Estudantes de baixa renda podem perder acesso a cotas e benefícios ao aceitar vagas na rede privada.

Entre a bolsa e as cotas, estudantes pobres enfrentam escolha difícil
Alunos de escola estadual de tempo integral interagem no pátio, na hora do intervalo. / Foto: Marcos Maluf/Arquivo.

Com as cotas e outras políticas que facilitam o acesso às universidades, as bolsas em escolas particulares deixaram de ser a única porta para estudantes de baixa renda chegarem ao ensino superior, e passaram a ser mais uma entre as opções.

Com a ampliação das cotas e de outras políticas de acesso ao ensino superior, bolsistas de escolas particulares enfrentam um dilema, pois o histórico na rede privada pode excluí-los de benefícios como as cotas raciais federais e o Pé-de-Meia Ensino Médio. O professor da UFMS Fabiano Antônio dos Santos defende a revisão dos critérios, já que essas famílias continuam vulneráveis. Diretores de escolas privadas de Campo Grande afirmam acolher os bolsistas e valorizar a diversidade.
O problema é ter que escolher, já que o histórico de bolsista no Ensino Médio pode anular o acesso a outras alternativas como as próprias cotas, o programa Pé-de-Meia e o acesso a cursinhos pré-vestibulares gratuitos. Doutor em Educação e professor da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul) Fabiano Antônio dos Santos defende a revisão dos critérios para dar fim a essa exclusão.

“Colocar todo mundo no mesmo cesto me parece um equívoco. É importante revisar porque esses estudantes continuam se enquadrando no mais importante das políticas, que é não ter condições de arcar com o ensino privado e ter uma renda baixa. Mesmo bolsistas, eles continuam fazendo parte de família com situação socioeconômica vulnerável”, defende.

A política federal de cotas raciais para negros e indígenas é restrita àqueles que cursaram todo o Ensino Médio em escolas públicas e é seguida no Estado pela UFMS, pela UFGD (Universidade Federal da Grande Dourados) e pelo IFMS (Instituto Federal de Mato Grosso do Sul) na seleção para os cursos de graduação.

Da mesma forma, são restritos a matriculados na escola pública programas como o Pé-de-Meia Ensino Médio, que paga bolsa mensal e deposita até R$ 9,2 mil numa poupança aberta para o estudante.

As cotas no vestibular da UEMS (Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul), o Prouni (Programa Universidade para Todos), o Fies (Fundo de Financiamento Estudantil), o cursinho para Enem e pré-vestibular da UFMS, além de auxílios como o MS Supera e o Pé-de-Meia Licenciatura, por outro lado, não diferenciam o passado escolar do beneficiário e garantem um acesso mais amplo.

Diversidade e exclusão - Flávia Kelly Diniz é assistente social no Instituto Luther King, que há mais de 20 anos oferece preparação gratuita para jovens das classes C, D e E terem mais chances em vestibulares e no Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), em Campo Grande. Ele aceita candidatos com matrícula ou histórico escolar em instituição privada, desde que passem na análise socioeconômica.

A assistente social observa que, além de limitar as oportunidades de ingresso no Ensino Superior, a bolsa em escola da rede privada pode implicar dificuldades relacionadas ao meio onde ele vai conviver, já que a maioria dos colegas pertence a outras classes sociais.

“O bolsista troca as garantias que a lei dá lá na frente pela promessa de uma estrutura melhor, mas nem sempre essa troca compensa. Além da perda de direitos, há uma perda do convívio com a diversidade social, a sociocultural, que é uma riqueza da escola pública”, cita Flávia.

O professor Fabiano dos Santos lembra que as escolas podem espelhar a desigualdade social e argumenta que as escolas privadas precisam oferecer suporte para os bolsistas não serem discriminados e se sentirem excluídos em seus ambientes.

“Precisam de estratégias como isenção de material escolar, isenção de taxas e alimentação gratuita para permanecerem na escola o dia todo”, ele começa. “As escolas têm que ter o cuidado para que a inclusão na rede privada não se torne um processo excludente lá na frente”, conclui.

Ensino Médio - O professor Fabiano reconhece que o ensino particular no Brasil segue mais estruturado e tem recursos mais avançados em relação ao ensino público quando se fala nos níveis Fundamental e Médio. Ele destaca que os governos precisam investir mais principalmente no Ensino Médio público, para reduzir as diferenças e ampliar ainda mais as chances de segurar um diploma nas mãos e mudar a realidade por meio da educação.

“O Ensino Médio é um gargalo muito importante que nós ainda temos na educação básica brasileira. Estudantes não conseguem permanecer devido à necessidade de trabalhar. Hoje temos políticas que buscam fortalecer a permanência no ensino básico, no ensino superior, mas elas ainda não são suficientes. Nós precisamos ampliá-las, nós precisamos aprimorá-las”, ele diz.

Enquanto isso não ocorre, segundo o professor, as escolas particulares que escolhem bolsistas por desempenho acabam selecionando os melhores alunos da rede pública. Ao mesmo tempo em que podem transformar suas vidas, podem usar os casos como capital cultural, seja para se destacar em competições esportivas ou para fazer propaganda de aprovados para cursos de graduação concorridos.

Ensino privado na Capital - A reportagem levou o debate aos diretores de duas escolas particulares que oferecem bolsa em Campo Grande: a Funlec (Fundação Lowtons de Educação e Cultura) e o Colégio Nota 10. A primeira tem o Cebas (Certificado de Entidade Beneficente de Assistência Social), por isso, precisa oferecer obrigatoriamente um percentual de bolsas por ano. Já a segunda não se enquadra nesse critério, mas disponibiliza oportunidades aos estudantes por mérito.

Diretor da unidade da Funlec no Bairro Chácara Cachoeira, Hudson Ortiz afirma que a instituição entende que a sociedade é heterogênea e acolhe os alunos bolsistas, dando assistência para que eles não sofram preconceito ou não tenham alguma necessidade não atendida enquanto estiverem na escola.

Ele observa que a inclusão dos bolsistas produz resultados para ele mesmo e para toda a comunidade escolar na escola privada. “Ouvi de uma família que tem boa condição financeira que gosta da nossa escola porque a qualidade é incrível, pelo investimento no esporte, mas principalmente porque ele convive com todas as realidades. Ele não vai viver num mundo fechado”, afirmou.

Higor Tosta, diretor do Colégio Nota 10, avalia que os alunos contemplados por mérito acadêmico têm condições de conquistar vagas de ampla concorrência nas universidades públicas, sem depender das cotas.

“Esse aluno é de alto rendimento, ele tira uma nota alta e pega uma vaga de ampla concorrência, não usa a vaga da cota, o que permite outro estudante usar as políticas de acesso”, sustenta.

Ainda segundo Higor, o perfil admitido geralmente se desafia a fazer várias olimpíadas de conhecimento e não encontra nenhuma dificuldade. “Se ele conseguiu essa bolsa, é porque ele tem muito talento pedagógico, extrema facilidade, alcança super notas”, conclui.

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