Ações drásticas no alto escalão militar consolidam o controle do líder chinês, mas levantam questões sobre o futuro do Exército.

China: Limpeza no Exército expõe poder de Xi Jinping

Desde que assumiu o poder, Xi Jinping tem demonstrado uma determinação implacável em consolidar seu controle sobre todos os aspectos do governo chinês. Uma de suas estratégias mais notáveis tem sido a realização de expurgos em larga escala dentro do Exército de Libertação Popular (ELP), punindo a corrupção e desmantelando gerações inteiras de oficiais. Essa movimentação, embora fortaleça sua posição, levanta sérias questões sobre o futuro das forças armadas chinesas.

Sob os mandatos de Jiang Zemin e Hu Jintao, nenhum general promovido por eles foi derrubado enquanto ainda estavam no governo. Isso não quer dizer que não havia corrupção, mas indica que, no passado, os líderes chineses lidavam com esses casos de forma mais discreta, buscando preservar a estabilidade do comando militar. Xi Jinping, no entanto, optou por um caminho diferente, redefinindo quem sobe, quem cai e sob quais condições é possível sobreviver no topo do poder militar.

Concentração de poder
Com a recente queda de Zhang Youxia, a Comissão Militar Central (CMC) ficou ainda mais centralizada nas mãos de Xi. Atualmente, no topo, restam apenas ele e um único oficial em atividade, o general Zhang Shengmin, responsável pela disciplina do Exército. Esse feito é inédito, inclusive em comparação com o período de Mao Tsé-Tung.

Desde 2012, mais de 200 mil funcionários civis e militares foram punidos. Embora muitos fossem de fato corruptos, Xi também aproveitou esse processo para neutralizar praticamente todos os polos alternativos de poder no Partido Comunista, no governo e nas Forças Armadas. Até mesmo antigos aliados foram descartados quando passaram a ser vistos como potenciais rivais.

Longe de indicar fraqueza, essa movimentação demonstra força. A disposição de eliminar figuras centrais da vida pública chinesa sugere que Xi Jinping se sente extremamente seguro no comando. No entanto, as consequências podem ser significativas. Desde 2023, cinco dos sete membros da Comissão Militar Central foram derrubados, incluindo todos os comandantes nomeados em 2022, durante o último congresso do Partido.

A liderança do Exército de Libertação Popular foi profundamente abalada. Nunca tantos generais de alto escalão foram afastados simultaneamente sem que o país estivesse em guerra ou passando por uma mudança de regime.

Essa situação gera desconfiança entre os oficiais e, no curto prazo, tende a reduzir a capacidade operacional do Exército. Zhang Youxia acumulava décadas de experiência estratégica, enquanto Liu Zhenli conhecia profundamente o funcionamento operacional das Forças Armadas. A saída dos dois cria um vazio que dificilmente será preenchido rapidamente.

Na prática, isso pode atrasar as ambições militares do governo, como a meta de preparar o Exército para uma eventual operação contra Taiwan até 2027. Uma cúpula fragmentada tem dificuldade para coordenar ações complexas antes de se reorganizar, e a reorganização exige tempo.

Xi justifica os expurgos afirmando que um Exército formado apenas por quadros absolutamente leais garante maior coesão política e reduz o risco de conspirações. No entanto, o custo aparece quando as promoções passam a depender mais de alinhamento político do que de competência, o que tende a comprometer a qualidade operacional.

Em um ambiente dominado pelo medo, problemas deixam de ser reportados e soluções dão lugar a relatórios feitos para agradar o Líder Supremo. A cadeia de comando passa a confirmar decisões, não a corrigi-las. Ninguém quer ser o general que traz más notícias ou questiona ordens vindas do topo.

Entretanto, Xi parece indiferente a esses incentivos. No poder há mais de uma década, após mudar a Constituição para se perpetuar no cargo, o líder chinês demonstra estar mais preocupado em garantir sua permanência prolongada no comando do que em equilibrar lealdade e eficiência.

"Xi Jinping parece ter entendido perfeitamente o que isso significa", conclui Rodrigo da Silva.