Indústrias apresentaram ao governo sugestões de medidas para amenizar impacto com decisão dos chineses.
Os frigoríficos exportadores de carne bovina apresentaram ao governo federal sugestões de medidas para minimizar os impactos na cadeia pecuária brasileira, do pecuarista à indústria, dados como certos diante da aplicação de salvaguardas pela China.
Os pedidos incluem linhas de crédito, aberturas de novos mercados e a negociação com os chineses para detalhar o cumprimento das cotas e garantir constância no fluxo comercial com o principal cliente do setor nos próximos três anos sem sobressaltos no mercado.
Na avaliação das indústrias, a divisão da cota de 1,1 milhão de toneladas em 2026, cerca de 35% a menos do que o consolidado do ano passado, precisa ser regulada pelo governo e acompanhada oficialmente para evitar uma “corrida” desordenada nas exportações e a ocorrência de “vales” nos preços do boi no Brasil e dos cortes bovinos no mercado externo.
A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) buscou o reforço do vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, para destravar as negociações com a China. Uma reunião bilateral dele com o vice-presidente chinês será agendada para o início da próxima semana para encaminhar soluções. Os frigoríficos esperam que as soluções sejam definidas e anunciadas até o fim da próxima semana.
“A decisão sobre a distribuição da cota depende 100% do governo. Não é praxe do setor fazer nenhum tipo de arranjo privado para isso por questões concorrenciais”, afirmou o presidente da Abiec, Roberto Perosa. Segundo ele, a regulação governamental do tema é necessária, via norma para controle de volume de exportações, e precisa ser equilibrada.
“Todo mundo considera que tem que ser algo equilibrado e decidido pelo governo, pois todos vão cumprir. O que o governo decidir nós vamos fazer. Estamos convictos de que tem que ser decisão governamental”, salientou.
Ainda está em estudo a forma de distribuição da cota para garantir participação de mercado a todos os exportadores. O pedido é por uma resolução rápida para garantir previsibilidade às empresas e evitar sobressaltos de preços no mercado. “O diálogo é constante com o governo para que o setor não se auto destrua”, disse Perosa. No pior cenário, a falta de estabilidade poderia quebrar empresas e reduzir a produção nacional, avaliou.
“Não podemos ter corrida para cumprir a cota e depois uma paralisia, porque tem a tarifa de 55%. Senão o preço do boi sobe no mercado interno e o preço pago pela China cai, porque todo mundo quer cumprir a cota; e depois, sem a cota, o preço da arroba despenca no Brasil, gera instabilidade, e desestimula produção de carne, e aí pode ser que falte carne”, disse Perosa.
A Abiec sugeriu ao governo a criação de linhas de crédito para a cadeia pecuária, desde pecuaristas até indústrias, para enfrentar os impactos da possível redução de rentabilidade com a queda projetada nas vendas para a China, como foi feito pelo Executivo no tarifaço americano.
“Exportamos quase US$ 9 bilhões para a China em 2025 e vamos ter redução de 35%, cerca de US$ 3 bilhões. Não temos outro lugar para vender tanto”, disse Perosa ao projetar os efeitos da salvaguarda chinesa. Ele avaliou que o episódio do tarifaço americano deixou ensinamentos ao setor, que precisam ser aplicados agora, mas em proporção maior.
“O tarifaço nos ensinou a ter calma e resiliência, e isso precisa ser replicado agora mais do que nunca. Antes falávamos de 10% da exportação do setor e agora são 50%. Essa é a diferenciação que precisamos ter, sabedores do momento que estamos passando”, destacou.
Outros mercados
Perosa vê espaço para incrementar as vendas para os Estados Unidos e aguarda avanços para aberturas dos mercados do Japão, Turquia e Coreia do Sul. “A ida do presidente Lula para a Coreia do Sul neste ano é um grande gatilho para impulsionar a abertura lá, onde o processo está travado”, completou. A Abiec também pede para que o escopo da auditoria do Japão, marcada para março no Brasil, seja ampliado e não contemple apenas os três Estados da região Sul.
A imposição das salvaguardas e as dificuldades de rentabilidade da cadeia pecuária, no entanto, não devem afetar o ritmo dos embarques em 2026. Após um período de crescimento nas exportações até o pico “inimaginável” de 3,5 milhões de toneladas em 2025, a Abiec mantém a previsão de estabilidade nos negócios neste ano.
“Tivemos um crescimento exponencial do setor. Tudo isso está muito positivo e não podemos deixar desmoronar. Por isso precisamos de um entendimento setorial com apoio e decisão do governo”, citou o executivo. “Não muda a perspectiva de estabilidade para o ano. Estamos avaliando o acordo entre Mercosul e União Europeia. Vai demorar um pouco para entrar em vigor, mas tem potencial para aumentar as vendas para os europeus. Se vierem novos mercados, tudo vai nos levar ao final para uma estabilidade”, ponderou.
Ele vê possibilidades, inclusive, de importações da China fora da cota. Isso porque o direcionamento de cargas brasileiras para outros países pode ser ruim para os chineses, que manterão apetite e consumo nos patamares observados em 2025, observou Perosa, e a carne brasileira continuará como a mais competitiva do mercado.
“Pode haver direcionamento para outros destinos, o que pode ser ruim para a China. A cota está abaixo do consumo, que vai se manter estável. Eles vão ter que acabar comprando um pouco fora da cota no fim do ano”, opinou.











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