Na terça-feira 22, durante a abertura da Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas, uma delegação se recusou a aplaudir o discurso do presidente Lula, a dos Estados Unidos.
Os representantes norte-americanos se mantiveram imóveis ao fim da explanação do petista, que aproveitou a oportunidade para, sem citar diretamente os “adversários”, criticar as incursões da Casa Branca na América Latina e a tentativa de ingerência nas eleições brasileiras. Na diplomacia, nada é por acaso e o silêncio tinha um motivo. Os norte-americanos haviam tomado a decisão de não emitir sinais positivos em relação a Lula, sob o argumento de que qualquer gesto poderia beneficiar o candidato à reeleição às vésperas do primeiro turno. A resposta veio na mesma moeda. A comitiva brasileira se eximiu de aplaudir o discurso, em tintas megalomaníacas e imperiais, de Donald Trump.
A frieza entre os dois governos desta feita contrasta com o tom amigável do encontro entre o brasileiro e o norte-americano na assembleia-geral do ano passado. Àquela altura, Washington havia anunciado as primeiras sanções a produtos nacionais, a tensão estava no ar, mas o “esbarrão” negociado nos bastidores do evento levaria Trump a elogiar Lula no púlpito das Nações Unidas e citar uma “química” entre os dois. Agora, se restou algum produto químico no ar, foi nitroglicerina. A hostilidade ficou evidente durante a reunião das Nações Unidas. Embora Lula tenha tentado repetir o encontro “casual” com o republicano nos corredores, os caminhos não se cruzaram. Havia tempo. O intervalo de quatro minutos entre o discurso inaugural de Lula e a intervenção sequencial de Trump era mais do que suficiente, mas diplomatas do Itamaraty avaliam que o presidente dos EUA evitou circular pelo local para não trombar com o colega brasileiro.
Os “desencontros” continuaram. Um vídeo produzido pela jornalista Clarissa Carvalhaes, que acompanhou a assembleia-geral por CartaCapital, capturou o exato momento em que o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, tentou, sem sucesso, cumprimentar o presidente Lula. Não é possível inferir se o brasileiro, naquele momento, cercado por representantes de diversos países, não viu a aproximação de Rubio ou se decidiu ignorar a abordagem do auxiliar de Trump, responsável por colocar em prática a ingerência da Casa Branca no “quintal”. Oficialmente, o Itamaraty garante que não houve qualquer intenção de esnobar Rubio.
O norte-americano evitou “esbarrar” no brasileiro nos bastidores. O petista parece ter ignorado a tentativa de aproximação de Marco Rubio
Os descaminhos foram apenas um espelho de um confronto maior de ideias e proposições. Lula chegou aos Estados Unidos no domingo 20 e, provavelmente informado da falta de disposição de Trump de encontrá-lo, aproveitou a estada para se reunir com representantes do Partido Democrata. Trocou camisas de futebol com o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, para quem o brasileiro “é uma grande inspiração” e conversou com o veterano Bernie Sanders. Uma ONG de defesa da democracia projetou pela cidade uma imagem na qual Flávio Bolsonaro coloca a faixa de presidente do Brasil em Trump, uma crítica à interferência de Washington no processo eleitoral brasileiro. Na abertura da Assembleia-Geral da ONU, o petista e o republicano, ambos em campanha eleitoral, abandonaram as meias-palavras e delinearam seus objetivos, linhas vermelhas e limites. E demonstraram como estão em lados opostos de uma guerra. O brasileiro, como é a tradição desde a fundação da ONU, foi o primeiro a usar o microfone. O recado foi tão explícito quanto assertivo. Ainda que não tenha citado o nome de Trump e se referido aos Estados Unidos como “a maior potência militar do planeta”, todos na sala entenderam para quem se dirigia a mensagem. “O Brasil não cabe no quintal de ninguém”, afirmou Lula, uma citação ao título de um livro do economista Paulo Nogueira Batista Jr., colunista desta revista, ex-diretor do Fundo Monetário Internacional e ex-vice-presidente do Banco dos BRICS. Na sequência, alertou para os riscos de interferência externa no processo eleitoral brasileiro. “No dia 4, milhões de brasileiras e brasileiros vão às urnas. Vão decidir entre democracia e negacionismo”, disparou. O Brasil, acrescentou, terá uma eleição “transparente e competitiva”, “um pleito no qual os candidatos desfrutam da mais ampla liberdade de expressão”. E fez uma referência indireta às ligações entre o bolsonarismo e o trumpismo. “Sabemos que alguns abusam dessa liberdade para se associar a interesses estrangeiros contrários ao País”. Mais: “Sob o olhar atento de uma cidadania plural e de uma imprensa livre, não permitiremos que os inimigos da democracia, internos e externos, atentem contra a vontade popular (…) A democracia brasileira pertence aos brasileiros”.
Mais claro impossível. Desde 2025, Brasília tem alertado a respeito dos ataques de Washington para minar a estabilidade política interna e abrir caminho para a vitória de Flávio Bolsonaro, que tem prometido mundos e fundos à Casa Branca, da participação no processo de transição a acordos para a exploração de terras-raras.
A ofensiva ocorreu na forma de tarifas, sanções e críticas públicas ao Judiciário, em especial a um ministro do Supremo Tribunal Federal. Ciente da ambição norte-americana na região, Lula usou ainda o tempo na assembleia-geral para lembrar o mundo das “tentações hegemônicas” que ameaçam a soberania dos países da América Latina. “A democracia está novamente em xeque. Voltamos a presenciar a ingerência externa em processos eleitorais. A divisão do mundo em zonas de influência e as investidas neocoloniais por recursos estratégicos constituem gestos anacrônicos.”
O discurso foi, de fato, permeado por uma tentativa de responder às ofensivas norte-americanas em diversos setores. O brasileiro criticou a “chantagem” feita por Trump por meio das barreiras comerciais. “Quando os governos capitulam frente aos que usam tarifas como armas de coerção e chantagem, as consequências são nefastas.” E mandou um recado sobre a exploração de minerais críticos no Brasil, caso vença as eleições. “Nossas riquezas naturais pertencem ao povo brasileiro – e é em benefício dele que serão exploradas.” O presidente teve tempo ainda de mencionar a regulamentação das big techs e da Inteligência Artificial, um dos temas de maior interesse do republicano. “Seria uma omissão histórica imperdoável não enfrentar o desafio da regulamentação das big techs e da Inteligência Artificial. Um punhado de tecno-oligarcas quer ressuscitar uma versão de neoliberalismo digital, sem regras nem transparência.” Em outro recado a Trump, defendeu o sistema de pagamento instantâneo alvo de empresas dos EUA: “Não vamos ceder às pressões de multinacionais que querem privatizar o nosso Pix, uma infraestrutura pública e gratuita que fez da inclusão financeira uma realidade para milhões de brasileiros”.
Além das ameaças à eleição brasileira, o petista citou, em Nova York, a cobiça norte-americana pela América Latina num momento crucial. No início do mês, Rubio esteve no Equador, Colômbia e Peru para demarcar o controle dos Estados Unidos sobre os respectivos governos, todos de extrema-direita. Não demorou para que operações militares “conjuntas” fossem anunciadas com esses novos parceiros. Não só. No fim da terça-feira 22, quando Lula se preparava para retornar ao Brasil, o grupo chamado “Escudo das Américas”, formado pelos EUA e outras 13 nações latino-americanas que aceitaram se submeter às ordens da Casa Branca, decidiu classificar o PCC e o Comando Vermelho como “organizações terroristas”, o que estende o raio de ação militar do Pentágono para bem perto das fronteiras brasileiras.
“Não permitiremos que os inimigos da democracia, internos e externos, atentem contra a vontade popular”, discursou o presidente Lula
Enquanto Lula expôs suas convicções e traduziu o conceito de soberania para setores concretos de um projeto de desenvolvimento regional, Trump desembarcou no púlpito da ONU disposto não apenas a defender sua estratégia de política externa, mas a chantagear países que não queiram cooperar com o plano de controle do Ocidente. De acordo com o republicano, os Estados Unidos não aceitarão “ameaças” em “nosso hemisfério” e alertou que, se necessário, recorrerá à força. Trump acusou os governos democratas nos EUA de terem, ao longo dos anos, permitido que cartéis dominassem regiões do continente e insistiu que “adversários doentes e dementes” se valeram da situação para se posicionar. “Não mais. Agora, vamos mostrar nosso poder militar.”
O presidente dos EUA qualificou o crime organizado do continente como o “Estado Islâmico do Ocidente”, prometeu tratá-los como terroristas, fez ameaças ao México e tentou justificar os ataques a barcos nas costas dos países latino-americanos. A ação, afirmou sem comprovação, teria levado a uma redução de 97% no transporte dos produtos. O republicano, como de costume, reservou um tempo para falar de Cuba. O regime “vai cair”, sentenciou. No intuito de justificar a ofensiva no “quintal” sem melindrar os eleitores latinos, que serão decisivos nas eleições ao Congresso em novembro – Trump vive seu pior momento e a reprovação ao governo chega a 68%, mais baixo índice de sua carreira política –, o ocupante da Casa Branca afirmou que seu objetivo é vencer o “socialismo”. Para tanto, vinculou Cuba a grupos nos EUA e insistiu que “o comunismo” nunca vai entrar em território norte-americano, argumento que convence parte da população. A prova, segundo ele, de que a América Latina deveria levar suas ameaças a sério foi o destino de Nicolás Maduro e da Venezuela. Um dos aspectos de seu discurso ressaltado por diplomatas estrangeiros foi a comemoração do sequestro do presidente venezuelano, tratado como exemplo do que pode ser feito para defender os interesses norte-americanos na região. “Prendemos o criminoso Nicolás Maduro e, desde então, centenas de presos políticos venezuelanos foram liberados. E fechamos o maior acordo de petróleo da história. Ao vencedor, os tributos.” O acordo prevê o controle do petróleo venezuelano por parte dos EUA durante cem anos. Lula, a um dia da Assembleia-Geral da ONU, havia afirmado que a soberania da Venezuela tinha “acabado”. Adendo: o norte-americano encontrou tempo para tirar uma foto com Delcy Rodríguez, a bolivariana que sucumbiu à pressão de Washington e divide o poder do país com a Casa Branca.
A operação norte-americana para demonstrar seu avanço pela América Latina não se limitou aos discursos. No convescote do Escudo das Américas, Trump prometeu apoio logístico e bélico.
“Vamos ajudar vocês”, garantiu aos demais participantes. “Estamos em guerra contra os cartéis e agora vocês estão apoiados por nós.” Entre ironia e estratégia militar, o presidente dos EUA sugeriu que, caso os aliados solicitassem, o Pentágono poderia atuar no território alheio para combater o crime. “Faremos isso por vocês.” A fatura foi, porém, apresentada na sequência. Em um certo momento da reunião, o republicano passou a elogiar a abundância de recursos naturais da América Latina. “Não deixem que recursos naturais sejam levados por outros atores”, sugeriu aos demais mandatários na sala. E sentenciou a frase que, na história da região, sempre foi sinônimo de controle norte-americano e intervenção: “Os recursos das Américas devem pertencem aos povos das Américas”. Sem qualquer constrangimento, comemorou o fato de que, sempre que entra numa corrida eleitoral na região, seu candidato vence. “Todo mundo que apoiei ganhou”, disse, antes de citar nove exemplos.
Após a reunião da ONU, os EUA e os países latino-americanos integrantes do Escudo das Américas anunciaram a classificação conjunta do PCC e do CV como “organizações terroristas”.
O governo brasileiro considera “muito grave” a decisão de Trump de impor à região a classificação de terrorismo para o PCC e o CV. O maior temor em Brasília é, porém, que a manobra seja um prenúncio da transformação da aliança, originalmente criada para combater o crime organizado, em uma base para defender os interesses de segurança nacional dos EUA na América Latina. A decisão é vista como um sinal de que Washington planeja a crescente militarização do subcontinente. O documento sobre cartéis dá a entender que o foco no narcotráfico seria o primeiro passo. O texto cita a necessidade de defender o abastecimento de minerais críticos, menciona o comércio e questões de “democracia”. Seria, na visão de Brasília, um movimento para justificar, no futuro, o enquadramento de qualquer investimento que contrarie a Casa Branca, em especial vindos da China, como uma ameaça à segurança dos Estados Unidos.
No petit comité não havia desencontros. Como alunos comportados de uma classe primária que aplaudiam as intervenções do diretor da escola, os presidentes latino-americanos pediam a palavra e se apresentavam. “Eu sou do Peru”, afirmou Keiko Fujimori, a nova mandatária do país, ao ser autorizada a falar. “Sou o vice-presidente da Colômbia”, disse José Manuel Restrepo, visivelmente eufórico em se fazer notar ao norte-americano. Estavam todos ali, entusiasmados com a nova era de relação entre a América Latina e os EUA. Mas todos também sabiam que o escudo continuará permeável, incompleto e furado enquanto não contar com o Brasil como integrante da aliança.
Tanto Lula quanto Flávio Bolsonaro e Trump também sabem.













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