Operações do Gaeco revelaram infiltração criminosa nas forças de segurança.
A sequência de operações conduzidas pelo Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado), do MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul), nos últimos anos revela diferentes formas de aproximação entre organizações criminosas e integrantes das forças de segurança. O que começou com investigações sobre tráfico estruturado, financiamento milionário da compra de drogas e transporte interestadual de entorpecentes avançou para uma apuração ainda mais sensível: a suspeita de que integrantes das próprias forças de segurança poderiam estar desviando entorpecentes apreendidos pelo Estado.
Operações do Gaeco em Mato Grosso do Sul revelaram conexões entre organizações criminosas e forças de segurança. A Operação Infiltrados, deflagrada nesta quinta-feira (24), cumpriu 26 mandados de prisão contra policiais civis, militares e penal suspeitos de desviar drogas apreendidas. Entre os alvos está o delegado Hoffman D'Ávila, ex-chefe da Denar e do Garras, que se apresentou após buscas em sua residência.
A Operação Infiltrados, deflagrada nesta quinta-feira (24), não surgiu de uma investigação isolada. Segundo o Gaeco, a apuração teve origem em elementos encontrados durante a análise de provas coletadas contra os alvos da Traquetos e Blindspot, ações que já haviam revelado conexões entre traficantes, financiadores, transportadores e servidores públicos suspeitos de usar informações privilegiadas em benefício de criminosos.
Agora, a investigação aponta para outra direção: policiais que tinham acesso direto às apreensões usavam da estrutura estatal para retirar drogas de circulação oficial e devolver o material ao mercado ilegal.
Tráfico com estrutura empresarial – Desencadeada em agosto de 2023, a Operação Traquetos investigou uma organização apontada pelo Gaeco como responsável por um esquema milionário de tráfico e lavagem de dinheiro.
A investigação descreveu uma estrutura diferente do comércio tradicional de entorpecentes, com pessoas responsáveis por financiar cargas, organizar transporte e movimentar valores obtidos com a venda de drogas.
As apurações identificaram como lideranças do grupo o empresário Florisvaldo de Gaspari Favareto, conhecido como Gaspar, além de Maicon Igo Barbosa Moreira, o Gordinho, e Wellington Aquino Braga, o Tom.
Segundo o Gaeco, o trio era responsável pela aquisição e transporte das drogas, desde a compra do entorpecente com fornecedores até a preparação dos veículos utilizados no transporte e a venda.
A organização tinha como base Mato Grosso do Sul, com atuação em cidades como Bela Vista, Ponta Porã, Anastácio, Aquidauana e Campo Grande, e enviava drogas principalmente para Bahia, Goiás e São Paulo.
A investigação apontou uma estrutura com rede de batedores e pontos de apoio, em uma dinâmica comparada pelo próprio nome da operação aos antigos cartéis colombianos. O termo "traquetos" faz referência aos narcotraficantes conhecidos por comandar estruturas tradicionais do tráfico em Medellín e Cali.
Oficina do tráfico – O empresário Florisvaldo Favareto foi apontado como uma das figuras centrais da investigação. Dono de uma oficina na Avenida Guaicurus, em Campo Grande, ele foi monitorado pelo Gaeco durante sete meses.
Segundo a investigação, o local era utilizado para preparar veículos usados no transporte de drogas e armas. O acompanhamento começou após a apreensão de entorpecentes e avançou quando investigadores identificaram um Jeep Renegade furtado na oficina.
A partir disso, o Gaeco passou a monitorar movimentações no endereço e registrou carros que depois apareceram envolvidos em apreensões de drogas. Entre os exemplos citados pela investigação está uma Fiat Strada usada por batedores de uma carga de drogas e uma Chevrolet Silverado flagrada pela PRF (Polícia Rodoviária Federal) com 185 quilos de maconha em Jataí (GO). Conforme os investigadores, os veículos haviam passado pela oficina antes dos flagrantes.
O investidor – Outro personagem da Traquetos foi o pecuarista e médico veterinário Milton Moro Rabesquine. Segundo o Gaeco, ele não participava diretamente da compra e venda da droga, mas atuava como financiador do esquema.
A investigação apontou que Rabesquine teria investido mais de R$ 1 milhão na atividade criminosa, atraído pela possibilidade de retorno financeiro superior ao de aplicações tradicionais.
Segundo o Ministério Público, o pecuarista mantinha veículos de alto valor como garantia dos investimentos. A investigação apontou ainda que carros ligados ao grupo foram encontrados na residência dele, no condomínio Damha 2, em Campo Grande.
Entre os veículos citados estavam uma Dodge Ram avaliada em cerca de R$ 500 mil, uma Land Rover Discovery Sport e uma Toyota Hilux ligada a uma pessoa investigada por lavagem de capitais. Rabesquine foi denunciado por organização criminosa e financiamento do tráfico.
Blindspot – Em julho de 2025, a Operação Blindspot revelou outra frente de atuação de organizações: o uso de caminhoneiros para transporte interestadual de drogas.
A investigação apontou uma quadrilha que atuava em Mato Grosso do Sul, São Paulo e Minas Gerais, utilizando motoristas cooptados para transportar cocaína e pasta-base escondidas em mochilas, estepes, cilindros de oxigênio adulterados e caixas misturadas a cargas lícitas.
Durante a operação, foram cumpridos 67 mandados, sendo 37 de prisão e 30 de busca e apreensão. A investigação apreendeu uma carga superior a 400 quilos de drogas, incluindo cocaína, pasta-base, haxixe e skunk.
Mas a Blindspot trouxe ainda outro elemento: a suspeita de infiltração de um servidor público na organização. Um dos alvos da operação foi o policial penal Jonathas Wilson Moraes Cândido.
Ele já era réu em outro processo, derivado da Operação Courrier, que revelou o trabalho de grupo conhecido como “Sintonia dos Gravatas”, formado por advogados e servidores que “vendiam” favores a presos ligados ao PCC (Primeiro Comando da Capital), fazendo a conexão dos detentos com o mundo fora dos presídios.
Na Blindspot, o Gaeco investigou a relação dele com Edimilson Santos Pereira, apontado como “chefão” da facção criminosa. Segundo a investigação, Jonathas teria compartilhado informações sigilosas do sistema prisional e da segurança pública.
O Gaeco apontou que ele realizou consultas restritas, enviou dados de presos, consultou placas de veículos e repassou informações sobre operações. Em um dos episódios citados pela investigação, o policial penal teria enviado uma foto de tela de sistema oficial com dados de um interno que devia R$ 300 mil ao traficante.
Combatentes suspeitos – A Operação Infiltrados representa uma mudança no eixo das investigações. Se nas operações anteriores, o Gaeco identificou traficantes, financiadores, transportadores e servidores suspeitos de favorecer criminosos, agora a apuração passou a mirar integrantes das próprias forças responsáveis pela repressão ao tráfico.
A suspeita é que policiais tenham desviado drogas apreendidas, especialmente cocaína, usando o acesso funcional aos entorpecentes sob custódia do Estado. A operação cumpriu 26 mandados de prisão e 38 buscas em Campo Grande, Dourados e Terenos. Entre os alvos estavam policiais civis, militares e policial penal.
Entre os nomes de maior repercussão está o delegado Hoffman D’Ávila Cândido e Sousa, que já comandou a Denar (Delegacia Especializada de Repressão ao Narcotráfico) e o Garras (Delegacia Especializada de Repressão a Roubos a Bancos, Assaltos e Sequestros).
Durante a operação, equipes do Gaeco foram até a residência do delegado, mas ele não foi encontrado inicialmente. A situação levou à apuração sobre possível vazamento de informações antes da ação.
A defesa negou fuga e afirmou que Hoffman não sabia da operação. Horas depois, o delegado se apresentou e passou a cumprir a prisão preventiva determinada pela Justiça.
Até o momento, o Gaeco não divulgou qual seria exatamente a conduta atribuída ao delegado dentro do esquema investigado.
Mais presos – Entre os presos também estão os investigadores da Polícia Civil: Nelson Ricardo Barros de Oliveira, de 40 anos; Douglas Tobias, de 45 anos; Neverson Vieira de Araújo, de 44 anos; Luiz Carlos de Souza, de 37 anos; Nilton César Sales dos Santos, de 55 anos, Wesley Benites; e o ex-policial civil Augusto Torres Galvão Florindo, de 39 anos, conhecido como “Paraíba”.
Foram alvos de mandados de prisão ainda o policial militar Alison Lemes Bezerra, o policial penal Vitor Ribeiro Venancio dos Santos, que já estava preso, além de Valdenice da Silva Goes, mãe de um dos investigados, e Ana Carolina da Silva dos Santos, apontada como irmã de um suspeito.
Kayon Lucas Leodoro da Silva, de 19 anos, e Ebert de Almeida, também estão na lista de presos.













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