Companhia confirma operação dos novos jatos da Embraer em 42 rotas domésticas, revisa guidance após melhora das perspectivas para o combustível e afirma que Brasil pode dobrar mercado aéreo em dez anos.

Latam anuncia operação do E195-E2 em 42 rotas, eleva projeções para 2026 e reforça aposta no Brasil
/ Foto: Divulgação / Latam

A Latam confirmou nesta terça-feira (4) a primeira fase da operação dos novos Embraer E195-E2 no Brasil e, ao divulgar os resultados do segundo trimestre, reforçou a estratégia de continuar expandindo a operação no país mesmo diante da alta histórica do combustível de aviação. A companhia revisou para cima suas projeções financeiras para 2026, manteve seu plano de investimentos e voltou a defender uma agenda de longo prazo para ampliar a competitividade do setor aéreo nacional.

O anúncio da nova malha marca a primeira etapa da incorporação dos E195-E2 à frota da Latam Brasil. Entre novembro deste ano e março de 2027, até 14 aeronaves — parte do pedido de 24 jatos firmado pelo grupo junto à Embraer — entrarão gradualmente em operação, atendendo 42 rotas domésticas, incluindo oito novas ligações e quatro novos destinos: Cabo Frio (RJ), Ji-Paraná (RO), Macaé (RJ) e Rondonópolis (MT). Com isso, a empresa passará a operar em 67 cidades brasileiras, a maior rede doméstica de sua história.

Segundo o CEO da Latam Airlines Brasil, Jerome Cadier, o novo modelo não servirá apenas para abrir mercados regionais, mas também para tornar mais eficiente a operação em cidades onde a empresa já atua. “O Embraer traz a possibilidade de operar destinos menores, mas também melhora a operação da companhia em mercados já atendidos. Em muitas cidades, um voo diário poderá ser substituído por dois voos com o E2, melhorando o produto e a conectividade da nossa malha”, afirmou.

Cadier informou que a companhia já estuda cerca de 18 destinos potenciais para uma segunda fase da expansão, prevista para 2027, à medida que novas aeronaves forem entregues pela fabricante.

Investimentos continuam
Ao abrir a coletiva, Cadier resumiu a estratégia da companhia em três mensagens. A primeira foi a decisão de manter os investimentos no Brasil mesmo diante do aumento expressivo do combustível de aviação.

Segundo ele, a estratégia inclui a renovação de cabines, instalação de Wi-Fi na frota internacional, desenvolvimento de uma nova categoria de serviço entre a Economy e a Business, ampliação dos lounges, investimentos em inteligência artificial, canais digitais e no programa de fidelidade Latam Pass.

Os investimentos também alcançaram a operação de cargas. Segundo o executivo, a empresa reduziu em 30% o tempo de entrega neste ano e elevou em 50 pontos o Net Promoter Score (NPS) da divisão nos últimos três anos, alcançando 67 pontos. “Apesar do ambiente mais complexo e desafiador com combustível, continuamos investindo no Brasil”, afirmou Cadier.

Os investimentos também envolvem a expansão da frota e da força de trabalho. Apenas no primeiro semestre, a Latam Brasil contratou 3 mil profissionais, entre eles 240 pilotos e 600 tripulantes, além de receber nove aeronaves destinadas à operação brasileira. A empresa também criou sua escola de mecânicos aeronáuticos, que reúne atualmente 200 alunos, terá mais 180 ingressantes até o fim do ano e conta com 40% de participação feminina.

Brasil pode dobrar mercado aéreo
A segunda mensagem apresentada por Cadier foi um diagnóstico sobre o mercado brasileiro de aviação. Embora o país tenha registrado recorde de passageiros em 2025 e deva crescer novamente neste ano, o executivo afirmou que o potencial de expansão permanece muito superior ao ritmo atual.

Segundo ele, o Brasil registra cerca de 0,5 viagem aérea por habitante ao ano — metade do índice observado no Chile e pouco mais de um quinto dos níveis registrados na Europa e nos Estados Unidos. Para mudar esse cenário, defendeu a construção de um plano nacional de longo prazo voltado ao setor.

“A expectativa não pode ser crescer 5% ou 10% sobre o ano anterior. O Brasil pode dobrar o mercado de aviação em dez anos, mas isso exige um plano de longo prazo para aumentar a eficiência e dar estabilidade regulatória ao setor.”

Entre os entraves para esse crescimento, Cadier citou o aumento da carga tributária decorrente da reforma tributária, a tributação sobre o leasing de aeronaves, o elevado custo do combustível, a litigância e a necessidade de maior estabilidade regulatória.

O executivo fez questão de ressaltar, porém, que a companhia não defende redução de impostos, mas a manutenção da carga tributária que vigorava antes da reforma. “Não estamos pedindo redução de imposto. Estamos pedindo manutenção do imposto que existia, que era a premissa da reforma tributária.”

Cenário mais favorável para o combustível
A confiança demonstrada pela companhia também se refletiu na revisão do guidance para 2026. Segundo o CFO do Grupo Latam Airlines, Ricardo Bottas, a empresa voltou a divulgar integralmente suas projeções após revisar para baixo as estimativas para o preço do querosene de aviação no segundo semestre.

A Latam passou a projetar crescimento de 9% a 10% da capacidade de passageiros, expansão de 5% a 6% da capacidade de carga, receita entre US$ 17,3 bilhões e US$ 17,7 bilhões e EBITDA ajustado entre US$ 4,1 bilhões e US$ 4,4 bilhões.

As novas projeções consideram preço médio do combustível de US$ 147 por barril no terceiro trimestre e de US$ 130 no quarto, abaixo das estimativas adotadas após o agravamento do conflito no Oriente Médio. “Essa confiança está refletida na atualização do guidance. Ainda é um cenário desafiador em relação ao que imaginávamos antes do conflito, mas agora muito mais próximo daquele ambiente”, afirmou Bottas.

Receitas premium ganham relevância
Segundo Bottas, um dos fatores que explicam a resiliência dos resultados é o crescimento das receitas provenientes dos produtos premium e do programa de fidelidade Latam Pass. Hoje, cerca de 29% da receita de passageiros já é gerada por serviços premium, segmento que cresce em ritmo superior ao restante da operação e apresenta maior resistência em momentos de instabilidade econômica. “É um tipo de receita que tem um nível de resiliência maior em situações de choque. Essas receitas crescem nove pontos percentuais acima das demais receitas de passageiros”, afirmou.

Bottas destacou ainda que 67% da receita de passageiros já é gerada por clientes do Latam Pass, programa que alcançou 56 milhões de membros no trimestre. Segundo ele, a fidelização dos clientes e a diversificação das fontes de receita ajudam a sustentar a rentabilidade da companhia mesmo em períodos de maior pressão sobre os custos.

Choque nos custos
A Latam encerrou o trimestre com receita consolidada de US$ 4,18 bilhões, alta de 27,6% sobre igual período do ano passado. A receita de passageiros cresceu 27,9%, para US$ 3,61 bilhões, enquanto a operação de cargas avançou 21,8%, alcançando US$ 510 milhões. O lucro líquido foi de US$ 125 milhões.

Segundo Bottas, o custo do combustível aumentou 93,1% em relação ao segundo trimestre de 2025, representando um impacto superior a US$ 800 milhões em apenas três meses. Ainda assim, a companhia manteve geração operacional de caixa de US$ 476 milhões, liquidez de US$ 4,2 bilhões e alavancagem financeira de 1,5 vez.

“Foi um teste importante para o nosso modelo de negócios. Mesmo diante de um choque praticamente sem precedentes no preço do combustível, conseguimos manter resultados sólidos e consistentes.”

Na avaliação do executivo, a combinação entre diversificação das receitas, fortalecimento do Latam Pass, crescimento dos produtos premium e disciplina financeira permitiu preservar a geração de caixa e manter os investimentos previstos para expansão da frota e da malha aérea.

“Seguimos confiantes tanto na gradual melhora do cenário quanto na capacidade do nosso modelo de negócios de continuar entregando resultados sólidos e consistentes”, afirmou.

Apesar do cenário ainda pressionado pelos custos do combustível, a Latam afirmou que pretende manter o ritmo de expansão no mercado brasileiro. Para Cadier, a incorporação dos E195-E2 representa apenas a primeira etapa dessa estratégia, mas seu sucesso também dependerá de um ambiente regulatório mais previsível e favorável aos investimentos.

“Nenhuma companhia que opera no Brasil tem expectativa de crescer apenas 3% ou 4% ao ano. O Brasil merece mais. O país pode dobrar o mercado de aviação em dez anos, desde que consiga remover os entraves que hoje limitam esse crescimento”, concluiu.