O cenário político e jurídico brasileiro ganhou novos contornos nas últimas semanas com um duplo movimento que colocou o Supremo Tribunal Federal (STF) novamente no centro das atenções.
De um lado, um levantamento exclusivo revela que o ministro Dias Toffoli ultrapassou Alexandre de Moraes como o principal foco de ataques de parlamentares da direita no Congresso Nacional. De outro, documentos obtidos pela imprensa mostram repasses milionários envolvendo um fundo ligado ao dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, e uma empresa da família do magistrado.
A virada no alvo preferencial da oposição reflete não apenas o desgaste natural de Moraes — que por anos foi o centro das críticas devido à sua atuação na condução de inquéritos contra o bolsonarismo — mas também o acúmulo de revelações envolvendo Toffoli. O ministro, que recentemente deixou a relatoria do caso Master no STF, viu seu nome envolvido em uma complexa teia de transações financeiras que agora vêm a público.
De acordo com reportagem do jornal Estadão, extratos bancários mostram que um fundo de investimentos utilizado por Daniel Vorcaro para comprar parte da participação do ministro Dias Toffoli no resort Tayayá movimentou cerca de R$ 35 milhões. As transações foram realizadas por meio de uma engenharia financeira que envolve o fundo Arleen, que adquiriu metade da participação de R$ 6,6 milhões em capital social da Maridt S.A. — empresa da família Toffoli — nas empresas responsáveis pela gestão do empreendimento de luxo localizado no Paraná.
O pastor Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, era o único cotista do fundo Leal, administrado pela Reag Investimentos — também investigada pela Polícia Federal no caso Master. O Leal, por sua vez, é o único cotista do fundo Arleen, usado para comprar a participação da família Toffoli no resort.
Em 27 de setembro de 2021, o Arleen passou a ser sócio das empresas Tayaya Administração e DGEP Empreendimentos, gestora e incorporadora dos terrenos onde foi construído o Tayayá. Ao todo, os documentos mostram que o fundo investiu R$ 35 milhões no empreendimento — avaliado em mais de R$ 200 milhões — no qual a Maridt possuía participação societária.
Mensagens e pressões
As datas dos aportes coincidem com mensagens obtidas pela Polícia Federal no celular de Vorcaro, em que ele pressiona Zettel para realizar as aplicações. Em maio de 2024, Vorcaro questionou: “Você não resolveu o aporte do fundo Tayayá? Estou em situação ruim”. Em agosto do mesmo ano, voltou a cobrar: “Cara, me deu um puta problema. Onde tá a grana?”.
Zettel respondeu listando os aportes já realizados: “Pagamos 20 milhões lá atrás. Agora mais 15 milhões”. O valor de R$ 15 milhões foi depositado em julho de 2024, mas só chegou ao fundo Arleen em fevereiro de 2025.
Diante das revelações, o plenário do STF tomou uma decisão inédita na última quinta-feira (12): tirar Toffoli da relatoria do caso Master sem, no entanto, declará-lo suspeito. A solução “extravagante”, na visão de especialistas, expõe uma crise profunda na Corte e a tradição de nunca reconhecer suspeição ou impedimento de ministros sem que seja por autodeclaração.
O professor de direito constitucional do Insper, Luiz Fernando Esteves, classificou a situação como inédita: “Não me lembro de uma crise ética tão grave assim no Supremo Tribunal Federal”. Já Conrado Hübner Mendes, professor da USP, criticou a decisão: “Se Toffoli não é suspeito, vai continuar a votar, o que é muito grave. Se não é suspeito, só deixou de ser relator”.
Toffoli nega envolvimento
Em nota divulgada anteriormente, o ministro negou ter recebido pagamentos de Vorcaro ou manter relação de amizade com o banqueiro. Em nova manifestação de 12 de fevereiro, Toffoli admitiu ser sócio da Maridt, mas afirmou que a empresa é administrada por familiares e que a companhia foi integrante do grupo Tayaya Ribeirão Claro apenas até 21 de fevereiro de 2025, com venda declarada à Receita Federal e feita dentro do valor de mercado.
O ministro também esclareceu que se tornou relator do caso Master no STF apenas em 28 de novembro de 2025, quando a Maridt já não fazia mais parte do grupo Tayaya, e reiterou que jamais teve qualquer relação de amizade íntima com Vorcaro ou recebeu valores do banqueiro ou de seu cunhado.
Oposição articula impeachment
No Congresso, a oposição estima que as novas revelações vão impulsionar os pedidos de impeachment de ministros do Supremo. Na última quinta-feira, deputados e senadores protocolaram um novo pedido de afastamento contra Dias Toffoli. Até hoje, o Senado nunca votou um pedido de impedimento contra ministros do STF.
Paralelamente, na CPI do Crime Organizado, o relator Alessandro Vieira (MDB-RS) e o presidente Fabiano Contarato (PT-ES) apresentaram requerimentos para quebra de sigilo da Reag Investimentos e convocação dos irmãos de Toffoli para depor.
Em meio à crise, analistas políticos questionam o que classificam como “duplo padrão” no tratamento dado a diferentes episódios envolvendo o STF. Enquanto críticos apontam que a Corte exagerou em suas atribuições contra a direita nos últimos anos, agora estaria sendo alvo de vazamentos seletivos e pressões que, em outros contextos, seriam classificadas como ataques à democracia.
O caso Banco Master e seus desdobramentos envolvendo Toffoli prometem continuar ocupando as manchetes e os debates nos corredores do poder nos próximos dias, em um ano eleitoral que já se anuncia particularmente turbulento para as relações entre os Poderes.











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