A prova material surgiu em Catia La Mar, onde destroços do armamento foram localizados em um edifício residencial.

Investigação confirma uso de mísseis anti-radar pelos EUA em operação na Venezuela
Montagem das imagens coletadas pelo portal investigativo Bellingcat.

Especialistas indicam que, apesar da modernização do armamento, o risco de desvio em ataques a radares não foi totalmente eliminado.

As suspeitas sobre o disparo do míssil recaem sobre o caça F-35A Lightning II, da Força Aérea dos EUA.

Novas evidências detalham a escala da intervenção aérea dos Estados Unidos na Venezuela. Uma análise conduzida pelo portal investigativo Bellingcat confirmou que radares venezuelanos estavam operacionais e foram alvo de mísseis anti-radiação AGM-88 HARM, fabricados pela Texas Instruments.

A prova material surgiu em Catia La Mar, onde destroços do armamento foram localizados em um edifício residencial. O impacto atingiu o apartamento de Rosa Gonzalez, de 79 anos, que não sobreviveu aos ferimentos. A verificação da Bellingcat baseou-se em registros fotográficos de moradores e reportagens locais, sendo posteriormente ratificada por outras redes de inteligência de fontes abertas (OSINT).

O apartamento de Rosa situa-se a 500 metros de um depósito de defesa antiaérea do Exército Bolivariano. Localizada na região costeira ao norte, a cidade de Catia La Mar é vizinha ao Aeroporto Internacional Simón Bolívar, em Maiquetía, o principal terminal do país e ponto de acesso estratégico à capital, Caracas.

Desde setembro do ano passado, o sistema antiaéreo de médio alcance 9K317E Buk-2ME guarnece o depósito, garantindo a proteção do aeroporto e de uma escola naval próxima. De fabricação russa, o equipamento é capaz de atingir alvos a 30 quilômetros de distância e 82 mil pés de altitude.

O sistema russo funciona de forma modular, integrando veículos de comando e radares de busca a múltiplos lançadores de mísseis. Para enfrentar essa defesa, os EUA utilizam o míssil HARM, um armamento de supressão aérea desenhado para localizar e destruir radares ativos. O projétil é lançado em direção a uma área de ameaça conhecida e, através de sensores passivos, identifica e persegue a emissão de ondas de rádio dos radares inimigos até atingir o alvo.

O episódio guarda semelhanças com um evento da Guerra do Kosovo, em 1999. Na ocasião, um caça da OTAN disparou contra radares iugoslavos em atividade; contudo, ao detectarem a ameaça, os militares locais adotaram o protocolo padrão de desligar os equipamentos. Sem o sinal de radiação para seguir, o míssil perdeu o guiamento e acabou atingindo uma residência, embora o incidente não tenha deixado vítimas.

Especialistas indicam que, apesar da modernização do armamento, o risco de desvio em ataques a radares não foi totalmente eliminado. Caso os sistemas do Exército Bolivariano tenham sido desligados durante a incursão, o míssil teria perdido sua referência eletrônica. A proximidade entre a residência de Rosa Gonzalez e a unidade militar reforça a tese de que o apartamento foi atingido acidentalmente durante essa falha de rastreio.

As suspeitas sobre o disparo do míssil recaem sobre o caça F-35A Lightning II, da Força Aérea dos EUA (USAF), ou o EA-18G Growler, da Marinha Americana. Esta última possibilidade é considerada a mais provável, visto que os Growlers já operavam na região antes da mobilização dos caças furtivos e têm como missão primordial a supressão de defesas aéreas, sendo hoje a principal plataforma para o emprego do AGM-88.

Além da unidade Buk neutralizada em Catia La Mar, outras quatro baterias tiveram sua destruição confirmada: uma no Fuerte Tiuna, onde se encontrava Nicolás Maduro; outra na Base Aérea La Carlota, nas proximidades de uma casa segura em Caracas; uma terceira no Fuerte Guaicaipuro, ao norte da capital; e uma quarta no Porto de La Guaira.

Situado no lado oposto de Catia La Mar em relação ao Aeroporto de Maiquetía, o Porto de La Guaira tornou-se o centro de uma disputa de narrativas. Enquanto o governo venezuelano e o governador regional acusam os EUA de bombardearem um depósito destinado exclusivamente a medicamentos, imagens publicadas pelo próprio governador, Alejandro Terán, contradizem a versão oficial ao registrarem um sistema antiaéreo Buk destruído entre os armazéns onde, supostamente, estariam os insumos médicos.

A confirmação do emprego do míssil HARM refuta a teoria de que os radares venezuelanos estavam desligados no início da ofensiva, mas não exclui a utilização de outros armamentos contra as baterias Buk. Embora os mísseis anti-radiação sejam o recurso mais lógico em missões de supressão e destruição de defesas aéreas (SEAD/DEAD), a guerra moderna utiliza um espectro amplo de neutralização que inclui mísseis de cruzeiro, bombas planadoras e munições de precisão guiadas por GPS ou laser. O arsenal possível abrange ainda bombas convencionais, mísseis ar-terra, foguetes balísticos e até fogo de artilharia.