Medida deve proibir apostas esportivas e cassinos online, enquanto times de futebol negociam crédito com juros menores e renegociação de dívidas.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) deve anunciar nesta sexta-feira (25) uma Medida Provisória (MP) para proibir as bets e os cassinos online no Brasil. O texto está sendo finalizado pelo governo e deve ser apresentado durante um evento em São Paulo, onde o presidente também anunciará outras medidas econômicas.
Antes da oficialização, o governo ainda trabalha para encaminhar as pendências envolvendo os clubes de futebol, que têm nas casas de apostas uma importante fonte de receitas. O Planalto avalia mecanismos para reduzir o impacto financeiro da medida sobre as equipes.
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O debate ocorre em meio a novos dados sobre o impacto das apostas nas finanças dos brasileiros, principalmente entre a população mais vulnerável. Um estudo do Sicredi, divulgado em setembro, apontou que a inadimplência entre associados que fizeram apostas online em 2025 foi 40% maior do que entre aqueles que não apostaram. A pesquisa analisou uma amostra de 1,3 milhão de associados com crédito ativo em julho de 2026.
O levantamento também encontrou uma relação entre a frequência e o valor apostado e o nível de inadimplência: quanto maiores os gastos e mais frequentes as apostas, maior era o índice de pagamentos em atraso. Os resultados ainda são preliminares e estão sendo aprofundados pela instituição.
Outro estudo, realizado pelo Insper em parceria com a Stone e divulgado em setembro, encontrou aumento médio de 20% na proporção de pessoas inadimplentes nos 12 meses seguintes ao início das apostas, em comparação com pessoas que não começaram a apostar. A pesquisa também apontou redução de aproximadamente 16% no limite de crédito disponível para quem passou a fazer apostas, após o controle de outros fatores econômicos.
Os dados não significam que as bets sejam a única causa do endividamento das famílias, mas mostram uma associação entre o hábito de apostar e indicadores de inadimplência e acesso ao crédito. O próprio Banco Central acompanha os efeitos das apostas sobre o sistema financeiro.
O que Lula deve anunciar hoje
A expectativa é de que a MP estabeleça uma proibição ampla das apostas online, incluindo as apostas esportivas e os cassinos virtuais. O chamado “jogo do Tigrinho” está entre os exemplos de modalidades de cassino online que seriam atingidas.
A decisão representa uma mudança em relação ao modelo de regulamentação criado nos últimos anos para o setor. O governo vinha analisando alternativas como restringir os cassinos online e endurecer regras de publicidade, mas passou a trabalhar com a possibilidade de interromper também as apostas esportivas.
A versão final da MP será importante para definir quais modalidades serão atingidas, como ocorrerá a transição e quais regras serão aplicadas às empresas que atualmente operam no país.
Por que os clubes entraram na discussão?
As casas de apostas se tornaram uma fonte importante de dinheiro para o futebol brasileiro, especialmente por meio de patrocínios de camisas, publicidade e outros acordos comerciais.
Dados da Sports Value citados pelo iG mostram o tamanho dessa dependência. Em 2025, os maiores clubes brasileiros movimentaram R$ 3,2 bilhões em receitas de marketing. Desse total, aproximadamente R$ 1,1 bilhão veio de casas de apostas, o equivalente a 34% das receitas de marketing.
Considerando todas as fontes de receita, os clubes movimentaram mais de R$ 15 bilhões no ano, e as bets representaram, em média, cerca de 8% do faturamento total.
Entre os grandes clubes brasileiros que possuem contratos com empresas do setor, São Paulo e Corinthians aparecem entre os mais afetados a uma eventual proibição.
Por isso, uma eventual proibição pode representar perda de contratos e receitas para as equipes. O governo passou a discutir medidas de apoio justamente para reduzir esse impacto.
Quanto os clubes podem perder?
Ainda não existe uma estimativa definitiva sobre quanto cada clube perderia caso as bets sejam efetivamente proibidas.
O especialista em marketing e gestão esportiva Amir Somoggi, sócio-fundador da Sports Value, apontou que o impacto inicial pode ser significativo porque as casas de apostas elevaram os valores pagos pelo mercado de patrocínio esportivo nos últimos anos.
O especialista afirmou ao iG que mercados que reduziram ou proibiram a atuação das empresas do setor registraram perdas financeiras no curto prazo. Contudo, para o Brasil, ele pondera que não é possível simplesmente reproduzir estimativas observadas em outros países.
A saída, segundo Somoggi, seria buscar novos anunciantes para ocupar os espaços deixados pelas empresas de apostas. Ele avalia que os clubes terão de diversificar suas fontes de receita e voltar a atrair marcas de outros segmentos.
Governo prepara ajuda para os times
Uma das possibilidades discutidas é a criação ou ampliação de linhas de crédito com condições mais favoráveis para os clubes.
Outra alternativa envolve as dívidas que as equipes têm com a União e bancos públicos. A ideia em estudo é prorrogar os prazos de pagamento, sem necessariamente perdoar os valores devidos.
O BNDES também pode participar das medidas, com possibilidade de oferecer financiamento para investimentos em infraestrutura esportiva. O desenho final do pacote ainda estava em discussão antes do anúncio.
A proposta de compensação é tratada pelo governo como uma forma de reduzir o impacto financeiro da eventual proibição sobre o futebol.
A MP vai proibir todas as bets?
A tendência indicada pelo governo é de uma proibição abrangente. A apuração da CNN aponta que Lula deve assinar uma MP que alcance tanto as apostas esportivas quanto os cassinos online.
Uma das alternativas anteriormente avaliadas era acabar apenas com os cassinos online, mantendo as apostas esportivas legalizadas e ampliando as restrições de publicidade.
A versão mais ampla, no entanto, passou a ganhar espaço dentro do governo. O texto final será determinante para saber exatamente quais atividades serão proibidas.
O que é uma Medida Provisória
A Medida Provisória é um instrumento que permite ao presidente da República editar uma norma com força de lei em situações previstas pela Constituição.
A MP começa a produzir efeitos após sua publicação, mas precisa ser analisada pelo Congresso Nacional. Deputados e senadores podem aprovar o texto, modificá-lo ou rejeitá-lo.
Por isso, mesmo que Lula assine a medida nesta sexta-feira, o Congresso terá papel importante na definição das regras que permanecerão em vigor.
O que acontece com os contratos dos clubes?
Esse é um dos pontos que deverão ser esclarecidos após a publicação da medida.
Os clubes possuem contratos comerciais com empresas de apostas e, em caso de proibição, será necessário definir como esses acordos serão encerrados e quais serão os efeitos jurídicos sobre contratos já assinados.
O impacto também poderá atingir outras áreas do futebol, como publicidade em uniformes, placas nos estádios, conteúdos digitais e ações de marketing.
Enquanto isso, o governo tenta estruturar medidas financeiras para diminuir o efeito sobre as equipes.
O que acontece depois do anúncio
Caso a MP seja assinada e publicada, ela passará a produzir efeitos conforme as regras estabelecidas no próprio texto. Depois, caberá ao Congresso analisar a medida.
Também será necessário definir como ocorrerá a transição para as empresas que atualmente possuem autorização para atuar no mercado brasileiro e quais serão os prazos para encerramento das atividades, caso a proibição seja mantida.
Para os clubes, o governo deve detalhar as medidas de apoio financeiro anunciadas junto com a proibição. A expectativa é que linhas de crédito e mudanças nos prazos das dívidas ajudem a compensar parte da perda de receitas com patrocínios.













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