A questão da segurança pública no Brasil voltou a ocupar um lugar de destaque nos noticiários, não necessariamente por uma mudança efetiva no cenário criminoso, mas impulsionada pela pressão externa.
As recentes declarações do ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que ameaçou, caso eleito, designar facções criminosas brasileiras como organizações terroristas, criaram um clima de urgência que tanto o governo federal quanto a Polícia Federal (PF) tentam gerenciar. No entanto, uma análise mais aprofundada revela que as ações em curso e o discurso oficial parecem mais focados em responder a essa pressão internacional do que em implementar uma estratégia consistente e duradoura de combate ao crime.
De um lado, a Polícia Federal tem sido acionada para operações de alto impacto, muitas vezes com ampla cobertura midiática. Essas ações, como operações em presídios e contra a lavagem de dinheiro, são inegavelmente importantes e demonstram a capacidade operacional da corporação. Contudo, elas frequentemente se assemelham a “apagar incêndios” – são reativas e pontuais. A sensação é de que a PF está sendo utilizada para criar um show de força, um espetáculo midiático que possa ser exibido como prova de que o Brasil está “agindo”. Esta abordagem, embora produza resultados imediatos, não aborda as causas profundas do poder das facções: a corrupção enraizada, a falta de políticas sociais em áreas vulneráveis e a fragilidade do sistema prisional.
Por outro lado, o discurso do governo federal oscila entre minimizar a força das facções e adotar um tom beligerante quando a pressão internacional aperta. A fala de autoridades que tentam descrever o crime organizado como um problema menor ou localizado soa desconectada da realidade de territórios dominados pelo tráfico e do avanço das milícias. Quando a ameaça de Trump ganha força, o governo rapidamente busca destacar operações e reuniões de crise, numa tentativa clara de gerenciar a percepção e afastar o fantasma de uma rotulação que traria sérias consequências geopolíticas e econômicas para o país.
O cerne da questão é que a pressão de Trump, embora possa ter servido como um catalisador para colocar o tema em pauta, não é um substituto para uma política de Estado. A resposta brasileira parece estar sendo moldada pela agenda externa, não por um plano nacional de segurança pública construído com autoridades estaduais, especialistas e a partir de dados concretos. O risco é que, uma vez passado o ciclo de pressão, as operações midiáticas percam fôlego e o tema volte a ser negligenciado, enquanto as facções continuam a se expandir, diversificando seus negócios para o comércio ilegal de madeira, ouro e o controle de rotas de exportação.
Em resumo, a combinação entre as operações espetaculosas da PF e o discurso oscilante do governo falha em responder de maneira estrutural ao desafio do crime organizado. A resposta às ameaças de Trump é mais sobre imagem e diplomacia do que sobre uma mudança real de paradigma. Enquanto o combate ao crime for guiado pela pressão de ocasião e não por uma estratégia integrada e de longo prazo, o Brasil continuará a lutar uma batalha superficial, sem conseguir infligir um golpe decisivo na espinha dorsal das facções que minam a segurança e a soberania nacional.











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