Rosária Miranda da Silva morreu ao ser baleada em uma confraternização do trabalho, nos fundos de um lava a jato, em Curitiba. Interrogatório da policial está marcado para esta quarta-feira (19).

Copeira morta por investigadora sonhava ver filho tornar-se policial e estava prestes a construir casa
Rosária foi morta na confraternização da empresa em que trabalhava / Foto: Arquivo pessoal

A Rô era a Rô. Da frase que poderia não significar nada, repetidamente usada por amigos e familiares, tira-se quase tudo sobre a singularidade da copeira Rosária Miranda da Silva, de 45 anos, morta após ser baleada numa confraternização de fim de ano nos fundos de um lava a jato, em Curitiba.

Segundo o Ministério Público do Paraná (MP-PR), ela foi vítima de um tiro disparado por Kátia das Graças Belo, investigadora da Polícia Civil que se irritou com o barulho da festa e atirou contra o estabelecimento vizinho. A policial é ré no processo que apura o crime e segue trabalhando.

Rosária era gente simples: divertia-se com a cantoria de sertanejos antigos, novelas globais e viagens em família — a preferida era para Aparecida, no interior de São Paulo, principal destino religioso do Brasil e lugar onde está exposta a imagem original de Nossa Senhora Aparecida, santa da qual ela era ferrenhamente devota.
 
Família fala sobre Rosária
A copeira viveu durante 25 anos com Francisco Feliciano Leite, um manobrista de 40 anos que, de menino que vendia algodão-doce para o pai dela, tornou-se o homem, companheiro e pai, com quem dividia seus dias.

"Na infância, a gente morava no mesmo bairro e eu vendia algodão-doce para o pai dela. A gente se afastou e, um tempo depois, se encontrou de novo, na adolescência. O que me chamou a atenção foi o carinho dela, o jeito extrovertido, brincalhão, companheiro. Acabamos nos juntando de vez e levando a vida, até hoje", conta ele.
 
"Ajuntado", o casal mudou-se para uma singela casa de madeira, no município de Almirante Tamandaré, bem perto do limite com Curitiba. Lá, com o passar do tempo, surgiu a vontade de viver num lugar maior e melhor estruturado.

O sonho da casa de alvenaria se fez. Cinco anos atrás, Francisco e Rosária passaram a se planejar para levantar o plano, rabiscando o projeto a próprio punho. No fim do ano passado, o que era madeira virou lascas de demolição e o terreno ficou livre, enfim, para a realização da obra.

No dia da confraternização, com o material já espalhado pelo canteiro, faltava exatamente uma semana para o começo planejado das obras no calendário de Francisco e Rosária.

"Nós mesmos fizemos todo o projeto. Era do jeitinho que ela queria, com um quarto de visitas para receber o pai dela, uma garagem no fundo para fazer festa com os amigos e uma suíte no nosso quarto. O material já estava todo comprado, só esperando o pedreiro pegar folga para começar. Já estava tudo pago. O que sobrou?", questiona Francisco, retoricamente.

Da relação, nasceu João Vitor, atualmente com 15 anos. Mesmo sozinho, hoje, ele não é filho único: Rosária foi mãe de outros dois bebês, que morreram antes de nascer - ambos foram gestados nas trompas, em vez do útero.

"Ela tinha muita dificuldade para engravidar. O João foi um milagre, porque também foi bem difícil. Nos últimos tempos, ela estava indo no médico, porque queria ter outro. A gente estava fazendo o tratamento para tentar. Era um sonho, também. Ela tinha muitos sonhos".

João Vitor também teve seu sonho atingido por aquela bala disparada contra o lava a jato: ele queria ser policial, mas não quer mais. Por causa da vontade do menino, a mãe, que também sonhava em vê-lo na profissão, fez questão de matriculá-lo na Guarda Mirim, uma escola ligada à Polícia Militar (PM).

"Meu maior sonho era ser policial, mas perdi toda a vontade de vestir uma farda que matou minha mãe. Não tenho mais vontade. Sempre me vi na polícia, nunca fora dela, mas fazer o quê? Era para ser uma coisa boa, virou uma coisa ruim. Agora, vou estudar para entrar em uma faculdade boa, longe disso", planeja João.

O jovem tinha mais contato com a mãe à noite, quando ela lhe servia a janta. A copeira tomava ônibus perto das 5h30, todos os dias, para ir ao Instituto de Oncologia do Paraná (IOP), onde tinha a função de servir café e lanchinhos prontos aos pacientes, além de cuidar da organização do almoxarifado.

Já era sabido nos corredores da clínica: se o café tinha gosto forte e amargo, era de Rosária. Médicos e pacientes que preferiam o estilo já iam direto na garrafa em que ela tinha trabalhado.

"Cada uma tinha um estilo. Um era mais doce, o outro era mais fraco. O dela era o forte e amargo, que agradava muita gente. Quando era o dela, todo mundo já sabia. 'Esse café é o da Rô!'", explica Leila Lopes, também copeira no IOP.

Acostumada ao opaco uniforme preto, no dia da confraternização Rosária calçou infrequentes sapatilhas rosas-choque, porque, segundo as companheiras de trabalho, queria causar. Queria demonstrar que estava feliz, que o dia seria incomum como a cor bandeirosa dos calçados.

"De manhã, eu brinquei com ela, porque a gente usava uniforme escuro e ela estava com uma sapatilha pink: 'Escuta, que que é isso? Que sapatilha é essa?'. 'Ah, hoje eu vou causar! Já vim no clima da festa”, recorda Leila.

Com a falta de Rosária, diz a amiga, a copa está mais fria. "A gente sente muita falta. A gente estava na melhor fase da nossa vida, nos entendendo em tudo. Uma não movia nada sem que a outra soubesse. Era uma pessoa incrível, irmãzona para todos. E também era muito honesta. Onde ela estiver, eu tenho certeza: ela está pedindo por justiça".

Audiência
 
A audiência marcada para as 14h desta quarta-feira (19) terá depoimentos das testemunhas de acusação, defesa, além do interrogatório da ré. No fim do ato, o juiz deve conceder prazo de alegações finais às partes para, depois disso, proferir a decisão se mandará ou não Kátia das Graças Belo a júri.