Casal de Campo Grande também recebeu Simone e Simaria para um almoço com frango caipira.
Em Campo Grande, o casal Luciléia Brasilho, de 46 anos, e Gilmar Rufino, de 49, comanda há quase 18 anos uma lanchonete familiar que já preparou refeições para integrantes do Raça Negra e para Simone e Simaria. Entre os pratos, estão feijoada com paio e frango caipira. O carro-chefe é o bolinho de carne, com receita secreta, a partir de R$ 18 a porção. A casa abre de terça a sexta, às 15h, e nos fins de semana, às 9h.
O endereço é simples, os próprios donos preparam a comida e o bolinho de carne custa a partir de R$ 18 a porção. Mas foi nessa cozinha de Campo Grande, no Bar da Léia, no Colibri II, que o casal já preparou almoços e jantares para nomes conhecidos da música brasileira.
Entre uma fritura e outra, Luciléia Pereira de Oliveira Brasilho, de 46 anos, e Gilmar Basílio Rufino, de 49, colecionam histórias com integrantes do Raça Negra e com Simone e Simaria.
Há quase 18 anos no ramo, o casal não começou o negócio imaginando que um dia teria artistas entre os clientes. A oportunidade apareceu quando um conhecido que mantinha um estabelecimento decidiu parar e ofereceu o ponto aos dois. Eles aceitaram e passaram os primeiros anos conciliando o trabalho com a construção do espaço onde hoje funciona a lanchonete.
“Foi bem difícil no começo, tivemos muita dificuldade. Aos poucos fomos construindo aqui e depois mudamos a lanchonete. Em janeiro de 2027 vai fazer 15 anos que estamos neste mesmo lugar”, conta Luciléia.
O tempo também pode ser medido pela família. Os filhos cresceram acompanhando a rotina do comércio e hoje já são adultos. Agora são os netos que circulam pelo lugar. “Nós trabalhamos em família. Criamos nossos filhos e hoje já estão todos casados. Agora estamos criando os netos. O tempo vai passando”, resume.
Foi justamente um dos filhos que abriu, sem planejar, a porta para algumas das histórias mais curiosas vividas pelo casal. Ele trabalhou no meio musical e teve contato com diferentes artistas e equipes. Por meio dessas relações, Luciléia e Gilmar tiveram a oportunidade de preparar comida para integrantes do Raça Negra, banda da qual os dois já eram fãs muito antes de conhecerem os músicos pessoalmente.
A primeira encomenda foi em marmitas. Depois veio outra. Com as novas passagens do grupo por Campo Grande, a relação deixou de ser apenas entre cozinha e camarim. Integrantes da banda começaram a visitar o estabelecimento para almoçar e, em algumas ocasiões, permaneceram ali durante a tarde.
“Quando apareceu essa oportunidade, nós nem acreditamos. Eles experimentaram, gostaram e fomos mantendo contato. Quando vêm para cá, geralmente fazemos a comida deles. Nos últimos shows em que conseguimos conciliar, nós preparamos”, relata Luciléia.
Entre os pedidos, um prato ganhou fama dentro dessa relação. Segundo ela, Luiz Carlos, vocalista do Raça Negra, tem preferência pela feijoada preparada pelo casal. “O Luiz Carlos gosta da feijoada com paio. E o pessoal da banda é muito gente boa. Vem, almoça e ainda pede marmita para levar para jantar”, conta.
A aprovação da comida também criou liberdade para uma cobrança bem-humorada. Em uma das visitas do grupo, o casal avisou que não teria condições de cozinhar naquele dia. A resposta dos músicos ficou guardada na memória. “Teve uma vez em que falamos que não poderíamos fazer a comida e eles disseram que estavam muito magoados porque a gente não ia cozinhar para eles”, lembra Luciléia.
Mesmo sem a refeição, o encontro aconteceu no show. Com o passar dos anos, a admiração que existia à distância ganhou outra dimensão. Para Luciléia, uma das surpresas foi descobrir como os artistas se comportavam quando estavam longe do palco e do público.
“Quando estão no reservado, são pessoas bem simples, bem bacanas de estar junto, conversar e conhecer um pouco do mundo deles. Para nós é ainda mais especial porque já éramos fãs do Raça Negra antes de tudo isso acontecer”, diz.
A cozinha do casal também recebeu uma missão diferente quando Simone e Simaria passaram por Campo Grande, ainda na época em que se apresentavam como dupla. Segundo Luciléia, as artistas estavam na cidade para um show no Parque de Exposições, cerca de 9 anos atrás, e a equipe foi até o estabelecimento para almoçar.
Dessa vez, o prato escolhido não tinha sofisticação de camarim. O casal preparou frango caipira. A refeição agradou e o trabalho continuou depois do almoço. “Elas gostaram da comida e pediram também para o jantar. Fizemos batata recheada e levamos para elas comerem”, recorda.
Em outra passagem de Simone pela Capital, a agenda não permitiu repetir o almoço. O contato, porém, não se perdeu. “Na última vez que ela veio fazer show aqui, não puderam vir almoçar porque o tempo estava corrido, mas ela nos recebeu no camarim e tiramos foto. Sempre teve esse carinho”, diz Luciléia.
Para quem acompanhava artistas apenas como fã, passar a cozinhar para eles trouxe situações que ainda provocam emoção quando são lembradas. Luciléia conta que, em uma dessas oportunidades, o nervosismo apareceu antes mesmo de qualquer prato chegar à mesa.
“Na primeira vez que eu vi a van chegando, minhas pernas tremeram. Pensa: aqui, num lugar simples, e você está fazendo a comida deles. Foi muito bom, muito gratificante”, relata.
Apesar das histórias com músicos conhecidos, o cardápio nasceu de maneira bem mais enxuta. No começo, havia pastel. Aos poucos, o casal começou a testar receitas e aumentar as opções. Hoje, as porções vão de amendoim a filé de tilápia com fritas e costelinha de pacu.
Carro-chefe da casa - Mas existe uma receita que ocupa o posto de celebridade da casa mesmo sem subir em palco: o bolinho de carne. Criado pelo casal, ele se tornou o carro-chefe e teve a receita mantida em segredo ao longo dos anos.
“Todo mundo quer descobrir o segredo. Já quiseram até nos inscrever na Ana Maria Braga para contar a receita do bolinho”, brinca Luciléia.
O cardápio também inclui bolinho de peixe, bolinho de queijo, risoles, salgados assados, frango a passarinho, filé com fritas e outras porções. Os bolinhos de carne e de peixe, segundo o casal, custam a partir de R$ 18 a porção com 10 unidades.
A rotina permanece essencialmente familiar. Luciléia e Gilmar continuam responsáveis pela preparação dos alimentos e dividem o trabalho no estabelecimento. Durante a semana, de terça a sexta-feira, o atendimento começa às 15h. Aos sábados, domingos e feriados, a cozinha começa a funcionar a partir das 9h.
Depois de quase duas décadas, os dois dizem que os artistas renderam boas histórias, mas não explicam sozinhos a longevidade do negócio. A maior parte das mesas continua sendo ocupada pelos clientes que chegaram sem equipe, camarim ou horário de show e acabaram voltando outras vezes.
“Trabalhamos com respeito, dedicação e carinho. Optamos por ter um ambiente bem familiar, porque vêm casais, famílias e crianças. Você precisa atender bem para o cliente voltar”, afirma Gilmar.
Para Luciléia, cozinhar para artistas que antes conhecia apenas pela televisão ou pela música acabou funcionando como uma espécie de reconhecimento inesperado do trabalho construído em família.
“É gratificante saber que, através da nossa comida e do nosso estabelecimento, tivemos o prazer de cozinhar para eles. Mas também temos muitos clientes cativos, que elogiam e estão sempre aqui. Ao longo desses anos, fizemos muitas amizades”.
E talvez seja justamente essa a história que molda o pequeno negócio. O Raça Negra pode pedir feijoada com paio, Simone e Simaria podem ter levado batata recheada para o jantar e uma van cheia de músicos pode fazer as pernas da dona da cozinha tremerem. No dia seguinte, porém, o fogão acende novamente para servir os mesmos clientes que ajudaram a manter o endereço aberto por quase 18 anos.
Para quem quer conhecer, o bar está localizado na Rua Mestre Estanislau Pannatier, 195, Bairro Colibri II.













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