Versão convencional ainda tem menos de 1% da safra, mas produção brasileira se destaca no mercado internacional.

 Soja não transgênica ganha mercado para shoyu e tofu e atrai compradores globais
Matéria-prima de alimentos, soja convencional produzida no Brasil está conquistando compradores internacionais. / Foto: Divulgação

O Brasil é líder global na produção e exportação de soja, com uma colheita que deve chegar a 176 milhões de toneladas na safra 2025/26, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Essa soja é praticamente toda transgênica, e a maior parte da produção é comercializada como commodity, em grãos e farelo - destinados à fabricação de ração animal, além do óleo comestível e biodiesel.

Mas uma produção em pequena escala, de soja não transgênica, destinada à fabricação de alimentos como shoyu e tofu, tem demanda garantida, na exportação e no mercado doméstico. Desde 2024, produtores brasileiros vêm exportando essa soja ao Japão e à Indonésia, e há expectativa de vender também para a Holanda e Coreia do Sul em breve.

Segundo dados do Instituto Soja Livre, o cultivo nacional de soja convencional na safra 2025/26 atingiu uma área de 420 mil hectares, sendo 11 mil hectares de soja orgânica. A produção estimada é de  1,55 milhão de toneladas, o que corresponde a menos de 1% da produção total estimada do Brasil para o ciclo. 

Além de ser não transgênica, a soja destinada à produção de tofu também tem um sistema de produção diferenciado.
“É um segmento ainda pequeno, que está começando a ser explorado agora, mas que tem uma demanda relevante principalmente na Europa e na Ásia”, diz o presidente do Instituto Soja Livre, Luiz Fiorese.

O dirigente enfatiza que os requisitos do cultivo nesse nicho tornam o produtor um especialista e que o grão é bastante valorizado. Segundo Fiorese, o preço da soja convencional para consumo humano tem um ágio (chamado de prêmio no mercado) em relação ao produto commodity, de US$ 5 a US$ 6 por saca de 60 quilos.

Não há uma estimativa oficial da quantidade de soja não transgênica destinada ao consumo humano no Brasil. Fiorese acredita que o percentual não atinja 1% ou 2% do volume produzido. A Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja Brasil) também não possui dados específicos do grão especial. 

O produtor Paulo Bertolini planta em torno de 400 hectares de soja GMO-free, livre de organismos geneticamente modificados, destinada ao consumo humano. As lavouras estão localizadas em propriedades em Carambeí e de Piraí do Sul, na região dos Campos Gerais do Paraná.
A soja colhida é entregue a uma empresa voltada à comercialização de grãos especiais “food grade”, padrão internacional que garante que a produção não tem contaminação por resíduos químicos ou físicos. A produção abastece a indústria nacional e parte dela é destinada à exportação para o Japão desde 2025.

Bertolini revela que a produtividade fica em torno de 4 mil quilos por hectare, abaixo da soja transgênica cultivada na região, que chega a cerca 6 mil quilos por hectare. “Temos um cuidado especial com o cultivo para a precificação compensar a diferença de produtividade”, ressalta.

Além de seguir os protocolos de controle da produção, o grão tem de apresentar um padrão exigido na classificação. Um dos requisitos está relacionado à cor do hilo - ponto no grão que marca a conexão entre a semente e a vagem. A cor branca é uma característica valorizada na indústria de alimentos para a produção do tofu, por exemplo. Na soja transgênica, é comum que o hilo seja marrom ou preto.

Mercado internacional
 
No último ano, o segmento nacional de soja certificada para consumo humano acabou sendo beneficiado pela guerra tarifária do governo Donald Trump. Isso porque os EUA são um grande exportador desse tipo de soja. “Após a política adotada pelo atual governo [dos EUA], o mercado internacional está se abrindo para países como o Brasil”, ressalta Luís Fernando Luna, engenheiro-agrônomo da Opta Alimentos, que atua na originação e comercialização de grãos especiais.

A Opta iniciou a exportação da soja especial brasileira para o Japão em 2024, o que se repetiu em 2025, com volume próximo a 2,5 mil toneladas ao ano. Também enviou o produto para a Indonésia e prospecta a Holanda, até então um grande comprador do produto americano. 

O Brasil também está em processo de liberação para exportação do grão para a Coreia do Sul, outro tradicional cliente dos EUA. A Korea Agro-Fisheries & Food and Trade Corporation (aT), empresa pública importadora de alimentos para a Coreia do Sul com sede em São Paulo, assinou, em 2024, um memorando de entendimento com a Embrapa Cerrados e a Fundação Cerrados para o desenvolvimento de cultivares de soja não transgênica de alto rendimento que sirvam de base na fabricação de produtos alimentícios, principalmente tofu, pasta de soja fermentada e leite de soja.

Luiz Fiorese, que também preside a Fundação Cerrados, de Brasília, afirma que serão enviadas 10 toneladas, neste ano, para teste de mercado. A fase anterior consistiu no envio de amostras do produto para testes na indústria sul-coreana. As tratativas, que envolvem o governo sul-coreano, a Embrapa e a Fundação Cerrados, tiveram início em 2022 e as negociações também avançaram a partir do tarifaço dos EUA, que era o principal fornecedor, ao lado do Canadá.

Segundo o pesquisador da Embrapa Cerrados, Sebastião da Silva Neto, também diretor técnico do Instituto Soja Livre, o Brasil já atua no desenvolvimento de cultivares de soja convencional para consumo humano e tem potencial para atender esses mercados, “uma vez que o país vem sendo considerado um importante fornecedor alternativo”.

A Fundação Cerrados também tem recebido comitivas da China interessadas na produção brasileira. Fiorese destaca que há maior demanda nos mercados europeu e asiático, que têm resistência e restrições aos produtos transgênicos.

Demanda brasileira
 
A soja convencional para consumo humano também atende, no mercado doméstico, empresas tradicionais do setor alimentício. A Sakura Alimentos, empresa fundada em 1940 no Brasil por imigrantes japoneses, utiliza a soja não transgênica para a produção do molho de soja (shoyu) e missô, pasta tradicional da culinária japonesa feita de soja fermentada.

Segundo Akira Honma, gerente de Pesquisa e Desenvolvimento e de Inovação da Sakura, a empresa recebe em torno de 1,2 mil toneladas da soja não transgênica por ano. “Desde o início da produção do molho de soja, que é nosso primeiro produto, optamos por não usar soja OGM [Organismo Geneticamente Modificado]”, afirma Honma. Atualmente, o shoyu e o missô  da Sakura são distribuídos em todo o Brasil e exportados para países do Mercosul e da Europa e, em menor quantidade, para o Japão.

Na Yakult, multinacional japonesa, que atua no Brasil, a soja não transgênica é utilizada para fabricação da linha “Tonyu”, bebida à base de extrato de soja combinada com suco de frutas. De acordo com Atsushi Nemoto, diretor-presidente da Yakult do Brasil, o volume anual de soja não transgênica utilizada na elaboração do produto é, em média, de 100 toneladas de grãos/ano, provenientes de produtores brasileiros.
“O mercado de soja não transgênica no Brasil é restrito, mas ainda há uma demanda que permite relacionamento com produtores certificados que garantem o fornecimento de produtos que não contenham organismos geneticamente modificados por meio de auditorias, avaliação do processo e rastreabilidade”, afirma Nemoto.