O empresário Ueverton da Silva Macedo, o Frescura, usou telefone celular e comandou os negócios, inclusive, de ocultação de patrimônio, e driblou os bloqueios de contas bancárias e bens determinados pela Justiça de dentro da cadeia.

Frescura comandou negócios e driblou bloqueio de contas pela Justiça de dentro do presídio
Frescura comandou ocultação de patrimônio e movimentações financeiras de dentro da cadeia, diz MPE. / Foto: Arquivo/Marcos Maluf/Campo Grande News

Ele comprou e vendeu bens no período em que ficou preso pela 3ª vez, entre 25 de outubro de 2024 e 26 de setembro do ano passado.

“A conduta mais grave, contudo, foi a utilização do dispositivo para organizar uma rede de apoio composta por pessoas de sua confiança. Essa rede tinha o objetivo de realizar movimentação de valores para ocultar a real origem e propriedade do patrimônio, visando burlar medida judicial de bloqueio de bens”, apontou relatório elaborado pelo GECOC (Grupo Especial de Combate à Corrupção).

Conforme o Ministério Público Estadual, ele pagava aos policiais penais para manter o celular dentro da cela. Em uma semana, a mulher, Juliana Paiva da Silva, entregou R$ 1.250 em espécie para pagar pelo uso do telefone na cela.

“Importa destacar, mais uma vez, que Ueverton encontrava-se preso preventivamente entre 25/10/2024 e 26/09/2025, circunstância que reforça a gravidade dos fatos analisados, uma vez que, mesmo durante o período de custódia cautelar, continuou a manter intenso fluxo de comunicação com o meio externo, coordenando negócios, movimentações financeiras e decisões patrimoniais por intermédio de sua companheira, Juliana Paula da Silva”, apontou o relatório.

A linha telefônica estava em nome do filho do casal, mas o MPE usou fotos e frases do empresário para comprovar que ele era o responsável pelo uso da linha telefônica. “A título exemplificativo, destaca-se a conversa de 26/04/2025, em que ‘Frescura’, ao interagir com Juliana, expressamente a orienta como agir frente a determinada situação: ‘Daí vc fala’ ‘Sou a esposa do Ueverton’, ‘Q tá com o Thiego’, ‘Fica com Deus’, ‘Amanhã falamos’”, relatou.

“Conforme evidenciado, o acesso ilícito ao aparelho celular funcionou como verdadeiro prolongamento da presença física de Ueverton da Silva Macedo fora do presídio, preservando sua posição hierárquica perante subordinados e confirmando sua atuação ativa na administração de recursos e no suporte à família mesmo em condição de reclusão”, concluiu o MPE.

Rede de apoio
A quebra do sigilo telemático mostrou que Frescura conversava com a esposa e com a rede de apoio, que era formada por Gedielson Cabral Nobre, Everton de Souza Luscero, o Pirulito, e a engenheira civil Flaviana Barbosa de Souza.

“A afirmação se respalda em diálogos entre Juliana Paula da Silva e Gedielson Cabral Nobre (funcionário de Ueverton). Em suma, no dia 02/01/2025, ao tratar sobre assuntos relacionados ao repasse de valores que deveriam ser feitos por Gedielson, Juliana afirmou que havia conversado com seu esposo Ueverton Macedo, referido na conversa como ‘o bença’, e que ele teria orientado a evitar remeter valores a determinada conta bancária em decorrência da possibilidade dela ser relacionada em medida judicial de bloqueio de bens. Ainda, ao final, Juliana enfatizou: ‘Dai nem vou colocar nada, fiquei com medo daí’”, apontou o GECOC.

De acordo com a investigação, Flaviana abriu uma conta bancária e deu o cartão para ser movimentado por Juliana. No entanto, ela mantinha o controle e informava constantemente a esposa de Frescura sobre os valores recebidos e o saldo da conta.

“Em 26/12/2024, durante diálogo por meio de aplicativo de mensagens, Flaviana disponibilizou sua conta bancária pessoal para que Juliana recebesse valores. Flaviana não só se ofereceu para fornecer um cartão vinculado à conta, como esclareceu que essa seria uma solução temporária. Conforme previamente acordado entre eles, Flaviana criaria uma conta em nome de uma empresa (não identificada) para a qual as movimentações financeiras de Juliana seriam, subsequentemente, transferidas”, diz o relatório.

Gedielson efetuava depósitos, saques e pagava boletos e despesas da família de Frescura, como a escola das crianças. “Em 02/01/2025, Juliana enviou uma mensagem de áudio a Gedielson. No áudio, ela tratou do pagamento de contas da casa e da necessidade de orçamento para serviços de manutenção, mencionando explicitamente que se tratava de uma providência solicitada por Ueverton”, apontou.

A prisão de Frescura foi decretada pela juíza May Melke Amaral Penteado Siravegna, do Núcleo de Garantias. Ele foi preso na Operação Camuflagem, deflagrada na última quinta-feira (26). Condenado a 41 anos por corrupção e obstrução de investigação de organização criminosa, ele foi preso pela 4ª vez.