Recuo da inflação e desaceleração da economia sustentam a expectativa de nova baixa da Selic, mas o impulso fiscal do governo divide analistas.
O Comitê de Política Monetária (Copom) se reúne nesta quarta-feira (5) para definir o rumo dos juros no Brasil, e o mercado dá o corte como praticamente certo. As 30 instituições consultadas pela Bloomberg projetam uma redução de 0,25 ponto percentual na Selic, que passaria a 14% ao ano.
A dúvida dos analistas não está na queda em si, mas no peso da política fiscal do governo como obstáculo ao Banco Central.
O cenário que sustenta a expectativa de nova baixa combina dois movimentos: o recuo da inflação e a moderação da atividade econômica.
O IPCA acumulado em 12 meses até junho ficou em 4,64%, acima do teto da meta, de 4,5%. Já o IPCA-15, prévia da inflação, somou 4,52% em 12 meses até julho. Para agosto, a projeção do índice está próxima de zero ou até negativa.
O que o mercado espera do comunicado
A leitura sobre o comunicado do Copom concentra parte das atenções. Para Tony Volpon, da Universidade Georgetown, o comitê precisa acertar a justificativa da decisão. “Espero que eles tenham aprendido a lição da última reunião. Vamos ver como vão justificar a decisão”, afirmou em entrevista.
Volpon acredita que a trajetória de queda deve seguir. “Eu, como consenso, acho que, frente às novas informações, eles vão continuar cortando juros”, disse. Olhando adiante, o mercado projeta a Selic em 13,25% ao ano em dezembro, enquanto o consenso trabalha com 13,75% ao ano.
A continuidade dos cortes também é defendida por Rafaela Vitória, do Inter. “A gente não vê razão para pausa hoje, considerando como está a dinâmica inflacionária, com atividade mais fraca e câmbio bastante favorável, mesmo com um cenário externo com mais volatilidade”, afirmou em entrevista.
O fiscal como principal obstáculo
O ponto que divide as análises é o impulso da política fiscal. Após o anúncio de uma série de programas pelo governo, Volpon vê um sinal de alerta na combinação entre gasto e desaceleração. “A gente está com um impulso fiscal creditício muito forte na economia nesse momento. Mas a economia está perdendo dinamismo. Isso é um sinal preocupante”, disse.
Para ele, o efeito das medidas tende a ser passageiro. “Essas medidas eleitoreiras têm vida curta, porque estão mirando os próximos meses. Então, elas caducam. Se tem toda essa lenha sendo jogada no fogo e a economia ainda está desacelerando, pode ser uma sinalização de que talvez a economia tenha um problema mais sério em termos de manter seu dinamismo”, avaliou.
Volpon lembrou ainda que o desafio não é só brasileiro: “Vários países, inclusive o Brasil, não têm conseguido pós-pandemia voltar a ter uma política fiscal mais sustentável”.
A avaliação sobre o risco inflacionário é compartilhada por Heron do Carmo, da FEA-USP. “O principal risco para inflação, a meu ver, é a situação da demanda agregada impulsionada pelo lado fiscal”, ressaltou.
Segundo o economista, o consumo elevado tem sido contrabalanceado pela política monetária, mas o efeito tem limite. “A política monetária vem se contrapondo a isso, mas é um consumo muito elevado. Não dá para manter isso por muito tempo”, disse.
Rafaela Vitória pondera que o crédito, apesar dos programas, esbarra na capacidade de endividamento. “A gente tem visto uma limitação muito grande na expansão de crédito pelo lado da demanda das famílias e das empresas. As famílias estão endividadas, as empresas também. Não adianta oferecer subsídio que não tem espaço”, afirmou.
Câmbio e o risco de pausa
O cenário externo aparece como outra variável a acompanhar. Na semana passada, o Fed manteve os juros dos Estados Unidos entre 3,5% e 3,75%. Rafaela Vitória recorda um episódio recente para explicar o risco de o Copom eventualmente interromper a queda.
“Existe um risco do dólar forte. A gente viu isso em 2024, quando a inflação nos Estados Unidos deu um engasgo, o Fomc [Comitê Federal de Mercado Aberto, responsável por definir a política monetária do Fed] fez uma pausa, e o câmbio foi para R$ 6,30. […] Se a gente tiver um cenário parecido, o Copom pode ter de fazer uma pausa nos cortes”, disse.
Mesmo diante dos riscos, a economista faz questão de qualificar o momento. “A gente não está falando de um afrouxamento, a política monetária está bastante restritiva. O que o Copom tem feito é tirar um pouco dessa restrição”, afirmou.













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