Primeiro-ministro Benjamin Netanyahu tem objetivos diferentes daqueles dos Estados Unidos na guerra do Oriente Médio e conta com incentivos políticos para continuar atacando o Hezbollah.

Entenda por que Israel continua bombardeando o Líbano
Soldados do Exército libanês guardam o local de um ataque aéreo israelense em 8 de abril de 2026 em Beirute, Líbano. / Foto: Chris McGrath/Getty Images

O acordo temporário de cessar-fogo entre o Irã, os Estados Unidos e Israel mostra sinais cada vez mais claros de que pode ruir.

Um dos principais pontos de tensão no momento é a decisão de Israel de continuar bombardeando o grupo radical Hezbollah no Líbano, mesmo diante das pressões internacionais e do risco de colapso das negociações agendadas para começar no Paquistão na manhã de sábado (11), no horário local, entre Estados Unidos e Irã.

O Irã e o próprio Paquistão, que está mediando as negociações diplomáticas, afirmam que a proposta de cessar-fogo inclui o fim das hostilidades no território libanês. Mas Israel contesta essa versão.

O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, não apenas decidiu manter as operações militares como também ordenou a intensificação dos ataques contra o Hezbollah.

A decisão reflete uma combinação de fatores estratégicos, militares e políticos.

Objetivos diferentes dos Estados Unidos
O primeiro ponto central é a diferença de objetivos entre Israel e os Estados Unidos na guerra do Oriente Médio.

O presidente Donald Trump tem como prioridade neste momento reduzir os impactos da guerra sobre a economia global e encontrar uma saída rápida para o conflito com o Irã, ainda que isso envolva algum tipo de concessão e mudança de metas na guerra.

Já Netanyahu adota uma abordagem muito distinta.

Para Israel, tanto o Hezbollah quanto o Irã são vistos como ameaças existenciais. Ou seja, há a percepção de que ambos representam um risco direto à sobrevivência do país.

Essa visão sustenta uma estratégia extremamente agressiva, voltada à destruição máxima das capacidades militares desses adversários.

Oportunidade para enfraquecer o Hezbollah
Outro fator importante é o momento atual do Hezbollah.

O grupo libanês enfrenta um cenário de grande fragilidade. Perdeu parte de sua capacidade operacional desde o início dos conflitos entre o Hamas e Israel, em 2023, enfrenta baixa popularidade no país e já não conta com o mesmo nível de apoio direto do Irã.

Ao longo dos anos, Teerã foi responsável por financiar, treinar e armar o Hezbollah, um apoio que agora está mais limitado em meio ao conflito regional e também ao fato de que os aliados perderam o apoio da Síria, após a queda do regime do ditador Bashar Al Assad, em dezembro de 2024.

Além disso, setores relevantes da sociedade libanesa e o próprio governo criticaram a atuação do grupo, especialmente após ataques contra cidades no norte de Israel que provocaram forte retaliação militar e arrastaram o Líbano para a guerra.

Nesse contexto, Netanyahu avalia que existe uma janela de oportunidade única para enfraquecer significativamente o Hezbollah.

Incentivos políticos internos
Há também um componente político relevante. A guerra ainda conta com apoio expressivo da população de Israel, diferentemente do que ocorre nos Estados Unidos, onde Trump enfrenta críticas crescentes e perde popularidade.

Com eleições marcadas para este ano, Netanyahu busca reforçar sua imagem como um líder firme na defesa da segurança nacional.

A continuidade das operações militares contra o Hezbollah e o Irã pode, nesse sentido, fortalecer sua posição interna.

Interesses locais x risco de isolamento internacional
Apesar dessas motivações, a estratégia israelense tem custos.

A insistência nos ataques ao Líbano já foi criticada por diversos países, especialmente na Europa. A Turquia e alguns organismos internacionais também divulgaram fortes críticas ao que enxergam como uma tentativa de sabotar o possível processo de paz com o Irã.

Essas reações indicam um aumento do isolamento diplomático de Israel, mesmo em um momento de superioridade militar no terreno.

Netanyahu, no entanto, parece colocar os seus interesses locais acima das preocupações regionais e internacionais, o que indica que o processo será ainda mais acidentado do que o previsto.