Em um ano marcado por novas guinadas à direita na América Latina e pelo avanço da doutrina expansionista professada pelo presidente dos EUA, Donald Trump, seu secretário de Estado, Marco Rubio, inicia nesta terça-feira uma visita a três países onde o trumpismo fincou posição.

Em visita a aliados na América do Sul, Marco Rubio envia recados indiretos ao Brasil; VEJA
Secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, durante palestra em Washington. / Foto: Andrew Harnik/Getty Images/AFP

A pauta na Colômbia, Equador e Peru inclui ações armadas contra o narcotráfico, apoios econômicos de Washington e a presença chinesa na região. Além de recados indiretos a governos que não integram a órbita pró-Trump, como o Brasil.

Em um exemplo do compromisso, a peruana Keiko Fujimori e o colombiano Abelardo de la Espriella anunciaram a adesão ao Escudo das Américas, uma aliança oficialmente voltada ao combate ao narcotráfico, mas que se tornou o principal fórum da direita na América Latina. Brasil e México, alvos recorrentes do secretário de Estado, não fazem parte.

— Os EUA, sob Trump, se sentem à vontade nesses três países, até porque apoiaram abertamente os candidatos que venceram ali. Não existe mais o comedimento da diplomacia tradicional, com declarações moderadas. Hoje, a política externa americana toma um lado em eleições alheias — destacou ao GLOBO Flávia Loss, professora de Relações Internacionais do Instituto Mauá de Tecnologia. — Isso acabou sendo normalizado, e a extrema direita regional se beneficia muito disso.

Como destacou Pigott em seu sucinto comunicado, o combate ao narcotráfico terá lugar central. No Equador, membro do Escudo das Américas desde sua criação e segunda escala da viagem do secretário de Estado, Noboa tem elevado o grau de cooperação militar com Washington e realiza bombardeios em conjunto com os americanos em seu território e zonas costeiras próximas. Em setembro do ano passado, quando esteve em Quito pela última vez, Rubio anunciou um pacote de ajuda econômica de US$ 20 milhões e designou dois grupos criminosos, Los Lobos e Los Choneros, como organizações terroristas.

Semanas depois de o secretário americano deixar o país, os equatorianos impuseram a Noboa uma importante derrota, rejeitando nas urnas o retorno de bases operadas por forças estrangeiras, vetadas desde 2008. Os EUA queriam estabelecer presença em uma instalação em Manta, na costa do Pacífico, e cogitaram a reabertura da base de Baltra, nas Ilhas Galápagos, uma ideia descartada antes do referendo.

Noboa reconheceu os resultados, sem abandonar o interesse nas forças americanas — em junho, reafirmando o estado de “conflito interno” no Equador, ele assinou um decreto abrindo caminho para a presença de militares estrangeiros, em um papel de apoio, lhes concedendo imunidade legal.

— Esta medida é resultado de meses de trabalho, especialmente durante nossa reunião mais recente no Pentágono. A partir de hoje, os narcoterroristas enfrentarão um Equador mais forte e mais bem preparado, que já não luta sozinho — disse na ocasião, referindo-se a um encontro, dias antes, com o secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth.

As outras duas escalas de Rubio na América do Sul se destacam não apenas pela importância estratégica na repaginação trumpista da Guerra às Drogas, mas por terem sido terrenos bem-sucedidos dos planos de Washington para moldar rumos políticos.

Na Colômbia, Espriella, o milionário apresentado como voz antissistema, apostou no discurso de enfrentamento ao crime e no apoio declarado de Trump. Para a Casa Branca, era a oportunidade para afastar do jogo um grupo político antagônico, o campo liderado por Gustavo Petro, que foi incluído na lista de sanções americanas.

Dias depois da posse, no mês passado, o Departamento de Estado anunciou um pacote de segurança de US$ 1 bilhão, cujos detalhes devem ser discutidos durante a passagem de Rubio. Segundo Pigott, outro item é a resposta ao terremoto do mês passado na Colômbia, que deixou cerca de 330 mortos. Na ocasião, De la Espriella aceitou a presença de equipes de resgate de apenas quatro nações: EUA, Israel, Equador e El Salvador.

“Não excluímos absolutamente nenhum país em termos das ofertas que nos foram feitas”, retrucou o ministro das Relações Exteriores, Omar Bula, em comunicado em agosto. “Trabalhamos com países sem qualquer consideração ideológica ou política.”

Tal como Espriella, Fujimori foi eleita por margem mínima contra a esquerda no Peru, com uma campanha centrada no combate à violência e nas promessas de uma aliança próxima com Washington. Repetindo seu homólogo colombiano, declarou a intenção de se juntar ao Escudo das Américas — o que pode ser sacramentado durante a visita de Rubio — e se mostrou aberta à cooperação com as Forças Armadas dos EUA.

Mas Keiko terá diante de si opções difíceis. O principal parceiro comercial do Peru é a China, e o país sul-americano integra a Iniciativa Cinturão e Rota (como Colômbia e Equador), pilar da diplomacia econômica de Pequim. Em 2024, o presidente chinês, Xi Jinping, inaugurou um megaporto de US$ 1,3 bilhão em Chancay, crucial nos planos da China para ampliar seu acesso à América do Sul através do Oceano Pacífico. Em suas primeiras declarações, Keiko afirmou que não pretende ser um espaço de disputa entre as duas maiores economias do planeta, mas sim adotar uma abordagem pragmática. Para os EUA, a contenção à presença chinesa na América Latina é uma prioridade estratégica.

— Keiko terá que fazer uma escolha, porque é isso que Trump cobra de seus aliados. Ela tem tentado evitar o tema, mas será pressionada a desfazer os laços com a China — opina Loss. — Mas hoje é difícil dizer como ela fará isso, uma vez que a economia peruana depende muito da China. A aliança com Trump foi uma escolha que fez para se eleger. Mas agora, como presidente, ela terá um preço.

A presença de Rubio guarda expectativas sobre gestos voltados a outros países da região, em especial o Brasil, cujo trato com o governo do presidente e candidato à reeleição Luiz Inácio Lula da Silva é marcado por atritos. Em menos de um mês, os brasileiros vão às urnas, e as relações com Washington são um tema quente da disputa.

— Ainda que não visite o Brasil, essa viagem é um recado para Brasília, e as declarações nos próximos dias podem conter críticas ao governo Lula. Donald Trump e Marco Rubio têm uma relação de “policial bom, policial mau” com o Brasil — explica Loss. — Trump às vezes é um pouco duro, mas depois alivia com declarações para afagar Brasília. Rubio usa palavras consistentemente duras contra o Brasil e contra o presidente Lula.