Um dos detidos usava identidade falsa e, segundo as autoridades, é procurado no Brasil por tráfico de drogas.

Polícia paraguaia prende dois suspeitos de ligação com o PCC na fronteira com a Argentina
Tatuagem de um dos presos chamou a atenção de policiais paraguaios. / Foto: Reprodução, Polícia Nacional

A Polícia Nacional do Paraguai prendeu dois homens suspeitos de integrar o PCC (Primeiro Comando da Capital) durante uma operação na região de Puerto Itavera, no distrito de Domingo Martínez de Irala, no departamento de Alto Paraná. A ação faz parte da ofensiva de segurança nas áreas de fronteira desenvolvida pelo governo paraguaio em cooperação com o Brasil.

De acordo com as informações divulgadas pelas autoridades, os suspeitos circulavam sem documentos e atuavam de maneira clandestina após terem ingressado no Paraguai pela Argentina. Durante a abordagem, um deles teria informado aos policiais um nome falso.

Inicialmente, o homem se apresentou como Fernando Mello Pereira. No entanto, verificações posteriores apontaram que sua verdadeira identidade seria Anderson Cleiton da Silva. Ele seria procurado pela Justiça brasileira por envolvimento com o tráfico de drogas.

A confirmação da identidade ainda deverá ser formalizada pelos procedimentos legais e pelos canais de cooperação entre os dois países. Caso a situação seja confirmada, o suspeito poderá ser submetido a medidas relacionadas à ordem de captura existente no Brasil e a eventual processo de extradição.

O outro preso foi identificado, mas segundo as forças de segurança, ele não possuía antecedentes criminais registrados.

A polícia, entretanto, informou que o homem chamou a atenção dos investigadores por apresentar tatuagens visíveis em diferentes partes do corpo. Os desenhos seriam semelhantes a símbolos associados à cultura criminal e à identidade visual atribuída ao PCC.

A presença de tatuagens, por si só, não comprova participação em uma organização criminosa. O elemento deverá ser analisado em conjunto com outras informações da investigação, como vínculos pessoais, deslocamentos, comunicações, documentos e eventual relação com integrantes já identificados pela polícia.

Os dois suspeitos foram encaminhados para os procedimentos legais. Até o momento, não foram divulgados detalhes sobre a existência de armas, drogas ou outros materiais apreendidos durante a abordagem.

`Gerente de disciplina`

A prisão em Alto Paraná ocorreu poucos dias depois de outra ação contra integrantes suspeitos da facção brasileira. Em 12 de agosto, a polícia paraguaia prendeu Sergio Francia Bernal, conhecido pelo apelido de "Bada", em Mariano Roque Alonso.

Segundo as autoridades, Bernal exerceria a função de "gerente de disciplina" do PCC no território paraguaio. A atribuição indicaria uma posição de comando relacionada ao controle interno e à aplicação de regras da organização, embora a acusação ainda dependa de comprovação no curso do processo.

A prisão ocorreu em meio a um cenário de violência dentro do sistema penitenciário paraguaio. Horas antes da captura de "Bada", o brasileiro Rubén Fernando Verfer foi morto a golpes de faca dentro da cela disciplinar do Centro de Prevenidos de Ciudad del Este.

O episódio reforçou as preocupações das autoridades sobre a influência de facções brasileiras nas penitenciárias paraguaias. Investigações policiais e declarações de integrantes do governo apontam que os presídios são utilizados tanto para o recrutamento de novos membros quanto para a coordenação de atividades criminosas fora das unidades prisionais.

Paraguai já identificou cerca de mil suspeitos

O Departamento de Combate ao Crime Organizado informou que os órgãos de segurança paraguaios já identificaram aproximadamente mil integrantes do PCC atuando no país. A estimativa evidencia a dimensão da presença de organizações criminosas brasileiras em território paraguaio, sobretudo nas regiões de fronteira.

Desse total, entre 450 e 500 pessoas estariam cumprindo penas em penitenciárias paraguaias. A concentração de integrantes e possíveis lideranças dentro do sistema carcerário é considerada um dos principais desafios para a segurança pública.

As autoridades reconhecem que as prisões se transformaram em centros de recrutamento e articulação da facção. A partir desses locais, integrantes condenados ou presos preventivamente poderiam manter contato com membros em liberdade e influenciar atividades criminosas, como tráfico de drogas, homicídios, extorsões e contrabando.

A situação também dificulta o controle da população carcerária e amplia o risco de confrontos entre grupos rivais. Rebeliões, assassinatos e disputas internas podem estar relacionados à tentativa de facções de preservar o domínio sobre unidades prisionais e rotas criminosas.

Cooperação internacional

A ofensiva paraguaia inclui ainda a expulsão e a entrega ao Brasil de criminosos procurados pela Justiça. Recentemente, o governo paraguaio extraditou Ricardo Alexandre de Andrade Pereira, apontado como integrante do PCC e responsável pela função de sicário em Salto del Guairá.

Segundo as autoridades, Pereira acumulava cinco ordens de captura internacional por homicídio. A entrega ao Brasil ocorreu dentro dos mecanismos de cooperação judicial e policial entre os dois países.

Além das prisões, as operações têm como objetivo ampliar o intercâmbio de informações, identificar lideranças, desarticular redes de apoio e impedir que criminosos procurados utilizem o Paraguai como refúgio ou base operacional.

A atuação conjunta entre os governos de Santiago Peña e Luiz Inácio Lula da Silva busca reforçar o controle nas fronteiras e combater organizações que operam em mais de um país. A região de Alto Paraná é considerada estratégica devido à proximidade com o Brasil e à conexão com rotas internacionais que passam também pela Argentina e pela Bolívia.

Pressão se estende a outros países

O avanço das facções brasileiras não se limita ao Paraguai. Na Bolívia, o governo lançou o Plano Fronteiras Seguras, com foco no combate ao tráfico de drogas e à violência associada a grupos criminosos organizados.

A estratégia boliviana prevê o emprego de agentes especializados, o reforço do policiamento em áreas de fronteira e o compartilhamento de informações com o Brasil. A cooperação busca acompanhar a movimentação de integrantes de facções, identificar rotas de tráfico e impedir a instalação de estruturas criminosas em novas regiões.

A prisão dos dois suspeitos em Puerto Itavera, portanto, integra um cenário mais amplo de enfrentamento ao crime organizado transnacional. Embora as autoridades apontem vínculos com o PCC, a confirmação definitiva da participação dos detidos na facção dependerá da investigação, da análise das provas e das decisões judiciais.