Arqueólogos fizeram uma descoberta considerada excepcional no norte do Peru: um complexo funerário ligado à civilização Chimú permaneceu praticamente intacto por mais de seis séculos e guardava os restos mortais de pelo menos 38 pessoas.
O local, identificado nas proximidades de Chan Chan, antiga capital desse povo pré-inca, também revelou armas de metal, adornos sofisticados, joias e objetos utilizados em cerimônias.
A descoberta foi anunciada pelo Ministério da Cultura do Peru nesta terça (8) e chamou a atenção dos pesquisadores principalmente pelo estado de conservação do conjunto. Diferentemente de outros sítios arqueológicos da região, cujas sepulturas foram saqueadas ou destruídas ao longo dos séculos, o novo túmulo preservou boa parte de seu conteúdo original.
Entre os materiais encontrados estão ornamentos produzidos em metal, toucados, caixas de madeira entalhada decoradas com aplicações metálicas, colares de conchas e quartzo, armas e objetos de caráter cerimonial. A variedade e a qualidade dos artefatos indicam que o espaço funerário pode ter sido destinado a integrantes de alto status dentro da sociedade Chimú.
Estrutura do túmulo surpreende pesquisadores
O complexo funerário foi construído sobre uma plataforma formada por três câmaras: uma central e duas laterais de maiores dimensões.
A câmara central possui aproximadamente 1,2 metro de largura e cinco metros de profundidade. O acesso ocorre por uma entrada que leva a uma escadaria de cerca de 2,5 metros até o interior da estrutura, onde também existe um nicho.
Nesse espaço, os arqueólogos encontraram os restos de uma pessoa acompanhados por diversos objetos produzidos com metal e conchas.
As duas câmaras laterais apresentam aproximadamente 1,5 metro de largura e oito metros de comprimento, chegando a 3,5 metros abaixo da superfície de trabalho. Embora tenham sido construídas dentro do mesmo complexo, elas apresentaram conteúdos bastante diferentes durante as escavações.
Uma delas não continha restos humanos, mas guardava armas e emblemas metálicos. Já a outra revelou, até o momento, 20 indivíduos.
Outros 18 corpos foram localizados em diferentes pontos da plataforma funerária. Somados, os achados já permitiram identificar os restos de 38 pessoas.
Enterro incomum levanta hipótese de sacrifício
Um dos esqueletos encontrados despertou especial interesse entre os pesquisadores por apresentar uma característica incomum.
O indivíduo foi colocado completamente estendido dentro da sepultura. A posição contrasta com práticas funerárias tradicionalmente associadas aos Chimú, nas quais os mortos costumavam ser enterrados em posições flexionadas ou sentadas e flexionadas.
A diferença fez surgir questionamentos sobre a identidade da pessoa e as circunstâncias de sua morte. Uma das possibilidades consideradas pelos arqueólogos é que o indivíduo tenha sido vítima de um ritual de sacrifício.
Outra hipótese é que a posição esteja relacionada a uma condição social significativamente diferente daquela dos demais indivíduos sepultados na plataforma.
Por enquanto, porém, nenhuma das interpretações foi confirmada. Os especialistas ainda precisam realizar análises adicionais dos restos mortais para verificar se existem sinais que possam esclarecer a causa e as circunstâncias da morte.
Joias e pigmento vermelho indicam presença da elite Chimú
Os objetos recuperados no local oferecem outras pistas sobre quem foram as pessoas enterradas no complexo.
Entre os achados estão delicados adornos metálicos para as orelhas, colares e toucados, além de caixas de madeira cuidadosamente trabalhadas e ornamentadas com elementos metálicos. Também foram encontradas diversas peças produzidas a partir de conchas marinhas e quartzo.
Outro detalhe chamou a atenção: alguns dos indivíduos apresentavam vestígios de pigmento vermelho na região da cabeça. A mesma tonalidade também apareceu em determinados objetos de cerâmica recuperados durante as escavações.
Segundo o Ministério da Cultura peruano, esse pigmento vermelho tinha caráter sagrado e era reservado a sepultamentos de pessoas de alto status em sociedades andinas. A presença do material, portanto, reforça a interpretação de que o complexo estava relacionado a membros da elite Chimú.
Os objetos de cobre e ouro encontrados junto aos restos humanos ampliam ainda mais a importância arqueológica da descoberta.
Chan Chan foi centro de uma poderosa civilização pré-inca
O sítio está localizado no complexo arqueológico de Chan Chan, próximo à cidade de Trujillo, a aproximadamente 500 quilômetros ao norte de Lima.
Chan Chan foi a capital da civilização Chimú, que se desenvolveu ao longo da costa norte do atual Peru entre aproximadamente 900 e 1470 d.C. Antes de ser incorporada ao domínio inca, a sociedade Chimú construiu uma organização política e econômica sofisticada e deixou extensos vestígios arquitetônicos na região.
A cidade de Chan Chan ocupa uma área ampla, com estruturas que podem ser observadas inclusive a partir de grandes alturas. O complexo é reconhecido pela dimensão de suas construções e pela riqueza dos materiais e elementos decorativos associados à cultura Chimú.
A preservação do novo túmulo oferece aos pesquisadores uma oportunidade particularmente importante para compreender os costumes funerários, a hierarquia social e as práticas religiosas desse povo.
Escavações devem revelar novos detalhes
Apesar da quantidade de materiais já recuperados, o trabalho arqueológico ainda está em andamento. Os pesquisadores continuam analisando tanto os restos humanos quanto os objetos encontrados nas diferentes câmaras.
A descoberta de um espaço funerário que permaneceu protegido durante mais de 600 anos pode permitir comparações com outros sepultamentos Chimú encontrados na região, ajudando a identificar diferenças de posição social, rituais funerários e possíveis práticas sacrificiais.
Para os arqueólogos, o principal valor do achado está justamente na combinação entre a quantidade de indivíduos e o estado de conservação do conjunto. Em vez de encontrar apenas vestígios isolados ou sepulturas previamente saqueadas, os pesquisadores se depararam com uma estrutura que preservou grande parte dos elementos depositados pelos Chimú há séculos.













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