Especialistas apontam caminhos e consequências para que o narcotráfico possa ser enfrentado no território nacional.

Crise de segurança no México: quais lições ficam para o Brasil
Especialistas apontam caminhos e consequências para que o narcotráfico possa ser enfrentado no território nacional. / Foto: REUTERS/Luis Cortes

Agentes da Guarda Nacional fazem a segurança em frente à Procuradoria Especializada em Crime Organizado (Femdo), onde se suspeita que o corpo de El Mencho esteja sob custódia das autoridades, após uma operação militar na qual, segundo uma fonte do governo, o narcotraficante mexicano Nemesio Oseguera, conhecido como "El Mencho", foi morto no estado de Jalisco, na Cidade do México, México, em 22 de fevereiro de 2026.

Após a execução de Nemesio “El Mencho” Oseguera Cervantes por militares, no último domingo (22), o México enfrenta uma intensa onda de violência e insegurança.

O Brasil vive problemas similares há anos com o crescimento de facções do crime organizado, como o CV (Comando Vermelho) e o PCC (Primeiro Comando da Capital), que inicialmente conduziram operações locais e expandiram posteriormente a atuação para boa parte do território nacional e ramificações internacionais.

A morte do narcotraficante que liderava o CJNG (Cartel Jalisco Nova Geração) fez parte de uma operação coordenada com ajuda da inteligência dos Estados Unidos. Até o momento, pelo menos 25 membros das forças policiais mexicanas foram mortos.

Para Ronaldo Carmona, professor de geopolítica da Escola Superior de Guerra e pesquisador sênior do Centro Brasileiro de Relações Internacionais, a situação mexicana pode mostrar caminhos que o Brasil deve evitar, incluindo utilizar o Exército como ferramenta de combate ao narcotráfico.

“[Ao] Tornar as Forças Armadas em estruturas policiais, elas deixam de cuidar da soberania nacional e passam a ser forças de ordem interna voltadas para atividades de segurança pública. Isso é uma deturpação. Não está funcionando no México”, analisa Carmona em entrevista à CNN Brasil.

Ainda segundo Carmona, o Brasil deveria atuar em duas frentes para evitar passar por situações similares às do país norte-americano.

“É preciso ter uma maior capacidade operacional das forças de segurança, em especial da polícia, combinada ou conjugada com outras medidas, que consigam levar renda, desenvolvimento, emprego, produção para essas áreas mais carentes do território que são capturadas pelo narcotráfico”, conclui.

É de curtíssimo prazo a necessidade da ação das forças de segurança. Ou seja, tem que realmente ter uma ação operacional para recapturar os territórios
Já para a professora de Relações Internacionais da FESPSP (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo), Ana Carolina Marson, a crise no México pode ter reflexos no Brasil.

“Os cartéis de droga do Brasil possuem as suas próprias estruturas, mas a operação pode influenciar futuras políticas públicas de combate ao narcotráfico”, analisa Marson.

A interferência dos Estados Unidos para que os países da América Latina atuem com políticas de combate às drogas também é um ponto a ser observado pelo Brasil, segundo especialistas.

“O PCC e o CV têm uma logística interna diferente, mas ainda assim a estrutura e as consequências para a população civil acabam sendo muito semelhantes, ainda que a estrutura estatal desse combate sejam diferenciados. Dentro da perspectiva mexicana, ainda existe a pressão dos Estados Unidos para que haja uma política pública de combate ao narcotráfico”, aponta Priscila Caneparo, doutora em Direito Internacional.

A geografia também ajuda a explicar impactos diferentes da repercussão do crime no México e no Brasil.

“O problema no México, por ser um território menor, acaba por ser mais visível. No Brasil, por ter dimensões continentais, existem locais em que a gente observa as consequências mais latentes, como é o caso do Rio de Janeiro, e outros nem tanto”, explica Caneparo.

Em meio ao caos mexicano, especialistas em segurança lembram situação vivida há 20 anos em São Paulo, quando o PCC ordenou ataques no estado.

Naquele maio de 2006, a facção reagiu à transferência de chefes para presídios. Delegacias e bases policiais foram alvos de atentados.

Rebeliões explodiram nos presídios de São Paulo. Além disso, ônibus e bancos sofreram incêndios por bairros da capital. A capital paulista ficou deserta durante a tarde; comércio e escritórios liberaram os funcionários mais cedo.

O governo organizou a resposta e mobilizou a polícia. O revide do Estado deixou mais de 500 civis mortos, segundo a Secretaria Nacional de Direitos Humanos.