Investigação já descartou pane e aponta que piloto decolou faltando 5 minutos para infringir horário; ele ainda pediu ajuda de 'luz de trator'

Piloto violou horário e usou luz de trator para decolar avião que matou arquiteto chinês em queda no Pantanal
/ Foto: (Polícia Civil de MS/Divulgação)

Assim como um “fechar de cortinas”, quem é pantaneiro de verdade sabe que o escurecer ocorre entre as 18h e as 18h30, em uma rapidez impressionante. A frase é literal: “Não se vê mais nada”. É quando se inicia a sinfonia da vida noturna no Pantanal e muitos utilizam a “focagem” — que é o uso de luzes — para encontrar animais. E foi justamente em mais um dia comum como esse que uma tragédia ocorreu, causando as mortes do renomado arquiteto chinês Kongjian Yu, dos cineastas Rubens Crispim e Luiz Fernando e do piloto Marcelo Pereira.

O acidente aéreo, ocorrido em solo sul-mato-grossense no dia 23 de setembro de 2025, na Fazenda Barra Mansa, em Aquidauana, chocou o mundo. Na época, foi feito o registro como “colisão com obstáculo durante a decolagem e pouso”, mas, no decorrer dos dias, a investigação especializada da Polícia Civil apontou questões de performance. A causa também já foi definida: violação de horário, com a falta de luminosidade e de plano de voo, entre outros crimes correlatos.

Conforme a delegada Ana Cláudia Medina, titular do Dracco (Departamento de Repressão à Corrupção e ao Crime Organizado) e com competência para investigação de crimes aeronáuticos no Estado, a questão de violação de horário ainda é tratada como “seríssima” na região e, justamente por este fato, o inquérito busca uma pronta resposta.


 

‘Foi feito tudo certinho, antes do voo fatal’, aponta investigação
“Aliado a isto, apuramos a questão da luminosidade. Então, foram várias diligências envolvidas, e aí fizemos a experiência no motor, a perícia, até para o descarte. Nossa atuação é assim: a gente trabalha descartando as hipóteses. E não tinha nenhuma pane, então, definimos a causa e estamos na fase dos crimes correlatos. Infelizmente, [decolar naquele horário] foi um pedido do piloto. Iriam para a última fazenda, estavam em cinco e era necessário fazer dois trajetos, isso foi feito tudo certinho, antes do voo fatal. Só que, da última vez, teve a questão da luminosidade”, afirmou ao Jornal Midiamax a delegada Medina.

No trabalho investigativo, a polícia acompanhou o primeiro voo, sem nenhuma intercorrência. No entanto, no último, o piloto decolou faltando cinco minutos para fechar o horário de aeronavegabilidade homologado pela Anac (Agência Nacional de Aviação Civil), que, até por questões culturais, muitos não respeitam.

“Em um voo de 15 minutos e mais 15 da volta, ele teria meia hora. No entanto, naquele horário, estavam faltando cinco minutos para fechar o horário permitido, e ele quis decolar. É isso que estamos trazendo para o inquérito. Na própria fazenda, onde aguardavam o último grupo da equipe para deslocar até Barra Mansa, a pessoa diz que falou: ‘Fica aqui, tem o quarto para ficar, já está escuro’. E, mesmo assim, houve insistência. Chegaram a acender a luz do trator para o piloto decolar“, comentou a delegada.

Neste momento, a equipe especializada fala que o comandante — no caso, o piloto — precisaria intervir, porém, fez o contrário. “Seria necessário ele dizer: ‘Olha, não posso voar porque eu já não tenho as condições regulares de voo’. Era a autoridade máxima ali, o responsável pela segurança daquele comando de aeronave. Só que ele não falou isso, ele falou que decolaria. Ele deu o aval lá no Pantanal e seguiu adiante, e agora a gente verifica todas as questões, inclusive a contratação”, argumentou Medina.

Inquérito aponta que monomotor não tinha plano de voo e se chocou com cumbaru:

No decorrer dos dias, a polícia também passou a apurar as questões de contratação e confirmou que não havia plano de voo naquele dia. “E são áreas que necessitam [do plano de voo]. E no Pantanal tem muito disso, mas não é o que derrubou a aeronave. Como já foi dito, foi a questão da violação do horário e a falta da luminosidade, fazendo ele se chocar com o cumbaru, uma árvore típica da região. A arremetida já chegou no meio da pista, irregular, totalmente fora do eixo, e tudo contribuiu. Não tinha bicho, nada, só para constar, e sim as dificuldades com a luminosidade da pista”, pontuou a delegada.

No caso da árvore, ainda de acordo com a apuração policial, tratava-se da maior existente na região, um cumbaru de cerca de 20 metros de altura. “Ficamos lá, entendemos o cenário das árvores caídas. No caso, era a maior árvore lá; no escuro não se enxerga, e ela estava até seca, então, não dava pra ver. Era muito grossa, e a aeronave foi ao chão. São questões que interferiram, causaram o acidente, a violação como um todo e outras causas correlatas”, argumentou Medina.

Nesse sentido, a delegada ressalta que o monomotor Cessna 175 (prefixo PT-BAN, fabricado em 1958) não era homologada para fazer transporte remunerado de passageiros. “Ele não tinha habilitação para transporte remunerado. Fazia pouco tempo que ele [piloto] tinha conseguido liberar, porque, em 2022, o juízo determinou a entrega para manutenção, e isso levou dois anos. Em 2025, voou muito pouco esta aeronave. E da aeronave não ser liberada a gente já sabia, tem muita coisa que se resolvem no tete-a-tete, de maneira ilegal, tanto é que não havia problema com a aeronave. As condições mecânicas dela, a aeronavegabilidade, estava tudo ok, o problema é, culturalmente, o voo em violação”, explicou.

Sendo assim, na fase atual, a titular do inquérito comenta que a contratação do voo está sendo apurada. “Se a aeronave estava sendo usada novamente para táxi aéreo clandestino, precisamos saber. Era um documentário a ser feito, existia uma equipe que estava gravando. Agora vamos apurar. Antes, a gente precisava entender e preservar, e agora vamos ver, então. Não houve descartes, até porque a gente precisava fazer esses descartes, algumas documentações que a gente precisa. Houve certa dificuldade porque a gente tinha um estrangeiro e todas as condições para a extração dos corpos, que foi a nossa prioridade”, afirmou.

Família e amigos fizeram despedida fúnebre na tradição chinesa:

Na investigação, a delegada fala que também houve a necessidade do exame de DNA e necropapiloscopia, e o Cenipa (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos) também realizou perícia. “Este procedimento foi em dezembro. Passamos também uma semana aprofundando em cima do motor, para verificar se existia alguma pane e, inclusive, tivemos alguns questionamentos do governo chinês para ver quais eram as condições. Então, tudo foi muito protocolar e com a intenção de dar uma resposta a essas famílias“, argumentou.

No local, também estiveram presentes sócios e o melhor amigo do arquiteto chinês Kongjian Yu. “Fizeram uma despedida fúnebre, na tradição deles, e houve o acompanhamento ali, mas respeitamos todo o ritual com as quatro vítimas, cada uma em seu contexto específico”, comentou.

Por fim, a delegada falou das regras a serem respeitadas. “Fico triste de chegar no local e entender que tentamos evitar, porque, em tese, ele [piloto] tinha a cultura do voo irregular. E as regras não são para você discutir. Elas existem por algum motivo. E tá aí. Dá certo, até dar errado. Não fui eu que inventei que podia voar até 17h39. É algo demonstrado que as condições ficam inseguras, então, não tem que burlar. E a investigação provou exatamente isto. Ficamos na pista, fazendo a tomada exata da luminosidade, fazendo toda a reprodução simulada”, finalizou.

Quem eram os ocupantes da aeronave:

Kongjian Yu era professor da Universidade de Pequim, sendo considerado um dos maiores arquitetos do mundo. Ele era diretor do escritório de arquitetura paisagística Turenscape. Kongjian era doutor pela Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, além de ser consultor do governo chinês. 

Luiz Fernando Feres da Cunha Ferraz, especializado em projetos de documentários, como “Dossiê Chapecó: O Jogo por Trás da Tragédia”, e responsável pela direção da série “To Win or To Win” para o MBC/Shahid, maior grupo de mídia árabe, sobre o Al Nassr FC, um sucesso de audiência. Desde 2007, Luiz também produzia e dirigia na Olé Produções.

Rubens Crispim Júnior era diretor de fotografia e dono da produtora audiovisual Poseidos, que atuava no mercado nacional e internacional. Rubens nasceu e viveu em São Paulo. Ele era formado em Artes Plásticas pela USP (Universidade de São Paulo) e participou de festivais como o Short Film Corner, no Festival de Cannes.

Marcelo Pereira de Barros, piloto e dono da aeronave, era paulista, mas apaixonado pela região pantaneira, conforme O Pantaneiro. Ele deixou dois filhos, Hugo e Gael.

A queda
A queda da aeronave ocorreu na região da fazenda Barra Mansa, por volta das 18h15, no dia 23 de setembro de 2025. Na ocasião, o avião colidiu com a árvore, chocou-se ao solo e incendiou. Equipes do Dracco estiveram no local para a retirada dos corpos.

Na época, em nota, a FAB (Força Aérea Brasileira) disse que:

“A Força Aérea Brasileira (FAB), por meio do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (CENIPA), informa que, na terça-feira (23/09), investigadores do Quarto Serviço Regional de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (SERIPA IV) — órgão regional do CENIPA, com sede em São Paulo (SP) — foram acionados para realizar a Ação Inicial da ocorrência envolvendo a aeronave de matrícula PT-BAN no município de Aquidauana (MS).

Durante a Ação Inicial, profissionais qualificados e credenciados aplicam técnicas específicas para coleta e confirmação de dados, preservação de elementos, verificação inicial dos danos causados à aeronave ou pela aeronave, além do levantamento de outras informações necessárias à investigação.

A conclusão dessa investigação ocorrerá no menor prazo possível, dependendo sempre da complexidade da ocorrência e, ainda, da necessidade de descobrir os possíveis fatores contribuintes. Ao término das atividades, o Relatório Final SIPAER será publicado no site do CENIPA, acessível a toda a sociedade.”