Ofensiva dos EUA com Israel, que matou toda a cúpula da ditadura fundamentalista, representa o fim de uma era.

Como os ataques ao Irã vão redesenhar o mapa do Oriente Médio e impactar o mundo
NA FOGUEIRA - Protesto contra Khamenei: o aiatolá morreu nos primeiros minutos da operação. / Foto: Shutterstock

 

Quando a fumaça dos primeiros bombardeios se dissipou, o Irã era um país transformado, e com ele todo o Oriente Médio. Em um ataque-surpresa autorizado por Donald Trump, sempre ele, no início da manhã de sábado 28 de fevereiro, enquanto caças americanos atacavam simultaneamente vários pontos, aviões israelenses miraram e explodiram os prédios do complexo onde atuava a cúpula do governo, matando o aiatolá supremo, Ali Khamenei — e, de quebra, detonando com ele cerca de quatro dezenas de integrantes da elite do poder. Debaixo de bombas, o Irã reagiu lançando drones e mísseis contra Israel e alvos nos países vizinhos, desencadeando um conflito de grandes proporções que, quase uma semana depois, não dava mostras de arrefecer. A simples saída de cena de Khamenei não enterrou, por ora, a teocracia que se tornou um dos mais desestabilizadores elementos da explosiva região, mas já estremeceu e transfigurou o Oriente Médio de maneira irreversível, com desfecho incerto.

Um país (ou dois, no caso) tem o direito de assassinar quase toda a liderança de outro sem provocação específica? A pergunta faria sentido em outros tempos, mas no “mundo real” da era Trump, em que força e poder se sobrepõem ao que um assessor qualificou de “cortesias internacionais”, a reação quase geral, salvo tímidas referências a tal direito, foi de apoio aos ataques. Khamenei fez por merecer. No poder há 37 longos e cruéis anos, desde a morte do aiatolá Khomeini, que instalou o regime fundamentalista xiita no Irã em 1979, o agora eliminado chefe religioso ganhou fama pela rigidez ideológica, torturas, assassinatos e perseguições dentro do país e pela atitude desafiadora e instigação de terrorismo fora dele, tentando se impor como o contraponto regional ao “Grande Satã” (Estados Unidos) e ao “Pequeno Satã” (Israel).

A reação do governo Lula ao ataque dos EUA e de Israel ao Irã
Irã e Estados Unidos negociavam há semanas um acordo que aparasse as arestas entre os dois países. Em paralelo, Trump e o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu planejavam o ataque fulminante ao coração da teocracia islâmica. Segundo fontes oficiais, a CIA, que monitorava de perto os movimentos da cúpula iraniana há meses, alertou para a iminência de uma reunião de notáveis do regime, Khamenei inclusive, em um mesmo local. Trump e Netanyahu teriam então resolvido encerrar a conversa e lançar seu bombardeio, de forma a não perder a oportunidade.

A respeito das motivações para o início do conflito, falou-se em segurança nacional contra um inimigo que há décadas ameaçava o país, no término definitivo do programa nuclear iraniano, na necessidade de troca de regime. “Quando terminarmos, tomem o governo”, insuflou Trump, sugerindo que a população do Irã finalizasse o serviço. Quatro dias depois, a Casa Branca cantaria vitória. Contudo, antecipou de quatro a seis semanas, “ou mais”, de bombardeios. Candidamente, na ONU, onde os Estados Unidos ocupam o comando rotativo do Conselho de Segurança, a primeira-dama Melania Trump, em agenda prevista há tempos, presidiu uma sessão na terça-feira 3. Tema do discurso: “A paz pela educação”.

Não se sabe se o sistema de governo criado e cultivado há décadas pelos aiatolás sucumbirá à pressão das bombas. Mas, seja como for, a operação que leva o nome pouco inspirado de Fúria Épica será determinante para o inescapável declínio da influência iraniana no Oriente Médio, região onde o país fez de tudo para se tornar uma potência dominante, firmou-se como ameaça existencial para Israel e no auge forçou até as ricas monarquias do Golfo, antipáticas ao regime xiita, a manterem boas relações — um solavanco na balança de poderes que, guardadas as proporções, reconfigura nesse volátil canto do planeta o equilíbrio de forças depois do colapso da União Soviética, em 1991.

Quem quer que assuma o poder no Irã, o país estará isolado, fraco e mergulhado em problemas internos, o que deve favorecer os Estados Unidos, Israel e potências locais em ascensão, como a Arábia Saudita. “É o início do fim da República Islâmica como a concebemos”, diz Mona Yacoubian, do centro de pesquisas CSIS. “Não sabemos onde isso vai dar, mas o Oriente Médio não será mais o mesmo.” Diferente do ataque aéreo em junho do ano passado, centrado em instalações nucleares, americanos e israelenses visam agora, segundo o Comando Central dos Estados Unidos, a um total de 2 000 alvos que incluem navios de guerra, baterias de mísseis, serviços de inteligência, infraestruturas de transporte, as sedes do Judiciário e do Parlamento, e instalações da Guarda Revolucionária Islâmica, o escudo e espada do regime — características de uma operação abrangente para decapitar o sistema. Até a quarta-feira 4, o número de mortos nos ataques que seguiam detonando bairros iranianos passava de 1 000. Segundo o Irã, teria havido até um ataque a uma escola para meninas próxima a uma base militar, ceifando a vida de 175 pessoas. Estados Unidos e Israel negam responsabilidades e o caso aguarda investigação independente. Segundo o comando em Washington, 26 navios da Marinha iraniana haviam sido abatidos. O lado americano contava seis soldados mortos e três aviões abatidos pelo Kuwait, achando que eram iranianos (os pilotos escaparam ilesos). Em Israel, nove pessoas morreram quando um míssil atingiu um abrigo, e a população voltou à triste rotina de sirenes e preocupação constante.

O Irã deflagrou imediatamente uma feroz campanha retaliatória não só contra Israel, mas também contra nações do Golfo que abrigam instalações militares americanas. Drones atingiram uma base naval dos Estados Unidos no Bahrein, sua embaixada em Abu Dhabi e consulado no Kuwait, o imponente Burj Al Arab, em Dubai, hotel-refúgio de milionários, bem como portos e aeroportos, provocando caos na aviação global e deixando mais de 20 000 viajantes ilhados no olho do furacão — duros golpes para as ricas monarquias que costumam ficar fora das convulsões no Oriente Médio. As hostilidades escalaram quando a milícia libanesa Hezbollah abriu fogo contra Israel em apoio a seu aliado e financiador, desencadeando uma operação terrestre no sul do Líbano e arrastando o nono país para o conflito. Embora não tenham participado dos ataques, França e Reino Unido despacharam caças e navios de guerra para proteger suas bases. Teerã, por sua vez, dobrou a aposta ao cumprir a temida ameaça de fechar o Estreito de Ormuz, rota por onde passam cerca de 20% do petróleo e gás que abastecem o planeta (leia mais na pág. 56). “O que restou do regime vai lutar até o fim, tentando elevar os custos globais do conflito para pressionar por um cessar-fogo”, afirma Eric Lob, cientista político da Universidade Internacional da Flórida.

Além da irresistível reunião que parece ter precipitado a ofensiva, a janela de oportunidade vislumbrada por Trump e Netanyahu abria-se para outros fatores. O governo xiita ainda se recupera de um levante popular em janeiro, o maior visto lá desde a Revolução Islâmica, empurrado por uma conjuntura que mistura uma economia em frangalhos após décadas de sanções comerciais, uma seca que fez disparar a inflação e um altíssimo índice de desemprego, que afeta 23% dos jovens. Ao acionar seu aparato de repressão, que levou à morte entre 7 000 e 30 000 manifestantes, o regime elevou ainda mais o grau de insatisfação dos iranianos, que começaram a gritar nas ruas “morte ao ditador”, com fotos de Khamenei em chamas — imagem premonitória que se repetiria em protestos mundo afora. Além das fronteiras, o Irã viu minguar tanto o suporte da Rússia, mais ocupada com sua própria guerra na Ucrânia, quanto o alcance do “eixo de resistência”, uma frente de batalha contra inimigos variados formada por milícias que armou com sucesso durante décadas (veja o mapa). Quando Israel ampliou a extensão de seus bombardeios depois do ataque terrorista de outubro de 2023, grupos sob o guarda-chuva iraniano — o Hamas, em Gaza, o Hezbollah, no Líbano, forças xiitas no Iraque e os rebeldes hutis, no Iêmen — ruíram.

Horas após a confirmação da morte de Khamenei, foi formado um conselho de três membros, como prevê a Constituição, para escolher seu substituto. Por ora, o poder está nas mãos do presidente, Masoud Pezeshkian, do chefe do Judiciário, Gholam-Hossein Mohseni-Ejei, e de um clérigo, Alireza Arafi. Não há herdeiros claros para o cargo de líder supremo — o mais citado é Mojtaba Khamenei, filho do chefe morto —, um desafio que se intensifica com o fato de que todo o processo será realizado sob fogo constante. Ao mesmo tempo, não há indícios de que possa surgir daí uma figura simpática aos Estados Unidos, que gostariam de encontrar uma versão iraniana de Delcy Rodríguez, a maleável chavista que assumiu o controle da Venezuela após forças americanas derrubarem Nicolás Maduro em janeiro. “Lá não há ninguém forte o suficiente nem disposto a se passar por fantoche de Trump. Mesmo assim, nenhum líder terá força para representar uma ameaça a ele no médio prazo”, diz Gunther Rudzit, professor de relações internacionais da ESPM.

A continuidade da tirania clerical seria notícia péssima para os iranianos no exílio que saíram às ruas, em alegria efusiva e desafiadora, para comemorar a morte de Khamenei. O líder supremo turbinou o alcance de seu poder, com aparatos em todas as 31 províncias do país. Ele desprezava qualquer sinal de “ocidentalização” (durante a pandemia, recusou-se a importar vacinas, porque elas poderiam trazer o vírus para o país) e, arquiteto do “eixo da resistência”, apoiou tiranos e terroristas no exterior, sendo a mão não tão oculta por trás de atrocidades como o caminhão-bomba do Hezbollah que matou trinta pessoas em frente à embaixada israelense na Argentina em 1992.

Opor-se ao líder supremo era, mais do que um delito, um pecado — o crime de moharebeh, ou “guerra contra Deus”, justificava prisões, tortura e assassinatos e até a pena capital. Seu governo também esmagou sucessivas revoltas nas últimas duas décadas, sendo a de maior repercussão a tragédia de Mahsa Amini, jovem de 22 anos presa e morta sob a guarda da temida “polícia da moralidade”, em 2022, porque seu hijab, o obrigatório véu muçulmano que cobre os cabelos, deixava algumas mechas à mostra. A força motora dos protestos recentes são os jovens (40% a 45% dos iranianos têm menos de 20 anos) que não eram nascidos em 1979, quando o xá Reza Pahlavi foi deposto e revolucionários ocuparam a embaixada americana por 444 dias. À época, os iranianos ratificaram a República Islâmica com mais de 97% de apoio em referendo, mas, desde então, o distanciamento entre o povo e seu sistema político se intensificou pela violência de Estado e inúmeras promessas sobre um futuro melhor que jamais chegou. “A memória do despotismo do xá ficou distante para as novas gerações. Sua revolta é respondida com mais repressão, um ciclo deletério para o regime dos aiatolás”, diz Luíza Cerioli, especialista em Oriente Médio da Universidade de Kassel, na Alemanha.

A aposta na Operação Fúria Épica, observam especialistas, é arriscada tanto para a população iraniana quanto para os Estados Unidos. “Bombardeios podem degradar a capacidade militar e destruir infraestruturas, mas não transformam governos. Isso exige processos de negociação, construção institucional e transições legítimas de poder”, diz Farah Jan, professora de relações internacionais da Universidade da Pensilvânia. Em 2003, o governo de George W. Bush lançou uma operação no Iraque com o objetivo explícito de mudança de regime — enquanto o objetivo militar foi alcançado em semanas, o político nunca foi atingido, criando um vácuo de poder preenchido por milícias sectárias contrárias aos interesses americanos.

Agora, a prevista perda de protagonismo do país de mais de 92 milhões de habitantes e terceiro maior produtor de petróleo do mundo favorece um arranjo de forças mais competitivo entre três polos, todos pró-Trump: Israel, pela superioridade militar e de inteligência; Arábia Saudita, pela capacidade financeira e energética; e Turquia, pela força de membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). “A nova cara da região tende a ser menos ideológica e mais voltada para negócios”, afirma João Nyegray, professor de relações internacionais da PUCPR. Tudo indica, porém, que soluções não virão tão cedo. Enquanto isso, o mundo assiste, aflito, ao desenrolar de mais um momento decisivo para a trajetória da história.