Campanha petista combina novos formatos para aumentar alcance do presidente com ofensiva contra a estrutura digital do adversário.

Lula amplia guerra digital contra Flávio Bolsonaro e tenta virar jogo das redes
O presidente Lula (PT) posa para uma selfie com apoiadora em agenda no Rio de Janeiro. / Foto: Daniel Ramalho/AFP

A campanha de Lula (PT) mudou o ritmo da atuação nas redes sociais nas últimas semanas. Além de investir em formatos mais próximos do que costuma circular no Instagram, TikTok e YouTube, o grupo passou a atacar diretamente a estratégia digital de Flávio Bolsonaro (PL). A disputa deixou de ser apenas sobre quem consegue mais visualizações e passou a envolver também a estrutura usada para fazer o conteúdo chegar ao público.

No domingo 20, a coligação de Lula acionou o Tribunal Superior Eleitoral para pedir investigação sobre o uso de perfis em publicações conjuntas com a campanha de Flávio. Segundo a ação, a equipe petista identificou 1.826 “collabs” no Instagram envolvendo 492 perfis. A alegação é que parte dessas páginas estaria ampliando conteúdo eleitoral e, em alguns casos, direcionando usuários para produtos ligados à campanha. O caso ainda será analisado pela Justiça Eleitoral – faltam 12 dias para o primeiro turno.

A ofensiva jurídica acontece enquanto o PT tenta ocupar um espaço que, historicamente, tem sido mais favorável ao bolsonarismo. A campanha petista passou a usar vídeos de “react”, nos quais Lula aparece comentando conteúdos produzidos para as redes, além de ampliar as transmissões ao vivo. A aposta é produzir material específico para as plataformas, em vez de apenas adaptar para a internet o conteúdo feito para televisão.

Os primeiros números recentes apresentados pelas equipes de campanha mostram uma mudança nesse cenário. Em levantamento divulgado pelo PT, o perfil de Lula no Instagram registrou 5,7 milhões de interações em uma semana, contra 5 milhões de Flávio. Uma live de Lula também teve alcance superior ao de uma transmissão feita pelo adversário no início de setembro. Os números são de períodos específicos e não significam que o petista tenha ultrapassado Flávio no desempenho acumulado das redes.

Um levantamento da Ativaweb apontou ainda crescimento de 38,24% no engajamento do perfil de Lula entre 7 e 14 de setembro. No mesmo intervalo, o engajamento de Flávio caiu 7,35%, embora a taxa do senador continuasse acima da de Lula, segundo a empresa.

A mudança de linguagem vem acompanhada de uma tentativa de tornar o próprio Lula mais presente no ambiente digital. O presidente resistia a formatos como lives e vídeos gravados em selfie, mas passou a participar das transmissões e deve ampliar a produção de vídeos verticais. A campanha considera especialmente importante alcançar eleitores mais jovens, grupo que consome menos a propaganda eleitoral tradicional.

Nesse ambiente, Flávio continua sendo o principal alvo da comunicação petista. A campanha passou a trabalhar diferentes episódios para estabelecer uma comparação entre os dois candidatos. O caso Daniel Vorcaro é um deles. O PT já explorou o áudio enviado pelo senador ao ex-banqueiro e transformou a cobrança por recursos para o filme Dark Horse em peça de propaganda.

A estratégia, porém, não depende mais apenas de uma denúncia ou de um episódio específico. A campanha passou a combinar ataques políticos, comparação entre os governos de Lula e Jair Bolsonaro e ações na Justiça Eleitoral com uma tentativa de melhorar o desempenho do próprio presidente nas plataformas.

A crise no Supremo Tribunal Federal também entrou nesse cálculo. O PT mudou gradualmente o discurso sobre o caso Master e passou a orientar candidatos aliados a aumentar as cobranças por investigação e a explorar o contraste com Flávio. Nas redes, perfis ligados ao partido recuperaram episódios da gestão Bolsonaro, como a pandemia, as queimadas e a chamada “fila do osso”.