Entre rotina exaustiva e pressão, motociclistas se equilibram nas ruas de Campo Grande
Aos 42 anos, quatro deles trabalhados como entregador de aplicativo, Uramar Silva percorre as ruas de Campo Grande sobre duas rodas. Cronômetro rodando, cliente esperando, restaurante pressionando. Esse é o dia mais tranquilo na vida do motoentregador.
Uramar trabalha por uma meta: juntar aquela grana para conseguir fazer o exame da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil). Sim, ele é bacharel em Direito. Mas das 8h às 20h, ele é um dos quase 100 mil motociclistas que rodam o asfalto de Mato Grosso do Sul.
Ser motociclista no Brasil é dramaticamente perigoso. O país, que ocupa o 4º lugar no ranking de extensão de malha rodoviária, vive também, o que chamou o presidente da Abramet (Associação Brasileira de Medicina de Tráfego), Antônio Meira Júnior, de epidemia de acidentes de trânsito.
Júnior revelou que em 71% dos municípios do Brasil os acidentes de trânsito matam mais do que as armas de fogo. Desses acidentes, 60% das vítimas estão em cima de uma moto. Em 2025, Mato Grosso do Sul teve 75 mortes no trânsito, segundo dados da Sejusp (Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública).
Isso se deve, pelo menos em parte, à pressão – que a sociedade normalizou – colocada nos “motoboys”. “Nós temos um cronômetro que, na verdade, é uma peneira fina na nossa profissão. Se você não bate a meta, vem uma nova avaliação”, explica Uramar.
Muita gente não sabe, mas os motociclistas de aplicativo têm radar de velocidade. “Nós temos que andar devagar, até 60 km/h. Se passarmos do limite, tem uma punição”. Daí surge um grande conflito: a pressa dos clientes somada ao cronômetro do aplicativo VS o trânsito em horário de pico.
Tem infraestrutura para tanto motociclista?
Segundo Andrea Moringo, Diretora de Educação para o Trânsito do Detran (Departamento Estadual de Trânsito) de Mato Grosso do Sul, cada vez mais o Estado e Campo Grande aumentam a quantidade de motociclistas. Para lidar com essa demanda, a cidade precisa estar equipada. Mas será que está? Ninguém melhor do que quem vive na prática essa realidade para responder.
“O trânsito é bem perigoso. Não tem sinalização, não tem manutenção. A gente tem que ficar prevendo os movimentos dos veículos para não sermos atropelados”, disse, Uramar. A propósito, nossa conversa aconteceu em uma oficina, para manutenção de seu instrumento de trabalho. Na noite anterior, sua moto foi danificada em um buraco, enquanto trabalhava debaixo de chuva.













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