EUA abandonaram OMS e reduziram em 90% ajuda assistencial ao país
As guerras que dilaceram o Leste da RDC (República Democrática do Congo) há décadas e a redução da cooperação internacional na área da saúde favoreceram a proliferação do atual surto de ebola na África. A doença volta a assombrar o continente em meio à escassez de profissionais de saúde na região.
O epicentro do surto ocorre na província de Ituri, no Nordeste da RDC, que responde por 93% do total de casos confirmados (676) no país, seguida pelas províncias de Kivu do Norte e Kivu do Sul, que são os departamentos mais afetados pelas guerras congolesas.
A quase 2 mil quilômetros de distância da capital do país, Kinshasa, essa é uma região disputada por cerca de 100 grupos paramilitares que lutam pelo controle das atividades minerais da RDC. Estima-se que milhões de pessoas sejam refugiadas das guerras locais.
“O surto está se desenrolando em um contexto humanitário complexo e afetado por conflitos, caracterizado por populações altamente móveis e frequentemente deslocadas”, diz informe da OMS (Organização Mundial da Saúde), que acrescenta que o surto continua a evoluir rapidamente.
O professor de história da África da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) Nuno Carlos de Fragoso Vidal explica à Agência Brasil que o atual surto surgiu em uma região marginalizada da RDC que está sob influência de Ruanda, que financia o principal grupo paramilitar naquela região, o M23.
“É um conflito latente que já causou várias dezenas de milhares de mortos ao longo dos anos. É uma terra de ninguém, uma zona de grupos armados e de influência de Ruanda, que explora recursos naturais a seu favor. Esses grupos exploram, por exemplo, o coltan [mineral crítico] e depois ele é exportado via Ruanda”, afirma o especialista.
Natural de Angola, o professor acrescenta que as equipes de saúde têm dificuldade em acessar as áreas controladas por grupos paramilitares hostis. Ele lembra que o suposto acordo de paz costurado pelo presidente dos EUA (Estados Unidos), Donald Trump, com os governos de Ruanda e da RDC, em junho de 2025, não tem saído do papel.
“Esses acordos não saem do papel porque emergiu em Ruanda um presidente [Paul Kagame] com pretensões de controlar uma vasta região e recursos que não pertencem ao país. E ele é muito protegido pelo Ocidente, pelos EUA, mas, sobretudo, pela Inglaterra. Existe, de fato, uma apropriação indevida de recursos daquela zona do Congo”, comenta.













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