Segundo Lincoln Gakiya, facção deixou de atuar apenas no tráfico interno e passou a operar como uma “multinacional do crime”, com infiltração econômica, lavagem de dinheiro e atuação internacional.
O Primeiro Comando da Capital (PCC) atingiu um grau de sofisticação semelhante ao das máfias italianas, com domínio territorial, infiltração na economia formal e atuação transnacional. A avaliação é do promotor de Justiça Lincoln Gakiya, do Ministério Público de São Paulo (MPSP), que há mais de duas décadas atua no combate ao crime organizado.
Em entrevista ao Estado de S. Paulo, Gakiya afirmou que o PCC deixou de ser apenas uma facção voltada ao tráfico de drogas dentro do país e passou a funcionar como uma estrutura criminosa empresarial, com operadores financeiros, empresas formais e mecanismos sofisticados de lavagem de dinheiro. Segundo ele, o modelo atual se aproxima do padrão observado em organizações mafiosas internacionais.
De acordo com estimativas do Ministério Público, o PCC movimenta cerca de R$ 10 bilhões por ano, tendo o tráfico internacional de cocaína como principal fonte de receita. Esse volume financeiro, segundo o promotor, permitiu à facção diversificar investimentos e penetrar em setores como imóveis de alto padrão, fundos privados, fintechs e criptoativos, utilizando empresas que não se apresentam, necessariamente, como fachadas.
Gakiya também aponta que o Comando Vermelho (CV) passou por transformação semelhante, superando o modelo tradicional de facção criminosa. A avaliação está registrada no livro O Brasil Livre das Máfias, lançado pelo promotor em parceria com o advogado Walfrido Warde.
O promotor cita o assassinato de Antônio Vinícius Gritzbach, ocorrido no fim de 2024, como exemplo do grau de sofisticação alcançado pelo PCC. Segundo ele, o caso revelou a existência de operadores financeiros especializados em inserir recursos do tráfico internacional na economia formal.
Nesse contexto, a Operação Carbono Oculto, deflagrada em 2024, buscou atingir o núcleo financeiro da facção ao investigar esquemas de lavagem de dinheiro ligados ao setor de combustíveis, com ramificações em áreas de alto valor econômico, como a Avenida Brigadeiro Faria Lima, em São Paulo. Para Gakiya, embora a operação tenha indicado um caminho eficaz, iniciativas semelhantes enfrentam dificuldades para avançar no cenário político atual.
O promotor defende a criação de uma autoridade nacional antimáfia, com autonomia administrativa, orçamento próprio e capacidade de integrar forças policiais, Ministérios Públicos, Receita Federal e órgãos de controle financeiro. Segundo ele, a falta de coordenação nacional e as disputas institucionais enfraquecem o combate a organizações criminosas que atuam além das fronteiras estaduais e nacionais.
Com líderes históricos isolados em presídios federais, como Marcola, o PCC passou a operar com comandantes mais jovens nas ruas. De acordo com Gakiya, essa nova geração tende a ser mais violenta e menos comprometida com regras internas da facção, o que pode gerar conflitos internos e aumento dos índices de homicídios.
O promotor também critica estratégias baseadas exclusivamente no confronto armado, citando operações de grande impacto que não são acompanhadas de presença permanente do Estado. Para ele, ações pontuais produzem apenas efeitos temporários e permitem que o crime retorne com mais força após a retirada das forças de segurança.
Segundo Gakiya, o enfrentamento eficaz ao crime organizado exige inteligência financeira, integração institucional e atuação contínua do Estado, sob risco de o Brasil consolidar estruturas criminosas cada vez mais próximas das máfias internacionais.











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