Missão internacional marca avanço do setor espacial brasileiro ao integrar estudantes da rede pública em um projeto real de satélites.

Empresa brasiliense lança satélite em parceria com escolas públicas
Foguete que levará ao espaço satélites brasileiros desenvolvidos com participação de estudantes da rede pública do DF. / Foto: Cedido ao Correio

Brasília dá um passo histórico no setor espacial nesta segunda-feira (12/1), com o lançamento de cinco satélites desenvolvidos integralmente no Brasil. A operação será realizada a partir do Centro Espacial Satish Dhawan, na Índia, às 10h17 no horário local (1h18 em Brasília), e simboliza mais do que um avanço tecnológico: representa a entrada definitiva da educação pública brasileira na corrida espacial.

Entre os equipamentos que seguirão para a órbita, um deles foi projetado por estudantes do Ensino Médio da rede pública do Distrito Federal, que participaram de todas as etapas de uma missão espacial real — do desenho da ideia aos testes finais dos sistemas. A iniciativa integra o Desafio Espacial, programa executado pela startup brasiliense Ideia Space, sob coordenação do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT), com apoio institucional da Agência Espacial Brasileira (AEB) e parcerias com universidades federais.

O lançamento consolida a primeira constelação privada brasileira de satélites e se torna o maior envio simultâneo de cargas úteis já feito pelo Brasil. Para Leonardo Souza, CEO da Ideia Space, o momento tem um significado especial. “Esse lançamento tem um gostinho diferente porque é 100% brasileiro. Envolve universidades, estudantes de escola pública, pesquisadores e artistas, todos no desenvolvimento nacional. É motivo de muito orgulho”, afirma.

Leia também: Entregadores respeitados: empresa brasiliense inova em soluções para autônomos
Mais do que colocar equipamentos em órbita, a missão aposta no espaço como ambiente de aprendizagem prática. “Este segundo lançamento não é apenas tecnológico; é profundamente educacional”, destaca Leonardo Júlio, fundador da Ideia Space. Segundo ele, a proposta é conectar escolas, universidades, instituições públicas e tecnologia de ponta em uma única missão real, aproximando jovens de um setor historicamente visto como distante.

Da sala de aula ao foguete
Para os estudantes envolvidos, a experiência transformou a percepção sobre ciência, tecnologia e futuro profissional. Aos 18 anos, Cauã Santos descreve o impacto de perceber que um satélite construído por eles realmente deixaria a Terra. “Quando conseguimos tocar no satélite e testar os sistemas, pensamos: ‘Isso realmente está acontecendo. Nós estamos indo para o espaço’”, relata.

Leia também: Satélite brasileiro será lançado nesta terça em estação da Nasa; assista
Sem formação prévia em programação ou engenharia, Cauã diz que o maior desafio foi a parte técnica, superada com trabalho coletivo. “Aprendi que ninguém precisa saber tudo sozinho. O projeto mostrou que trabalhar em equipe é somar esforços, não competir”, afirma. Para ele, o espaço deixou de ser algo abstrato e passou a fazer parte do cotidiano. “Hoje entendemos o quanto dependemos dele, do GPS à previsão do tempo.”

Aos 19 anos, Pollyana Feitosa Siqueira conta que, no início, a grandiosidade da missão parecia até brincadeira. “Eu estava tão envolvida nas aulas que não dimensionei de imediato. A ficha caiu de verdade no primeiro lançamento”, lembra. Segundo ela, o projeto ajudou a transformar sonhos em possibilidades concretas. “Antes, eu via o espaço como algo distante. Hoje, vejo que somos capazes de estudá-lo e fazer parte desse processo.”

Leia também: Foguete da primeira missão comercial liderada pelo Brasil é lançado; siga
Além do caráter educacional, os satélites terão aplicações práticas em áreas como monitoramento ambiental, segurança marítima e agronegócio, ampliando o retorno social da missão. Para o CEO da Ideia Space, esse ponto é central. “De nada adianta apenas lançar o satélite. A aplicação é o que gera retorno para a sociedade”, ressalta.

Souza destaca ainda que o projeto ajuda a popularizar a ciência e a formar profissionais em áreas estratégicas. “A engenharia brasileira é muito boa, mas ainda precisamos ampliar o acesso. O impacto desses lançamentos pode ser semelhante ao que a Índia viveu ao investir fortemente em ciência e tecnologia”, compara. A expectativa é que a iniciativa contribua para criar uma nova geração de profissionais qualificados em STEM — ciência, tecnologia, engenharia e matemática, na sigla em inglês.

Orgulho público e projeção internacional
Para os alunos, representar a escola pública do DF em uma missão internacional tem peso simbólico. “É quase como ganhar uma Copa do Mundo”, define Cauã. “Mostra que algo antes restrito a países desenvolvidos também pode ser feito aqui.” Pollyana reforça: “É provar que estudantes da rede pública são capazes de chegar longe.”

Leia também: Em parceria com escolas públicas, startup do DF lançará satélites no espaço
Enquanto a contagem regressiva avança na Índia, a ansiedade se mistura ao orgulho em Brasília. Se tudo correr como o previsto, os cinco satélites entrarão em órbita nas próximas horas, levando consigo dados científicos, inovação tecnológica e uma mensagem clara: quando educação pública, ciência e oportunidade se encontram, o Brasil também alcança o espaço.