de fermentação até alcançar um produto estável.

"Nosso diferencial é trabalhar com a valorização dos frutos do Cerrado e do Pantanal. Por trás deles também estão os coletores e as famílias que vivem dessa atividade. Quando compramos a produção dessas pessoas, não valorizamos somente o fruto, mas uma cadeia inteira ligada ao território", explicou Ronaldo.

O próprio nome da marca nasceu dessa escolha. Durante uma mentoria, surgiu a sugestão de adotar "Kombucha Guavira", reunindo em uma única expressão o produto e sua origem regional. Posteriormente, a marca comercial passou a ser Guavira Alimentos, abrindo espaço para que o empreendimento desenvolva, futuramente, outros produtos além das bebidas fermentadas. A identidade regional também aparece nos rótulos, inspirados no grafismo do povo indígena Kadiwéu, presente em Mato Grosso do Sul.

"Queríamos um nome que remetesse ao lugar onde vivemos e uma identidade visual que carregasse a cultura da região. A guavira tem relação com esse território, com a alimentação e com a história dos povos que vivem aqui. Por isso, o nome e o grafismo fazem parte da essência da marca", afirmou Mirian.

Transformando obstáculos em oportunidades

Apesar da boa aceitação do mercado, a kombucha de guavira precisou ser retirada de circulação porque o fruto não constava na lista de vegetais autorizados pela legislação para esse tipo de bebida. A decisão interrompeu a regularização da fábrica e levou o casal a suspender praticamente toda a produção por cerca de um ano e meio, mantendo apenas pequenos lotes para preservar as culturas de fermentação. "Foi um balde de água fria. A guavira era o nosso carro-chefe e tínhamos investido tudo o que podíamos na estrutura", relembra Mirian.

A retomada aconteceu com o apoio técnico de profissionais que identificaram potencial no negócio e auxiliaram na conclusão da regularização do estabelecimento. Foram identificados sabores autorizados, como maracujá com gengibre, hibisco com especiarias e a versão original. Hoje, a Guavira Alimentos está presente em 21 pontos de venda em Bonito, Campo Grande e outros municípios de Mato Grosso do Sul.

Sem abrir mão da proposta de valorizar a biodiversidade regional, Ronaldo encontrou no butiá uma alternativa viável entre os frutos permitidos pela legislação. Após cerca de quatro meses de testes, a empresa desenvolveu a kombucha de butiá. "Muitas pessoas experimentam e dizem que o sabor remete à infância. Primeiro aparece a acidez, depois vem um dulçor do coco e, ao final, uma nota cítrica. É um fruto exótico, peculiar e que representa muito bem essa proposta de apresentar o Cerrado de uma maneira diferente", descreveu Ronaldo.

Com o novo sabor regularizado, o casal também pretende ampliar a rede de fornecedores, incentivando coletores que já trabalham com a guavira a comercializarem o butiá durante o período da safra.

Para Mirian, encontrar o produto pronto para ocupar as gôndolas representa a superação de uma trajetória marcada por tentativas, investimento e persistência. "É uma mistura de realização, pertencimento e merecimento. Tivemos muitas frustrações e renunciamos a várias coisas para manter esse sonho vivo. Ver um produto com a nossa identidade, feito com um fruto do Cerrado e totalmente regularizado, é a concretização de algo que começou dentro da nossa casa", destacou a empreendedora.

Conhecimento para crescer

Ao longo da trajetória, a Guavira Alimentos recebeu apoio do Sebrae/MS por meio de consultorias, capacitações e iniciativas voltadas à estruturação e à inovação do negócio. Entre os atendimentos, estiveram orientações relacionadas ao registro dos produtos, à adequação dos rótulos e à organização do processo produtivo, com suporte técnico desenvolvido também em parceria com o Senac.

A empresa participou ainda do programa Inova Cerrado, iniciativa voltada a apoiar pequenos negócios que desenvolvem soluções relacionadas à biodiversidade do bioma. "O Inova Cerrado foi um divisor de águas. Além de ampliar a produção, passamos a entender melhor a linguagem do mercado, as relações entre empresas, a comunicação e a estrutura necessária para crescer. Foi um estímulo para aperfeiçoar o negócio e continuar inovando", avaliou Mirian.

O apoio técnico também tornou viável o processo de registro dos produtos, que teria um custo elevado para o pequeno negócio. Com subsídio de parte do investimento, os empreendedores conseguiram avançar na regularização e adequar os rótulos às exigências legais.

Da guavira ao butiá: casal transforma frutos do Cerrado em kombucha com identidade sul-mato-grossense