Apoio à senadora bancada pela extrema-direita deixa Vander em saia justa no governo e na esquerda.
A crise que consumiu a credibilidade do STF contaminou as eleições e invadiu, com quatro meses de antecedência, a disputa pela presidência do Senado, que ocorrerá em fevereiro do ano que vem. Independentemente de quais serão os eleitos para as 54 cadeiras em disputa em 4 de outubro, três nomes fortes remanescentes da atual legislatura estão no páreo: Davi Alcolumbre (União-AP), Rogério Marinho (PL-RN) e a sul-mato-grossense Tereza Cristina (PP), esta favorecida por uma conjuntura que indica provável crescimento do conservadorismo no Legislativo e sua ligação com pautas da direita.
Disputa pela Presidência do Senado, prevista para fevereiro de 2025, começa a ganhar contornos antes mesmo das eleições de outubro, com três nomes em destaque: Davi Alcolumbre, Rogério Marinho e Tereza Cristina, favorecida pelo conservadorismo crescente no Legislativo. Candidato ao Senado pelo PT em Mato Grosso do Sul, Vander Loubet surpreendeu ao declarar apoio à senadora, gerando debate sobre pragmatismo e identidade partidária.
Tereza Cristina tem pesado a mão contra Alexandre de Moraes, mas não é tão rigorosa com integrantes da Corte simpáticos à direita, o que a posiciona entre os senadores que defendem uma atuação mais dura do Congresso sobre o STF, inclusive com a possibilidade de processos por crime de responsabilidade. O impeachment ganhou força no debate político, mas não é a única base de sustentação da candidatura de Tereza: ela mira o apoio da bancada ruralista como uma das principais alavancas.
A força do agro - Mais poderosa do Congresso, a FPA (Frente Parlamentar da Agropecuária) tem 345 integrantes, 297 na Câmara dos Deputados e 48 no Senado. Se mantivesse essa composição, teria sete votos a mais que os 41 necessários para eleger o presidente do Senado. É aí que está parte importante da força de Tereza Cristina, não apenas por sua proximidade com o agronegócio, mas também pelos vínculos construídos com o setor industrial.
A FPA, embora majoritariamente identificada com a direita, reúne parlamentares de diferentes partidos e posições ideológicas. Em Mato Grosso do Sul, com exceção de Camila Jara (PT), os outros sete deputados federais e os três senadores integram a frente. Nenhum deles, porém, entrou na disputa pela Presidência do Senado de forma tão inesperada quanto o candidato ao Senado Vander Loubet, presidente do PT estadual.
Vander conduziu o partido ao rompimento com o governo Eduardo Riedel (PP) em setembro do ano passado, sob a alegação de que o grupo dominante havia guinado para a extrema direita, e agora anuncia que, caso seja eleito, apoiará Tereza Cristina para a Presidência do Senado.
A decisão pode ser interpretada como uma tentativa pragmática de ampliar sua interlocução para além da esquerda, mas também o expõe a uma contradição: o petista mantém o apoio a Lula enquanto declara voto em uma senadora identificada com o bolsonarismo. Em uma eleição para o Senado que terá duas vagas em disputa por Estado, a opção pode abrir uma discussão sobre os limites entre pragmatismo, alianças e identidade política.
Vander afirmou que, caso seja eleito e a disputa seja com Davi Alcolumbre, não só apoiará Tereza Cristina como faria gestão junto a Lula para que o presidente, também na hipótese de vencer a eleição, coloque seu peso político a favor da senadora sul-mato-grossense. O deputado confirmou ao Campo Grande News que telefonou para Tereza, com quem mantém relação institucional há anos, e comunicou sua disposição de apoiá-la.
Disse preferir uma aliança com ela a uma eventual recondução de Alcolumbre, a quem acusa de usar a negociação política de forma excessivamente dura. Como condição para seu apoio, defende que Tereza inclua na plataforma agricultura familiar, política de juros e desenvolvimento sustentável, e não apenas o agronegócio empresarial.
O Senado que sairá das urnas - O cálculo, porém, ultrapassa a disputa entre três nomes. O Senado que escolherá seu presidente em fevereiro será definido pelas urnas de outubro, que renovarão dois terços da Casa. Das 81 cadeiras, 54 estarão em disputa. Dos atuais ocupantes dessas vagas, 32 tentam a reeleição, nove disputam outros cargos ou participam de chapas como suplentes e 13 não concorrem a nenhum cargo. Assim, pelo menos 22 não permanecerão como titulares dessas cadeiras em 2027. O número poderá aumentar conforme o resultado dos 32 que buscam novo mandato.
A nova composição será decisiva não apenas para definir quem presidirá o Congresso, mas também para estabelecer a relação do Senado com o governo eleito e com o STF. A temperatura dessa disputa já pode ser medida pelas urnas.
Pesquisa Datafolha divulgada em setembro mostrou que 34% dos eleitores dizem ter maior probabilidade de votar em um candidato ao Senado que defenda o impeachment de ministros do STF, enquanto 31% afirmam que essa posição reduz suas chances de voto. Entre os eleitores de Lula, 36% dizem que a defesa do impeachment diminui a chance de votar no candidato, enquanto entre os eleitores de Flávio Bolsonaro 49% afirmam que a posição aumenta essa probabilidade.
A pauta, que ganhou força com a crise envolvendo o Supremo e o caso Banco Master, pode transformar a eleição para o Senado em um dos campos de disputa sobre a relação entre os Poderes, embora não seja o único tema capaz de mobilizar o eleitorado. O Datafolha também registrou que 28% dos eleitores defendem o impeachment de Alexandre de Moraes, enquanto 34% preferem seu afastamento temporário para investigação.
Campeão em sobrevivência, o pragmático Alcolumbre, desde que ascendeu do baixo clero do Congresso, anda com um pé em cada canoa e, conforme fonte do Senado que pediu para não ter o nome citado, espreita as urnas: se Lula ganhar a eleição, manteria congelados os pedidos de impeachment de ministros do STF; caso Flávio Bolsonaro seja o vitorioso, desengavetaria os pedidos no dia seguinte, colocando-os em pauta para julgamento ainda na atual legislatura. Seria uma forma de tentar recuperar o terreno que vem perdendo para Tereza Cristina.
A disputa que chega a fevereiro - É nesse ambiente que a candidatura da sul-mato-grossense terá de ser construída. Além da pauta do STF, estarão em jogo temas que historicamente mobilizam o Congresso, como o controle da agenda legislativa, a relação com o Executivo e as emendas parlamentares, que virou a "galinha de ouro" de todos os congressistas.
O próprio sistema de distribuição e fiscalização das emendas está no centro de um conflito entre Congresso e Supremo. A Presidência do Senado, portanto, estará na vitrine de uma disputa que envolve a capacidade de pautar projetos, administrar a relação com o Executivo e definir a postura da Casa diante do STF.
O apoio declarado por Vander Loubet (PT) a Tereza Cristina ganha um contraponto justamente entre os adversários que disputam com ele uma das duas vagas de Mato Grosso do Sul. Capitão Contar (PL) também admite votar na senadora caso ela seja escolhida como nome de consenso da centro-direita para comandar a Casa.
Ao Campo Grande News, ele ressaltou, porém, que sua eventual adesão estaria condicionada a compromissos como pautar a anistia, os pedidos de impeachment de ministros do STF e uma agenda que, em sua avaliação, restabeleça o equilíbrio entre os Poderes.
Contar avalia que o apoio de Vander a Tereza pode não produzir ganhos eleitorais entre os eleitores de direita e ainda provocar perdas no campo da esquerda. Para ele, Mato Grosso do Sul tem perfil majoritariamente conservador nos costumes, liberal na economia e alinhado à centro-direita, o que, em sua avaliação, ajuda a explicar a baixa presença eleitoral do PT no Estado, onde o partido não governa há duas décadas e não administra nenhuma prefeitura há dez anos. Contar também destaca que, apesar das sucessivas gestões petistas no governo federal, o partido não consolidou a mesma força política em MS.
A disputa pela Presidência do Senado, portanto, começa muito antes de fevereiro e será decidida em duas etapas: primeiro, pelas urnas de outubro, que vão definir a composição da Casa; depois, pela capacidade de articulação dos grupos que emergirem dessa eleição. Para Tereza Cristina, a equação combina a força da bancada ruralista, a aproximação com a direita e a crise do STF.













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