Estamos desatualizados em termos de prioridade diplomática.
A hipocrisia parece definir o tempo em que vivemos.
Aqueles que diziam querer libertar as mulheres iranianas mataram 165 meninas em uma escola feminina no Irã. O pedófilo e o genocida uniram forças para atacar o país. Como seus pares da extrema-direita, o genocida — covarde, à semelhança de Bolsonaro — fugiu para a Alemanha. Seria uma piada pronta, não fosse trágica: a pátria do nazismo acolhe o sionista, judeu, genocida. Valeria investigar que patologia histórica faz a Alemanha sentir-se tão profundamente atraída por figuras dessa natureza.
Os ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã foram precedidos por extensa campanha de deslegitimação do governo iraniano, atualmente presidido por um médico neurocirurgião, competente na arte da cura e moderado na arte da política.
O eventual fechamento do Estreito de Ormuz — por onde passa cerca de 25% do comércio internacional de petróleo e gás — representará inflação para todos os países, pressionando ainda mais os preços dos alimentos em uma conjuntura na qual mais de 900 milhões de pessoas não têm acesso aos recursos mínimos para saciar a própria fome e a de suas famílias.
Não satisfeita, a dupla de meliantes teria matado 20 jogadoras iranianas de voleibol e o aiatolá Ali Khamenei, chefe de Estado do Irã, cuja última declaração teria sido a de que só desceria a um abrigo antiaéreo se os demais 90 milhões de iranianos também pudessem fazê-lo.
Não por acaso, o Irã detém a terceira maior reserva de petróleo do mundo — atrás da Venezuela e da Arábia Saudita, autocracia apoiada pelos Estados Unidos.
Em meio a esse cenário, o Brasil insiste na cantilena ultrapassada de pleitear um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU — algo que equivale a reivindicar uma cabine de primeira classe no deque do Titanic.
Estamos desatualizados e míopes em termos de prioridade diplomática. Não conseguimos contribuir para reduzir o caos em que a extrema-direita internacional mergulhou o mundo.
Ainda pior: duplicamos estruturas externas. A Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil), criada no governo FHC, acaba de abrir escritório de representação em Nova Délhi, embora a Embaixada do Brasil na mesma capital já conte com setor de promoção comercial. Em outras palavras: recursos do contribuinte, que poderiam ser aplicados em inúmeras áreas mais urgentes, serão gastos — inutilmente — em dólares.
Somos, afinal, seres da repetição. Temos enorme dificuldade em inovar, em fazer diferente. Tendemos a reiterar formas de pensar e a cristalizá-las em fórmulas institucionais, por mais antigas, vetustas e ineficazes que sejam.
Em artigo na revista Cult, Patrícia Teixeira e Carmen Lívia Parise destacam a psiquiatra Nise da Silveira justamente por sua capacidade inovadora incessante:
“Influenciada pela vida e pela obra de Artaud, descortinou a ideia de que o progresso criativo é um desmembramento, no qual algo necessita ser perdido para nascer de novo; a novidade irrompe de forma inédita a todo instante. Formou-se, deformou-se, reformou-se em tantas. Sempre pronta a se desencaixar.”
As autoras recordam:
“A individuação é um conceito lapidado entre 1913 e 1919 por Jung e designa o processo de tornar-se a si mesmo no confronto com o coletivo. O processo individuante diz respeito ‘a um incessante nascer, morrer e nascer novamente: adaptar-se e desadaptar-se, regredir e progredir, dissolver-se e cristalizar-se continuamente, por vezes atravessando um violento desamparo e a solidão de quem precisa criar e recriar vínculos e afetos quando tudo parece impossível’ (Amnéris Maroni).”
E complementam:
“O que há é devir, borramento de fronteiras, que nos convida a colher de cada dia aquilo que não seja sua repetição — nem a nossa. Morremos um bocado de vezes pela vida, porque o estado de encantamento pelas coisas pede movimento e curiosidade intensa. Uma vã tentativa de escapar por completo do coletivo é mero individualismo. Individuação é esse ponto de encontro no qual o singular, ao se revelar, também é capaz de transformar a própria coletividade em que está inserido.”
Concluem, em homenagem antecipada ao 8 de Março:
“É preciso seguir contando as histórias de mulheres autoras como Nise da Silveira e lendo suas obras para restituir às psicologias profundas as encantarias de pensamentos e afetos sensíveis, ancorados na arena do mundo compartilhado, que nascem de tantos encontros potentes.”
No mesmo número, Christian Dunker também reflete sobre o processo criativo de Nise:
“É nesse portal de passagem entre o pensamento e a imagem que o fenômeno do estranhamento foi localizado: entre o familiar e o estrangeiro, entre o próximo e o distante, entre o oculto e o revelado, entre o vivo (animado) e o morto (inanimado). Isso explica aquele pequeno detalhe, aquela alteração de textura ou repetição inusitada que nos faz sentir uma perturbação na realidade em que existimos.”
Abramos mão dos infernos quentinhos, conhecidos, quase confortáveis. Busquemos a verdade — por vezes dura, fria como o vento —, mas que ilumina e dá sentido, como o sol e a lua.












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