Arranjo delicado no PL pode fragmentar campo conservador e alterar o jogo majoritário.

Disputa pelo Senado em MS tem recall forte entre 3 e direita tensionada
Reinaldo Azambuja (PL), Nelsinho Trad (PSD) e Capitão Contar. / Foto: Arquivo do Campo Grande News e redes sociais

Se a disputa pelo governo começa a ganhar contornos mais binários, a corrida pelas duas vagas ao Senado segue como o território mais instável da eleição sul-mato-grossense.

A disputa pelas duas vagas ao Senado em Mato Grosso do Sul apresenta cenário instável, com três nomes fortes à direita: o ex-governador Reinaldo Azambuja (PL), o senador Nelsinho Trad (PSD) e Capitão Contar. Cada candidato possui bases eleitorais distintas e significativas no estado.A coordenação da campanha enfrenta desafios estruturais, especialmente no PL, onde a possível candidatura dupla de Azambuja e Contar pode comprometer alianças. A ministra Simone Tebet, que cogitava disputar, deve transferir seu domicílio eleitoral para São Paulo, enquanto outros nomes como Vander Loubet (PT) e Soraya Thronicke também se apresentam como opções.

Nos bastidores da coalizão governista já há incertezas sobre a efetividade da engenharia montada no PL. A operação atribuída ao ex-governador Reinaldo Azambuja — de consolidar o comando partidário e evitar a fragmentação no campo conservador, pode produzir efeito inverso justamente no momento em que o grupo tenta organizar o jogo majoritário.

A disputa é marcada por um recall triplo à direita entre o ex-governador Reinaldo Azambuja (PL), o senador Nelsinho Trad (PSD) e Capitão Contar. Cada um carrega um ativo distinto. Reinaldo construiu base municipalista sólida ao longo de dois mandatos como governador e lidera a frente conservadora que apoia a reeleição de Eduardo Riedel. Nelsinho, que até há pouco lutava para permanecer ao lado dos governistas para garantir o segundo voto ao Senado, mantém densidade eleitoral expressiva em Campo Grande e trânsito consolidado entre prefeitos. Contar preserva o capital simbólico de cerca de 400 mil votos obtidos na última disputa ao governo e representa o segmento bolsonarista mais ideológico.

O problema é estrutural: o Senado é eleição majoritária e exige coordenação fina. No interior do Estado, prefeitos do centro-direita já trabalham, em grande parte, com dois nomes prioritários — Reinaldo e Nelsinho. A eventual presença de Contar como candidatura robusta dentro do próprio PL comprime espaço para alianças e dificulta acomodações. Se o partido lançar dois nomes competitivos, reduz sua margem de negociação; se privilegiar apenas um, corre o risco de tensionar a base bolsonarista mais fiel, dando margem para defecções.

O episódio do “18 x 2”

Nesse ambiente surgiu o episódio do chamado “18 x 2”, após reportagem da Folha de S. Paulo mencionar anotações atribuídas ao senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência. A leitura apressada sugeriu que Contar estaria muito à frente de Reinaldo nas pesquisas. Não é o caso.

Segundo o diretor do NovoIbrape, Paulo Catanante Filho, os números foram interpretados de forma equivocada. O percentual de 18% corresponde ao recall real de Contar em levantamento estimulado. Já o “2%” não se refere a Reinaldo, mas a nomes como Marcos Pollon ou Gianni Nogueira. Trata-se, portanto, de uma disputa interna dentro do campo bolsonarista — não da corrida geral ao Senado.

Catanante ressalta que, na pesquisa ampla, Reinaldo aparece à frente de Contar. O que a anotação revela não é liderança consolidada de um sobre o outro, mas disputa por hegemonia dentro do PL. O debate central é sobre quem deve concentrar estrutura, recursos e prioridade partidária no núcleo mais ideológico da direita. A aliança entre Reinaldo e Contar, cujo potencial se divide entre direita e extrema direita, é sustentada por uma linha tênue que só será efetivamente testada na convenção partidária.

A análise do instituto acrescenta outro elemento relevante: grande parte do eleitorado ainda desconhece que deve votar em dois candidatos ao Senado. Historicamente, o segundo voto costuma ser definido nos dias finais de campanha, produzindo rearranjos inesperados. Em cenários assim, recall e estrutura partidária pesam, mas não garantem previsibilidade.

Risco de fragmentação

A intriga se aprofunda com a possibilidade de uma candidatura majoritária mais ideológica à direita do governador. Na avaliação de integrantes do grupo governista, parte do eleitorado rural mais conservador não demonstra entusiasmo automático pelo ex-governador. Um nome como Marcos Pollon poderia decidir tensionar o ambiente e reorganizar forças.

Se uma candidatura “bolsonarista raiz” alcançar dois dígitos, a fragmentação pode alterar não apenas a disputa ao Senado, mas também o equilíbrio na eleição ao governo. A conta preocupa aliados governistas: se o campo petista parte de um patamar consolidado entre 25% e 30% do eleitorado, como estimam interlocutores, e a direita se divide em duas candidaturas, com algo entre 15% e 20% para a dissidência, o cenário antes considerado resolvível no primeiro turno pode ganhar nova dinâmica.

A estratégia de concentrar o PL sob comando aliado passa a ser vista como uma faca de dois gumes: fortalece o projeto majoritário, mas também pode expor fissuras internas.

Simone fora do Estado e o segundo pelotão

Enquanto a direita administra suas tensões, outra variável se desloca para fora do Estado.

A ministra do Planejamento, Simone Tebet, deve transferir seu domicílio eleitoral para São Paulo e disputar o Senado pelo maior colégio eleitoral do país. Fontes do MDB já ouviram do marido da ministra, o ex-chefe da Casa Civil de Riedel, Eduardo Rocha — pré-candidato a deputado estadual pelo partido — que Simone já descartou a disputa em Mato Grosso do Sul. Ela deve se filiar ao PSB, disputar o Senado e manter posição neutra no Estado para não prejudicar a campanha do marido, que tende a pedir votos para Flávio Bolsonaro.

A movimentação ganhou força após o jantar no Palácio da Alvorada entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ministro da Fazenda, Fernando Haddad. A avaliação política predominante é que Haddad aceitou disputar o governo paulista contra o governador Tarcísio de Freitas, mesmo sob risco elevado. A estratégia nacional de Lula é fortalecer os palanques em São Paulo e Minas Gerais — os dois maiores colégios eleitorais do país — para ampliar a margem na soma geral dos votos.

O quadro que se desenha é o de duas dinâmicas distintas no mesmo Estado. No governo, há um incumbente com narrativa de continuidade e cenário relativamente mais previsível. No Senado, a disputa permanece aberta, ancorada em memória eleitoral, recall, conflitos internos na direita e decisões partidárias ainda em curso.

Há ainda um segundo pelotão que pode influenciar o desfecho: o deputado Vander Loubet (PT), a senadora Soraya Thronicke — que deve se filiar ao PSB e se alinhar a Lula no Estado —, além da vice-prefeita de Dourados, Gianni Nogueira (PL), e do presidente da Assembleia Legislativa, Gerson Claro (PP), como potenciais candidatos.

Se o Executivo começa a ganhar contornos mais definidos, a corrida ao Senado segue como território de incerteza — onde estratégia, coesão ideológica e timing político podem pesar tanto quanto os números das pesquisas.