Fisioterapeuta esclarece que a variação de posição e o movimento constante são fundamentais para evitar dores.

Postura 100% reta o dia todo no trabalho pode ser ainda mais prejudicial
Pessoa sentada com postura irregular no local de trabalho. / Foto: Paulo Francis.

Passar horas seguidas na frente do computador sem sentir incômodos nas costas ou no pescoço é um desafio diário para milhares de trabalhadores. Porém, ao contrário do que se ensinou por décadas, a chave para evitar a dor não está em se manter engessado em uma posição dita “correta”.

A fisioterapia moderna descarta a ideia de uma postura perfeita para evitar dores no trabalho. Segundo o fisioterapeuta Pedro Luna, variar de posição e movimentar-se diante dos primeiros sinais de desconforto ajuda a evitar sobrecargas. A ergonomia deve considerar cada pessoa; no uso prolongado de notebook, recomenda-se elevar a tela e usar teclado e mouse externos. Exercícios devem ser individualizados, e dores que prejudicam atividades diárias exigem avaliação especializada.
Quem esclarece essa mudança de paradigma é o fisioterapeuta e mestrando em Ciências do Movimento, Pedro Luna. Segundo o especialista, a ciência atual busca desmistificar a ideia de que a biomecânica rígida seja uma receita mágica e universal contra o sofrimento físico.

O corpo humano foi projetado para se movimentar e suportar carga. Por essa razão, a tentativa de permanecer totalmente reto durante uma jornada inteira de trabalho pode ser prejudicial para a musculatura.

Ao ser questionado se tentar manter as costas 100% retas o dia todo é um erro, o especialista é direto. “Sim. E talvez esse seja um dos exemplos mais claros de como uma boa intenção biomecânica pode se transformar em uma orientação ruim”, afirma Pedro Luna.

Ele explica que a ideia de uma postura perfeita pressupõe a existência de uma posição ideal capaz de proteger o corpo contra qualquer dano. O problema é que sustentar a coluna ereta por horas exige a contração contínua de músculos posturais e pode ocasionar uma fadiga que desencadeia a própria dor.

A coluna não é uma estrutura estática. O fisioterapeuta destaca que, mesmo quando uma pessoa acredita estar parada na cadeira, o corpo realiza microajustes constantes e a coluna se movimenta em cerca de 15 graus sem que percebamos.

Nesse cenário, a fisioterapia atual abandona a busca pela postura perfeita e adota um novo lema conceitual. “A melhor postura é sempre a próxima. Não tenha medo de se movimentar”, destaca Luna.
Ajustes na mesa - Na hora de organizar o espaço de trabalho, as adaptações devem priorizar o conforto e a individualidade do trabalhador, sem apego a regras matemáticas rígidas.

Pedro Luna ressalta que a NR 17 (Norma Regulamentadora 17), que rege a ergonomia no trabalho, não impõe números universais para a altura de cadeiras ou ângulos obrigatórios de 90 graus para joelhos e quadril. A norma exige que o mobiliário se adapte às características físicas de cada pessoa e à tarefa realizada.

Para quem usa notebook por longos períodos, surge um outro desafio ergonômico. Quando a tela é colocada na altura dos olhos para proteger o pescoço, os braços precisam ser elevados para digitar, o que tensiona os ombros. Já quando se baixa o aparelho para aliviar os braços, força-se a curvatura da cervical para baixo.

Para resolver esse impasse em rotinas prolongadas, a solução recomendada é elevar a tela do computador até a linha da visão e utilizar teclado e mouse externos. Dessa forma, evita-se a fadiga postural e o desconforto nos punhos, ombros e coluna.

Hábitos que são frequentemente condenados, como cruzar as pernas, sentar sobre um dos pés ou escorregar na cadeira, também são ressignificados. De acordo com o fisioterapeuta, pegar um comportamento postural e classificá-lo como o único causador de lesões é uma visão simplista.

“Cruzar as pernas não é automaticamente lesivo, da mesma forma que sentar sobre o pé não significa que a pessoa vai desenvolver dor”, explica o profissional. A questão central não é o gesto em si, mas o tempo, a frequência e o contexto em que ele é sustentado.

Se a pessoa alterna entre sentar sobre o pé por alguns minutos, depois cruza as pernas, estica os joelhos e se encosta, a variação impede a sobrecarga em uma única estrutura. O problema real é a ausência de opções e a imobilidade prolongada.

O mesmo raciocínio se aplica a quem trabalha no sofá ou na cama. Trabalhar nesses locais não significa que irá causar dor imediata, mas pede cuidado porque a sensação de aconchego faz com que a pessoa permaneça imóvel na mesma posição por muito mais tempo sem perceber.

Escute o relógio biológico - Muitos trabalhadores buscam tabelas e horários fixos para realizar pausas, mas a ergonomia moderna não funciona como um cronômetro. Não há uma regra que obrigue a pessoa a se levantar a cada 30 ou 60 minutos de forma engessada.

Por isso, o fisioterapeuta aconselha que a pessoa preste atenção aos sinais do próprio corpo e utilize o seu “relógio biológico”. A troca de posição ou o ato de se levantar deve acontecer assim que surgirem os primeiros sinais de cansaço ou desconforto.

Pequenas atitudes durante o dia são suficientes para quebrar uma rotina sedentária. Sendo assim, caminhar para atender a uma ligação telefônica, ir buscar água ou café e ir até a mesa de um colega em vez de apenas enviar um WhatsApp são estratégias simples para colocar o corpo em ação.

Exercícios não são receita de bolo - Na busca por um alívio rápido, é comum procurar listas de alongamentos prontos para fazer na cadeira. Embora movimentos leves de rotação de ombros, flexão de tronco e mobilizações de pescoço tragam bem-estar imediato, eles não funcionam como uma fórmula idêntica para todos.

Pedro Luna enfatiza que o exercício é a base do tratamento fisioterapêutico, mas precisa ser aplicado de maneira inteligente e individualizada. "A intervenção educacional é essencial. O fisioterapeuta pode dar uma instrução, uma intervenção educacional de como você, como trabalhador, consegue modular sua própria dor, consegue assumir estratégias de gerenciamento de dor".

Outro ponto crucial é reconhecer que a dor é um fenômeno biopsicossocial e multidimensional. Fatores como estresse, noites mal dormidas, alta cobrança por metas e falta de autonomia no trabalho influenciam diretamente no aparecimento de dores musculares.

8 horas sentada - É só quando as dores começam a dar sinal durante as 8 horas em que passa sentada que a social media Evelyn Mendes lembra de se movimentar na cadeira. A jornada é dividida entre as 6 horas de expediente no MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul) e o período em que estuda em casa.

"Trabalho na área de comunicação e design, uma função que exige muito foco e horas em frente ao computador. Em casa a estrutura não é a mesma do trabalho, o que acaba por intensificar os incômodos no corpo", relata.

As regiões mais afetadas pela postura mantida por muito tempo são a nuca e a parte inferior da lombar. "Quando o desconforto começa a incomodar, procuro levantar e fazer pequenos alongamentos, vou beber água ou algo do tipo. O objetivo principal é movimentar o corpo e quebrar o tempo prolongado na mesma posição", explica Evelyn.

O que tem ajudado a comunicadora a lidar com os sintomas é a prática regular de exercícios físicos. Embora tenha começado a musculação e a corrida por outros motivos de saúde, ela percebeu o impacto direto no alívio da pressão nas costas.

"Percebi que a atividade física reduzia bastante as dores associadas à rotina de trabalho. Tento manter uma frequência de pelo menos três idas à academia por semana, complementando com caminhadas ou corridas ao ar livre aos fins de semana", conclui.

Sinais de alerta - A presença de desconforto nem sempre significa que existe uma lesão física. Pedro Luna aponta que é muito comum encontrar pessoas com alterações estruturais na coluna, como a escoliose, que vivem perfeitamente sem sentir nenhuma dor.

Por outro lado, pessoas sem qualquer alteração nos exames de imagem podem relatar dores intensas provocadas por cansaço, estresse ou sobrecarga de trabalho.

O sinal de alerta vermelho acende quando a dor passa a gerar perda funcional. Se o desconforto começa a prejudicar o rendimento profissional, impede a prática de exercícios físicos ou afeta os momentos de lazer e o convívio familiar, é hora de procurar ajuda especializada.

Nesses casos, a consulta com um fisioterapeuta é indispensável não apenas para tratar o sintoma, mas para atuar de forma preventiva e adequar o posto de trabalho.

Postura 100% reta o dia todo no trabalho pode ser ainda mais prejudicial
Postura 100% reta o dia todo no trabalho pode ser ainda mais prejudicial