Pecuária enfrenta trimestre difícil com desafios internacionais, mas expectativa é de retomada e recorde no fim do ano.
Apesar de um cenário externo cada vez mais espinhoso — marcado pela imposição da cota chinesa que limitou sua demanda, pelo cerco da União Europeia e pelas barreiras protecionistas nos Estados Unidos —, a pecuária de corte brasileira se prepara para uma virada de chave no quarto trimestre. Segundo explicam analistas e consultores de mercado, impulsionada pela recuperação do consumo interno e pelo arrocho na oferta de animais terminados, a cotação da arroba do boi gordo ganha fôlego renovado e pode testar novas máximas nos preços.
"O terceiro trimestre sim vai ser difícil, vai ser um período mais complicado por conta do esgotamento da cota da China, mas o último trimestre com a volta da demanda chinesa, um ápice do consumo no mercado interno e a boa demanda norte-americana, os preços da arroba do boi gordo podem renovar as máximas históricas", afirma Fernando Henrique Iglesias, analista da Safra & Mercado.
Neste momento, o mercado sente os impactos da cota já praticamente toda preenchida para a nação asiática - que é a maior compradora da proteína brasileira e os preços acompanham o cenário, mas há ainda outro termômetro medindo a força da pecuária nacional. "Apesar dessa bronca toda, quando fazemos o levantamento do mercado, existe ainda a oferta de compra do boi China, e há lugares no Brasil em que essa diferença de preço é de R$ 10,00. Ou seja, existem mercados cujo destino é 100% China e em que eles pagam esse ágio forte. Eles querem aquele boi de 30 meses ou quatro dentes", afirma o CEO da Scot Consultoria, Alcides Torres.
O mercado vive agora uma estabilidade nos preços porque, ainda segundo Torres, "os compradores são resistentes à redução de oferta", e na B3 os futuros já sinalizam uma arroba mais valorizada. Com altas sendo registradas nesta terça-feira (21) de mais de 1% entre as posições mais negociadas, o julho tinha R$ 345,65, o setembro R$ 360,90 e o outubro cotado a R$ 368,80 por arroba. "Podemos ter uma barrigada nestes 10 dias de julho, agosto, e em setembro a gente volte a comprar carne para exportar para a China. Os frigoríficos já estão comprando carne para exportar no primeiro semestre do ano que vem porque o preço está interessante. E eles acreditam que entre final de agosto e setembro possa haver uma alavancagem de preços e já estão se preparando".
Em São Paulo, por exemplo, a terça-feira foi marcada por uma interrupção na sequência das perdas das últimas semanas, com o físico mostrando certa recuperação, mas ainda frágil.
DE PROJEÇÕES E EXPECTATIVAS, O MERCADO PECUÁRIO SE TORNOU GLOBAL
O mercado pecuário se tornou global. E assim, menos previsível portanto. Por isso o impacto das barreiras que são impostas à carne bovina do Brasil - talvez a mais competitiva do mundo - causam impactos também mais significativos. As três frentes que atuam limitando seu potencial neste momento têm pesos diferentes, porém, podem, gerar prejuízos semelhantes, com as devidas proporções respeitadas. Da China aos EUA, passando pela União Europeia, todos preocupam igualmente, mesmo que de forma pontual.
"O Brasil está sendo atacado de diversas frentes neste ano em relação a carne e a carne, inclusive, está sendo motivo de disputas geopolíticas. Nós precisamos ter a percepção de que é muito necessário ao Brasil jogar com o 'regulamento embaixo do braço', com tudo muito bem documentado para responder a estas críticas que muitas vezes são infundadas", alerta o analista da Safras & Mercado.
1. CARNE DO BRASIL NA LISTA DE ISENÇÕES DOS EUA
Ainda segundo Fernando Henrique Iglesias, a carne brasileira estar na lista de isenção das tarifas dos EUA mais interessa aos americanos, já que que tem papel determinante no abastecimento do mercado norte-americano, em especial com cortes de dianteiro para o preparo de hambúrguer. "Os EUA com a posição atual do rebanho que eles têm, fechando frigoríficos, com demissão de profissionais e redução na capacidade de abate porque o preço do boi está muito alto é um sinal claro de que eles precisam importar e não podem abrir mão do Brasil, que é uma origem prioritária dos cortes de dianteiro e isso faz toda a diferença para os americanos", diz.
Atualmente, o Brasil conta com uma cota exportadora para os EUA de cerca de pouco mais de 50 mil toneladas - já preenchida nos primeiros dias de janeiro - e uma tarifa em vigência de 26,4% - e mesmo assim o Brasil se mantém muito competitivo e deverá seguir fornecendo carne aos americanos no restante deste ano. "O segundo semestre também é um período de consumo mais forte nos EUA e por isso vamos acompanhar um avanço das vendas brasileiras com destino aos EUA mesmo com a tarifa tradicional em vigor", complementa o analista.
Entre janeiro e junho deste ano, do total de carne bovina exportada pelo Brasil, 7,8% do total tiveram o mercado norte-americano como destino.
O produto brasileiro, além disso, ainda garante aos frigoríficos americanos margens um pouco melhores com esta carne "relativamente barata", como explica o CEO da Scot.
2. O PESO DA COTA CHINESA
O Brasil está prestes a receber o alerta de que 80% da cota chinesa já foi preenchida e não está longe dos próximos de 90% e 100%, ainda como explicam os especialistas. "Isso oficializa aquilo que vimos sair de carne do Brasil nos meses de abril, maio e junho", afirma o analista da Safras. Há, porém, muito produto em trânsito e com um volume que poderia ser sobretaxado com os 55% ao chegar em território chinês.
O impacto para as indústrias brasileiras já vem sendo registrado com margens mais ajustadas, escalas curtas, as exportações se contraindo e o mercado interno fragilizado.
Em junho, o Brasil internalizou cerca de 148,47 mil toneladas de carne bovina na China. Ainda na análise de Iglesias, os números evidenciam alguma lentidão nno processo e também sinalizam, com uma visão mais expandida, que as vendas da Nova Zelândia se aceleraram no mesmo período, o que poderia também acontecer com o Uruguai e a Nova Zelândia mais a frente.
"Os dados das exportações brasileiras de julho serão fundamentais para compreender como os embarques se comportarão nesse novo cenário. A notícia positiva está no avanço da demanda dos Estados Unidos, de Hong Kong, do Uruguai e da Argentina. No caso dos três últimos destinos, o aumento das compras pode representar indícios de triangulação comercial para que o produto alcance indiretamente o mercado chinês", detalha Iglesias.
3. A UNIÃO EUROPEIA E OS ANTIMICROBIANOS
Representantes de países da União Europeia voltaram a afirmar, nos últimos dias, que o bloco não deverá flexibilizar suas regras para voltar a importar as carnes brasileiras e o prazo de 3 de setembro segue em vigor para a proibição. "A bronca não é nem com relação ao Brasil usar ou não antimicrobianos, mas provar isso de forma cabal, com documentos, rastreamentos. Essa é uma regra da União Europeia e afirma que o que importa são as próprias regras para que o mercado possa ser acessado", afirma Alcides Torres.
As tratativas continuam acontecendo entre autoridades brasileiras e europeias, porém, ainda sem sucesso. Os esforços, todavia, são mantidos pela importância do mercado para a carne bovina brasileira não só em termos de volume e receita, mas pela Europa ser o que o setor chama de "mercado vitrine". Em 2025, o Brasil exportou cerca de 200 mil toneladas para a Europa e metade disso se deu como destino a União Europeia. "Então, a gente tende a perder este mercado (mesmo que temporariamente) e este é um mercado que paga bem pela carne".
As questões ligadas aos antimicrobianos não estão ligadas somente à carne bovina, mas a produtos de origem animal de forma geral, porém, para a carne bovina a complexidade da cadeia deixa o cenário ainda mais complexo. "Por mais que o Brasil entregue a documentação necessária ainda será preciso o aval da Europa. Há muitas camadas de protecionismo técnico neste caso, mas o Brasil precisa dançar conforme a música. Grandes mercados do mundo estão cada vez mais exigentes sobre a rastreabilidade", afirma Iglesias.













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