Dados do Ministério da Saúde divulgados pela Veja apontam 1.121 óbitos entre 2023 e 2025, contra 951 no triênio comparável da gestão anterior.

“Genocídio”, disse Lula em 2023; três anos depois, mortes Yanomami superam gestão Bolsonaro
Dados do Ministério da Saúde divulgados pela Veja apontam 1.121 óbitos entre 2023 e 2025, contra 951 no triênio comparável da gestão anterior.

Uma das acusações mais graves feitas pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) contra o governo de Jair Bolsonaro voltou ao centro do debate político nesta sexta-feira (21).

Dados do Ministério da Saúde enviados ao Congresso Nacional e publicados pela revista Veja mostram que 1.121 indígenas morreram no território Yanomami entre 2023 e 2025, já durante o terceiro mandato de Lula.

Segundo a publicação, no período comparável do governo Jair Bolsonaro foram registrados 951 óbitos.

Os números colocam sob pressão justamente o governo que, ao assumir o Palácio do Planalto em janeiro de 2023, transformou a crise Yanomami em uma das principais acusações contra a administração anterior.

E o próprio Lula foi além da crítica política.

Chamou o que encontrou em Roraima de “genocídio”.

“Um crime premeditado”

Em 22 de janeiro de 2023, apenas três semanas depois de voltar à Presidência da República, Lula publicou uma mensagem em suas redes sociais após visitar Roraima.

O presidente escreveu:

“Mais que uma crise humanitária, o que vi em Roraima foi um genocídio. Um crime premeditado contra os Yanomami, cometido por um governo insensível ao sofrimento do povo brasileiro.”

A postagem alcançou grande repercussão nacional e ajudou a estabelecer a narrativa política adotada pelo novo governo sobre a situação dos Yanomami.

Bolsonaro passou a enfrentar duras acusações de integrantes do governo, artistas, influenciadores, ambientalistas, organizações não governamentais e setores da imprensa.

A tragédia indígena tornou-se um dos principais símbolos utilizados para atacar a política ambiental e indigenista da administração anterior.

Três anos depois, porém, os próprios números oficiais divulgados pela Veja colocam o governo Lula diante de uma pergunta inevitável:

se o número de mortes era prova da gravidade da atuação do governo anterior, como deve ser classificado o fato de que os óbitos aumentaram na atual gestão?

Governo Lula registra 1.121 mortes

De acordo com a reportagem da Veja, os dados foram produzidos pelo Ministério da Saúde e encaminhados ao Congresso Nacional.

Entre 2023 e 2025, foram contabilizadas 1.121 mortes de indígenas na Terra Yanomami.

No período equivalente da administração Bolsonaro, foram 951.

A crise, segundo a publicação, continua sendo provocada por uma combinação de doenças, vulnerabilidade social e avanço de atividades criminosas dentro do território.

Ou seja, apesar das medidas anunciadas desde o início do atual governo, o drama que Lula classificou como “genocídio” não desapareceu.

Pelo contrário.

Considerado o número de mortes apresentado pelo Ministério da Saúde, a tragédia permanece em patamar ainda mais elevado.

Ministério exclusivo não impediu agravamento

Há outro ponto que torna o cenário ainda mais incômodo para o governo.

Lula criou, já no início de seu terceiro mandato, uma estrutura inédita na Esplanada dos Ministérios exclusivamente dedicada à política indígena.

O Ministério dos Povos Indígenas foi criado em janeiro de 2023 e entregue à ministra Sonia Guajajara.

A pasta nasceu com o discurso de que os povos indígenas deixariam de ser tratados como assunto secundário pelo governo federal.

Foi uma das principais bandeiras simbólicas da nova administração.

Ainda assim, os números apresentados pelo próprio Ministério da Saúde mostram que a existência de uma pasta exclusiva não foi suficiente para impedir a continuidade da tragédia no território Yanomami.

Esse dado precisa fazer parte do debate.

Criar ministério, aumentar estrutura administrativa e colocar ativistas ligados à causa dentro do governo não pode ser apresentado como resultado por si só.

A política pública precisa ser medida também pelo que acontece na ponta.

E, nesse caso, a ponta são vidas.

Onde estão as mesmas cobranças?

A divulgação dos números também reabre outro debate.

Durante o governo Bolsonaro, a situação dos Yanomami provocou forte mobilização política, cultural e midiática.

Artistas, influenciadores, ambientalistas e personalidades públicas cobraram ações do governo e muitos chegaram a responsabilizar diretamente Bolsonaro pela tragédia.

É legítimo que tenham feito isso.

O problema aparece quando o mesmo critério deixa de ser utilizado diante de números ainda piores.

Se a quantidade de mortes era motivo suficiente para cobranças duríssimas contra o governo anterior, a mesma cobrança precisa existir agora.

Não se trata de diminuir a responsabilidade de Bolsonaro pelo que ocorreu durante sua administração.

Trata-se de impedir que vidas indígenas sejam utilizadas como instrumento político conforme o ocupante do Palácio do Planalto.

A morte de um Yanomami não pode ter peso diferente dependendo de quem governa Brasília.

STF entra em campo

A situação chegou a um ponto que, segundo a Veja, passou a mobilizar inclusive o Supremo Tribunal Federal.

O presidente do STF, ministro Edson Fachin, teria procurado a senadora Damares Alves, presidente da Comissão de Direitos Humanos do Senado, para articular uma missão conjunta ao território Yanomami.

A intenção seria acompanhar diretamente a situação humanitária na região.

O movimento mostra que, apesar do discurso oficial de recuperação do território e das operações realizadas desde 2023, o problema permanece grave o suficiente para mobilizar instituições de diferentes Poderes.

O peso das próprias palavras

Para Lula, existe ainda um componente político impossível de ignorar.

Foi o próprio presidente quem elevou o tom em 2023.

Não falou apenas em abandono.

Não falou somente em negligência.

Falou em “genocídio” e em “crime premeditado”.

Palavras dessa gravidade estabelecem uma régua igualmente elevada para quem as utiliza.

Agora, diante de dados indicando mais mortes durante seu próprio governo, Lula e sua administração precisam explicar por que a estrutura criada para enfrentar a crise ainda não conseguiu produzir a redução esperada dos óbitos.

Mais importante do que a disputa política entre Lula e Bolsonaro está a realidade dos indígenas que continuam morrendo.

Mas é justamente por isso que a cobrança precisa seguir a mesma regra.

Se 951 mortes provocaram indignação nacional, 1.121 não podem produzir silêncio apenas porque mudou o presidente da República.