O quadro também ajuda a explicar decisões que já apareceram no campo.

Brasil colhe a maior safra da história mas fatura R$ 66 bilhões a menos
O quadro também ajuda a explicar decisões que já apareceram no campo. / Foto: Assessoria de Imprensa da Aiba

Safra recorde é sinônimo de ano bom para o produtor. É o que a intuição manda pensar, e é exatamente o que os números de agosto desmentem.

Na mesma quinzena, dois órgãos federais publicaram dados que apontam para lados opostos. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) fechou o 11º Levantamento da Safra de Grãos com produção estimada em 360,8 milhões de toneladas para o ciclo 2025/26, alta de 2,4% sobre a temporada anterior, o equivalente a 8,5 milhões de toneladas a mais.

A área cultivada chegou a 83,5 milhões de hectares, expansão de 2,1%, e a produtividade média ficou em 4.322 quilos por hectare, próxima à do ano passado.

Poucos dias depois, a Secretaria de Política Agrícola do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) reduziu a projeção do Valor Bruto da Produção agropecuária de 2026 para R$ 1,398 trilhão. No boletim anterior, a estimativa era de R$ 1,404 trilhão. O ministério também revisou a base de 2025 para baixo, de R$ 1,477 trilhão para R$ 1,464 trilhão.

Vamos comparar as duas pontas. Entre 2025 e 2026, o faturamento bruto dentro da porteira encolhe R$ 66 bilhões, queda de 4,5%. No mesmo intervalo, o país colhe 8,5 milhões de toneladas a mais de grãos.

O corte do VBP se concentra nas lavouras. O valor bruto da produção agrícola foi projetado em R$ 893,331 bilhões, recuo de 6% frente a 2025, enquanto a pecuária ficou em R$ 504,866 bilhões, queda mais suave de 1,7%. Lavouras respondem por 64% do total, pecuária pelos 36% restantes.

Aberto por cultura, o quadro fica mais claro. A soja, maior cadeia individual do país, ficou praticamente estável, em R$ 336,028 bilhões. O milho foi projetado em R$ 158,408 bilhões, queda de 6,6%. A cana-de-açúcar somou R$ 108,746 bilhões, recuo de 8,8%, e o café ficou em R$ 103,471 bilhões, baixa de 11,6%. O algodão caiu 5,7%, para R$ 34,252 bilhões.

Nas pontas, as quedas são bem mais fortes. A laranja recuou 41,8%, para R$ 14,466 bilhões. O trigo perdeu 25,4% e ficou em R$ 7,929 bilhões. O cacau despencou 57%, restando R$ 5,074 bilhões de faturamento bruto projetado.

Entre as lavouras acompanhadas pelo ministério, o crescimento aparece em apenas cinco: banana, batata-inglesa, feijão, mandioca e tomate. Nenhuma delas tem peso relevante na receita agregada do setor.

A explicação do Mapa é direta. A queda anual está associada ao preço menor esperado para as commodities agrícolas e à desaceleração da produtividade das lavouras. Traduzindo: o produtor entregou mais grão e recebeu menos por ele.

O PIB do agronegócio já tinha dado o sinal antes. O indicador do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq-USP), calculado em parceria com a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), recuou 2,01% no primeiro trimestre de 2026, depois de crescer acima de 12% em 2025.

 
 

A retração atingiu toda a cadeia. O segmento primário caiu 4,15%, insumos recuaram 2,15%, agrosserviços 1,25% e agroindústria 1,03%. Por ramo, a agricultura encolheu 3,62% e a pecuária cresceu 0,70%, o único resultado positivo do levantamento.

O efeito sobre o peso do setor na economia é o dado que mais chama atenção. A participação do agronegócio no PIB nacional foi estimada em 22,8% para 2026, contra 25,2% em 2025. São 2,4 pontos percentuais em um ano.

Pesquisadores do Cepea e da CNA apontam a mesma causa que o Mapa: a expectativa de redução do valor da produção em 2026, puxada pela queda de preços, que superou os ganhos projetados de volume em diversas atividades agrícolas e pecuárias.

Para quem planeja a próxima safra, a leitura prática é que o ganho de escala não está compensando a perda de margem. O produtor que colheu mais em 2026 pode ter fechado o ano com receita menor do que em 2025, e a diferença de R$ 66 bilhões no agregado nacional é a soma dessas contas individuais.

O quadro também ajuda a explicar decisões que já apareceram no campo, como a redução de 20,4% na área de trigo apontada pela própria Conab. Quando a margem aperta, o primeiro corte é no investimento da cultura menos rentável.