Reduzir atropelamentos exige ação dos governos e investimentos em ferrovias e hidrovias ambientalmente viáveis.

Entre carretas e animais, a vida perde espaço no Pantanal
Caminhão passa ao lado de anta morta na rodovia: cena expõe a urgência de medidas para reduzir atropelamentos de animais silvestres. / Foto: Campo Grande News.

Nas estradas que atravessam o Pantanal, a morte de animais silvestres virou uma paisagem que ninguém deveria aceitar. Jacarés, tamanduás, tatus, aves e outros animais aparecem sem vida no asfalto ou nos acostamentos. Cada corpo registra um encontro violento entre a circulação da riqueza econômica e a falta de proteção para uma riqueza que também pertence à sociedade: a biodiversidade.

Editorial defende medidas urgentes contra o atropelamento de animais silvestres nas rodovias do Pantanal. Entre maio de 2023 e abril de 2024, 2.300 animais foram atropelados em 350 quilômetros da BR-262. O DNIT iniciou em 2025 obras com cercas, passagens e redutores de velocidade, com mais de R$ 30 milhões previstos. O texto cobra manutenção, monitoramento, transparência, coordenação entre União e Estado e alternativas como ferrovias e hidrovias.
Tratar essa matança como consequência inevitável do trânsito é acomodar-se diante de um problema conhecido. Os animais precisam se deslocar para buscar alimento, água, abrigo e reprodução. A estrada atravessa esses caminhos. Cabe ao planejamento público garantir que o transporte de pessoas e mercadorias conviva com esses movimentos sem transformar a travessia em sentença de morte.

A dimensão do drama já foi documentada. Entre maio de 2023 e abril de 2024, o Projeto Bandeiras e Rodovias, do Instituto de Conservação de Animais Silvestres, registrou 2.300 animais atropelados em 350 quilômetros da BR-262, entre Campo Grande e a ponte sobre o Rio Paraguai. O levantamento, divulgado pelo Campo Grande News, equivale a mais de seis registros por dia naquele período. São números de um trecho monitorado, suficientes para mostrar que o problema exige uma resposta permanente.

O transporte de cargas precisa entrar nessa discussão. O tráfego de carretas de minério na ligação com Corumbá já foi apontado por ambientalistas como fator de pressão sobre a rodovia. A circulação de madeira e de outras mercadorias também deve ser considerada no planejamento dos corredores de transporte do Estado. Identificar quanto cada atividade contribui para os atropelamentos exige dados; reconhecer a necessidade de reduzir os riscos exige decisão política.

A responsabilidade vai além de quem está ao volante. Motoristas devem respeitar os limites de velocidade e dirigir com atenção, mas trabalham dentro de uma estrutura logística definida por empresas e governos. Cobrar prudência é necessário. Também é necessário cobrar estradas preparadas para a presença da fauna, fiscalização consistente e condições de transporte que incorporem a segurança ambiental.

Há intervenções em andamento que precisam ser reconhecidas e acompanhadas. Segundo o DNIT, começou em 2025 a execução de um contrato que contempla 170 quilômetros de cercas condutoras, sete passagens superiores, dez subterrâneas, sinalização e redutores de velocidade na BR-262 em Mato Grosso do Sul, com mais de R$ 30 milhões provisionados. A informação estabelece uma obrigação concreta de prestação de contas: divulgar o avanço das obras, os trechos atendidos e seus resultados.

O sucesso desse investimento precisa aparecer na redução dos atropelamentos. Passagens devem estar nos locais utilizados pelos animais, ter dimensões adequadas e funcionar em conjunto com cercas que conduzam a fauna até elas. Pesquisa disponibilizada pela Universidade Federal do Paraná identificou 24 áreas de concentração de atropelamentos no trecho entre Anastácio e Corumbá. Há conhecimento acumulado para orientar prioridades.

A manutenção deve fazer parte do compromisso desde o início. Cercas danificadas, acessos obstruídos e estruturas inadequadas comprometem a proteção. Monitoramento por câmeras, inspeções regulares e comparação dos registros antes e depois das intervenções devem orientar os ajustes. A sociedade precisa saber quantas travessias funcionam e se as mortes estão diminuindo.

Esse esforço deve alcançar as rodovias estaduais e integrar as obrigações de eventuais concessionárias. União e governo de Mato Grosso do Sul precisam coordenar prioridades, orçamento e fiscalização, cada qual nas vias sob sua responsabilidade. A divisão administrativa das estradas não pode fragmentar a proteção de animais que circulam pelo mesmo território.

Mas a discussão continuará incompleta enquanto a resposta logística se concentrar em acomodar mais caminhões. Recuperar a capacidade ferroviária e ampliar alternativas hidroviárias ambientalmente viáveis deve integrar uma política de redução da pressão sobre os corredores rodoviários. A retomada da Malha Oeste precisa ser cobrada também por essa perspectiva: oferecer alternativas para o transporte de grandes volumes e longas distâncias.

Na hidrovia do Rio Paraguai, qualquer ampliação precisa respeitar o funcionamento do Pantanal, seus ciclos de cheia e seca e as comunidades que dependem do rio. Transferir cargas exige avaliação ambiental, segurança de navegação e planejamento para períodos de estiagem. Ferrovias também precisam incorporar proteção à fauna. O objetivo deve ser construir uma logística que reduza impactos no conjunto do território.

São duas frentes que precisam caminhar juntas. A mudança da matriz de transporte exige projetos e investimentos de longo prazo. A proteção nas estradas exige providências imediatas: concluir as intervenções previstas, conservar as estruturas, fiscalizar a velocidade e atender primeiro os pontos mais críticos.

Mato Grosso do Sul apresenta sua natureza ao mundo como patrimônio e destino turístico. Essa valorização precisa estar presente nas decisões sobre infraestrutura e no orçamento público. Preservar a fauna é parte da responsabilidade de um Estado que pretende crescer sem destruir os atributos que o tornam singular.

O minério tem valor, a madeira tem mercado e a produção precisa chegar ao destino. A vida silvestre também precisa de caminho. O Pantanal não pode continuar pagando o frete com a própria fauna.