Um morador de Corumbá, de 27 anos, escapou de ser executado por integrantes de uma facção criminosa na última terça-feira (14), nas proximidades de Lucas do Rio Verde (MT).
O sul-mato-grossense, que não vai ter a identidade divulgada por segurança, foi confundido como faccionado rival, sequestrado, torturado e por pouco não foi executado. O plano dos criminosos só foi frustrado graças à ação da Cavalaria da Polícia Militar de Mato Grosso, que resgatou a vítima e prendeu parte do grupo.
Ao Diário Corumbaense, ele contou que havia chegado à cidade mato-grossense na sexta-feira (10), após receber uma proposta de trabalho em uma empresa da região. Ele já havia realizado os exames admissionais e, na terça-feira, sairia apenas para atualizar o cartão de vacinação antes da contratação.
"Estava tudo certo. Só faltava eu ir ao posto atualizar meu cartão de vacina para começar a trabalhar", relatou.
A abordagem
De acordo com a vítima, o sequestro começou quando ele deixava o hotel onde estava hospedado, no bairro Tessele Júnior, para solicitar um carro por aplicativo. "Dois homens me abordaram e perguntaram se eu era de lá. Eu disse que era de Mato Grosso do Sul. Depois perguntaram sobre a camiseta que eu estava usando e pediram para olhar meu celular", contou.
Ele usava uma camiseta com o símbolo Yin e Yang, relacionado à cultura chinesa. Segundo a vítima, os criminosos interpretaram a estampa como um símbolo associado a uma facção rival.
Após verificarem as conversas no aparelho, os criminosos encontraram um grupo de mensagens de Corumbá, onde, teriam identificado que algumas pessoas utilizavam símbolos associados a facções criminosas. "Eles começaram a perguntar se eu fazia parte de facção, se eu trabalhava para alguém. Eu falava que não, que só tinha ido para trabalhar", disse.
Ainda no hotel, os criminosos fizeram uma chamada de vídeo com outras pessoas. Segundo a vítima, havia mais de dez participantes na ligação.
"Eles perguntaram qual seria o meu destino, e alguém respondeu: 'Leva ele para a mata'. Todo mundo concordou."
Inicialmente, o rapaz chegou a ser amarrado dentro do hotel. Como havia câmeras de segurança no local, o grupo decidiu soltá-lo momentaneamente e obrigá-lo a entrar em um carro. "Disseram para eu não correr porque seria pior. Eu entrei no carro e fomos para uma área de mata, perto da ponte entre Lucas do Rio Verde e Sorriso."
Três horas de tortura
No local, a sessão de tortura ocorreu por cerca de três horas. Conforme o relato, outras pessoas foram chegando durante todo o período em que permaneceu sob o poder do grupo. "Começou com umas cinco pessoas, mas saíam uns e chegavam outros. Tinha muito mais gente do que a polícia conseguiu prender."
Durante o chamado "tribunal do crime", ele foi interrogado diversas vezes e agredido para confessar uma ligação inexistente com o Primeiro Comando da Capital (PCC), facção rival do grupo que o mantinha em cativeiro. "Eles falavam que eu era do PCC. Eu dizia que não tinha nada a ver com isso. Aí batiam mais nas minhas pernas para eu confessar." Ele ainda sofreu um golpe de faca na perna direita e foi espancado com pedaços de madeira.
Mesmo após alguns membros do grupo concluírem que ele não tinha qualquer envolvimento com organizações criminosas, a ameaça de morte permaneceu. "Alguns falaram que eu não tinha nada a ver com facção e que era para me soltar. Eles até cortaram a corda que prendia minhas mãos, mas me deixaram ali esperando para decidir o que fariam."
Questionado sobre o momento mais difícil, a vítima disse que chegou a aceitar a possibilidade de morrer. "Passou muita coisa pela minha cabeça. Chegou uma hora em que pensei: 'Vou morrer mesmo aqui'."
Ainda de acordo com ele, um dos integrantes da quadrilha insistia, por telefone, para que a execução fosse realizada imediatamente. "Ele mandava passar a faca no meu pescoço e depois queimar meu corpo."
O resgate
Enquanto os criminosos discutiam o que fariam, equipes da Cavalaria da Polícia Militar, após receberem informações sobre o sequestro, chegaram ao local. "Uns três minutos depois começou o tiroteio. Na hora, nem imaginei que fosse a polícia. Achei que eram outras pessoas chegando."
Durante as buscas, dois adolescentes de 15 anos foram localizados nas imediações da ponte. A Polícia Militar informou que eles atuavam como olheiros da organização criminosa e foram apreendidos. Ao avançarem cerca de 100 metros mata adentro, os policiais foram recebidos a tiros pelos demais integrantes do grupo. Houve confronto e, após a troca de tiros, três suspeitos foram presos durante as diligências.
Os militares encontraram a vítima com um corte profundo na perna direita, ferimentos provocados por espancamento e ao lado dele um galão de gasolina. "Pelo que eu entendi, iam me matar e depois colocar fogo no meu corpo."
Uma equipe do Corpo de Bombeiros foi acionada e encaminhou o rapaz para atendimento médico. Além do ferimento causado pela faca, ele sofreu lesões nas pernas e uma fratura na mão.
O rapaz afirmou que só está vivo graças à rápida intervenção da Polícia Militar. "Se não fosse a polícia, eu não estaria aqui hoje. Só tenho a agradecer pelo que eles fizeram", destacou a este Diário.
Depois do trauma, ele desistiu da oportunidade de trabalho em Lucas do Rio Verde e retornou para Corumbá. "Agora quero ficar perto da minha família. Nunca imaginei passar por uma situação dessas."













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