Levantamentos do Ministério da Saúde mostram aumento no número de fumantes no país

Dia Nacional de Combate ao Fumo alerta para riscos do cigarro; tratamento é gratuito em Campo Grande
Levantamentos do Ministério da Saúde mostram aumento no número de fumantes no país / Foto: Imagem Ilustrativa

O Dia Nacional de Combate ao Fumo, lembrado em 29 de agosto, existe desde 1986 para reforçar que o cigarro não afeta só a saúde, mas também o bolso e até o meio ambiente. Passados quase 40 anos da criação da data, os números ainda assustam.

De 2023 para 2024, o Brasil viu crescer em 25% o número de fumantes – e o custo disso é bilionário. Todos os anos, o cigarro gera uma conta de R$ 153 bilhões para o SUS (Sistema Único de Saúde). A arrecadação com impostos sobre a venda de cigarros cobre só uma pequena parte dessa despesa, pouco mais de 5%.

Na prática, são vidas e mais vidas perdidas. Só no Brasil, o tabaco mata mais de 174 mil pessoas por ano, 55 mil apenas por câncer.

Mais de duas décadas fumando
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Pedro Mendes é autônomo, e conta que começou a fumar aos 15 anos, no início dos anos 90. Foram 28 anos até que o corpo começou a dar sinais de que não aguentava mais. Ele lembra que ficou doente, tossia sem parar, e nessa semana de cama já não conseguia fumar. Foi nesse momento que decidiu não retroceder.

O desafio maior veio depois. Beber um copo de cerveja era sinônimo de vontade de fumar. “Quando eu bebia, vinha aquela vontade de fumar. Às vezes até sonhava que estava fumando”, conta.

Hoje, olha para trás e reconhece que não foi um processo fácil. Pedro conta que foi a própria fé que o ajudou a vencer o vício. Mas destaca que todo apoio é bem-vindo para vencer o vício, com ajuda de profissionais adequados ou os grupos de apoio do SUS.

Pedro lembra que a recompensa veio no dia a dia. Andar de bicicleta sem cansar, respirar fundo sem falta de ar, se sentir mais disposto. Ele resume que a vida mudou muito desde então. Mas também faz questão de não romantizar o processo.

“A luta é grande. Se cair, levanta de novo. Eu mesmo achava que nunca iria parar, porque gostava muito de fumar, mas consegui”, diz ele, que ainda conta que a propaganda de cigarro, muito forte na época em que começou, ajudava a incentivar jovens como ele.

Remoção de publicidades
No dia 19 de agosto, a Senacon (Secretaria Nacional do Consumidor) do MJSP (Ministério da Justiça e Segurança Pública), por meio do CNCP (Conselho Nacional de Combate à Pirataria e aos Delitos contra a Propriedade Intelectual), determinou a remoção de anúncios de venda e conteúdos sobre cigarros eletrônicos.

A comercialização desses produtos é proibida, e a legislação brasileira também veda qualquer tipo de publicidade sobre eles.

Sites de comércio eletrônico e redes sociais como YouTube, Facebook, Instagram e Mercado Livre, foram notificados para retirar os conteúdos irregulares. O CNCP acompanha o cumprimento da determinação.

O tabagismo no Brasil em números
O Vigitel (Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico), do Ministério da Saúde, apontou em sua pesquisa mais recente que a taxa de fumantes adultos no Brasil subiu de 9,3% para 11,6%.

O levantamento também indica crescimento no uso de cigarros eletrônicos: 2,6% dos adultos relataram ter utilizado o dispositivo no último ano, com aumento mais expressivo entre mulheres, que passaram de 1,4% para 2,6%, considerando tanto o consumo de cigarros tradicionais quanto eletrônicos.

Segundo Inca (Instituto Nacional de Câncer) lembra que parar de fumar é benéfico em qualquer idade.

Vinte minutos depois do último cigarro, a pressão arterial já volta ao normal
Em 12 horas, os pulmões começam a funcionar melhor
Em um ano, o risco de morte por infarto cai pela metade
Após dez anos, o risco é igual ao de quem nunca fumou.
O vício e a saúde
Nilton Ramos, motorista de máquinas pesadas, conta que começou ainda mais cedo, aos 13 anos. Segundo ele, na época era um luxo fumar cigarro. “Achava bonito fumar, dava uma sensação boa”.

Com o tempo, porém, vieram os sinais físicos: cansaço, falta de ar e até manchas nos pulmões. Trabalhando no setor de minério, Nilton não conseguia acompanhar tarefas simples que exigiam esforço físico. A preocupação com a saúde acabou se tornando sua principal motivação para tentar parar.

Ele passou por diversas tentativas. Primeiro 15 dias sem fumar, depois um ano, mas acabou voltando ao vício. Na última tentativa, conseguiu abandonar o cigarro definitivamente. “Não foi fácil, ficava nervoso, muito nervoso, mas dessa vez não voltei mais”.

Hoje, Nilton respira melhor e não perde mais o fôlego ao jogar bola ou realizar atividades físicas.

Especialistas alertam que sintomas como falta de ar e cansaço são comuns entre fumantes, mesmo jovens, e que parar de fumar é beneficial tanto em curto como longo prazo. Entre os efeitos imediatos estão a melhora da pressão arterial e da função pulmonar, enquanto a longo prazo há redução significativa do risco de doenças cardiovasculares e câncer de pulmão.

Nilton deixa um conselho direto. “Faça o possível para não entrar nesse vício, prejudica muito a saúde. E caso já seja fumante, não tenha receio de procurar ajuda. Hoje há muitos lugares para isso. Faça de tudo para parar”.

O que explica a dependência?
A nicotina é uma das drogas mais viciantes, e o cigarro é considerado um dos vícios mais difíceis de abandonar. É o que explica a psicóloga Solange Bertozi de Souza, que atua há dez anos no tratamento de dependências.

Segundo a especialista, o cigarro ativa o sistema de recompensa do cérebro, que busca sensações de prazer associadas ao hábito. Ao tentar parar, o corpo e a mente enfrentam sintomas de abstinência, como ansiedade, irritação e depressão, tornando o processo de abandono desafiador.

“Fatores emocionais e sociais também têm peso significativo. A dependência da nicotina pode interferir em relacionamentos, porque os sintomas de abstinência afetam o comportamento e o bem-estar emocional”, explica Solange.
O acompanhamento psicológico é considerado essencial para prevenir recaídas e manter a abstinência. Em alguns casos, a combinação de psicoterapia com tratamento medicamentoso, supervisionado por um psiquiatra, aumenta as chances de sucesso. Estratégias como mudança no estilo de vida e redução de gatilhos para fumar também são recomendadas.

A especialista alerta ainda para o uso crescente de cigarros eletrônicos, principalmente entre adolescentes. “Existe um fator sociocultural. Os mais jovens são atraídos por produtos modernos e acreditam que eles são menos prejudiciais, o que não é verdade. O risco de dependência pode ser ainda maior”.

Segundo Solange, a prevenção é a melhor estratégia. “O público jovem deve ser informado sobre os riscos do tabaco, seja ele tradicional ou eletrônico, e entender que qualquer uso pode levar à dependência e a problemas físicos ou psíquicos”.

Atendimento em Campo Grande
Em 2024, o Programa de Controle do Tabagismo atendeu 582 pessoas em Campo Grande. Hoje, 388 seguem em acompanhamento nos grupos. A maioria dos pacientes tem mais de 40 anos, principalmente mulheres.

O tratamento segue protocolo do Ministério da Saúde, com abordagem em grupo, apoio psicológico, uso de medicamentos quando indicado e terapias complementares, como auriculoterapia, meditação e exercícios físicos supervisionados.

Conforme a Sesau (Secretaria Municipal de Saúde), em junho de 2025, novos médicos, psicólogos, enfermeiros e farmacêuticos foram capacitados para reforçar o programa.

Onde buscar ajuda
USF (Unidade de Saúde da Família) Dr. Cláudio Luiz Fontanillas Fragelli (Henrique Arakaki, Jornal Midiamax)
Atualmente, 36 USFs (Unidades de Saúde da Família) de Campo Grande oferecem atendimento para quem deseja parar de fumar. Entre elas estão

USF Los Angeles
USF Paulo Coelho Machado
USF Alves Pereira
USF Mario Covas
USF Macaubas
USF Dom Antônio Barbosa
USF Jardim Botafogo
USF Parque do Sol
USF Dona Neta/Guianandi
USF Jockey Club
USF Aero Rancho
CF Iracy Coelho
USF Pioneira
USF Moreninha III
USF Cristo Redentor
USF Carlota
USF Vila Carvalho
USF 26 de Agosto
USF Aero Itália
USF Serradinho
USF Vila Fernanda
USF Jardim Batistão
USF Tarumã
USF Coophavilla II
CF Portal Caiobá
USF Santa Emília
USF Jardim Noroeste
USF Estrela Dalva
USF Jardim Paraíso
USF Jardim Seminário
USF Vila Nasser
USF José Tavares
USF Jardim Presidente
USF Vida Nova
USF Coronel Antonino
CF Nova Lima
O atendimento é gratuito, com acompanhamento profissional e grupos de apoio. A orientação da Secretaria de Saúde é que qualquer pessoa motivada a parar de fumar procure a unidade mais próxima e se inscreva para participar.

*Supervisão de Guilherme Cavalcante