Empresário diz que ele e o pai receberam dinheiro "todo picado" após cobrarem várias vezes o golpista

Vítimas ‘escaparam’ de garagista estelionatário e conseguiram receber R$ 130 mil
/ Foto: (Foto: Madu Livramento, Jornal Midiamax)

Um rapaz de 20 anos, e o seu pai, de 63 anos, ambos empresários e antigos proprietários de uma caminhonete S10, afirmam que escaparam do “golpe dos garagistas”, que já fez dezenas de vítimas, em Campo Grande, e retribuem o fato à insistência em cobrar os R$ 130 mil de uma caminhonete. “Batendo ponto” no local por duas semanas, teriam recebido o dinheiro “todo picado” e, justamente por isso, não procuraram a Polícia Civil.

O jovem, no entanto, ao ver a reportagem falando sobre o caso, disse constatar o mesmo modus operandi. Ele então quis falar sobre a situação vivida por ele e todo o nervosismo que passou juntamente com o pai, já idoso. “Ele foi vendo que não pagavam, estava com muito medo da gente não receber, daí ficávamos indo todo dia lá na garagem de veículos, na [Avenida] Salgado Filho”, alegou.

De acordo com o jovem, o garagista atuava com compra e venda e também oferecia carta de crédito aos clientes. “Nós levamos a caminhonete lá e tivemos uma conversa direta com os funcionários lá. Queria R$ 130 mil e o que eles ganhassem em cima da venda seria deles. Após um tempo, surgiu uma negociação que o funcionário dele nos informou e, inicialmente, achei estranho que, em nenhum momento, eles nos mostravam ou falavam quem era o comprador”, relembrou.


 

‘Não me deixavam conhecer o comprador’, relembra empresário
No entanto, ainda segundo o relato do jovem, o suposto negócio continuou, até que o proprietário da garagem, falou que “o cliente tinha optado por carta de crédito e que ele demoraria, no máximo, 30 dias para receber e assim que recebesse, nos passaria o dinheiro”.

“Ele também ofereceu 10% de sinal à vista, o sinal foi depositado de imediato, até aí ok, na confiança ele foi até a loja e nos levou um contrato bem fraquinho sobre a venda, e também nos pediu a procuração do meu pai para a transferência da camionete. Ele estava bem solícito até então, pois, estava querendo receber, só que após a transferência da caminhonete começou a dor de cabeça”, relembrou.

O prazo inicial, de 30 dias, não foi cumprido. “Chegou no dia combinado, ele [garagista] disse que ainda não tinha recebido da carta de crédito, que estava aguardando o comprador e falando com o banco, nisso ficamos uma semana, porém, todos os dias fomos na garagem dele que fica perto do nosso estabelecimento comercial. E ele nunca estava lá, todo dia que mandávamos mensagens quase não respondia, e quando respondia falava que estava aguardando”, comentou.

Neste sentido, o jovem disse que passou a receber “pagamentos picados”, de R$ 20 mil e R$ 50 mil. “Foi tudo sempre com uma luta enorme e com muito medo, principalmente pelo meu pai, que já é de idade e ficou extremamente nervoso e preocupado com a situação. Após um tempo, fui ver pela carteira digital quem tinha ‘comprado’ o nosso carro, e descobri que foi o dono de outro garagem, no estado de São Paulo, bem similar aos outros casos em que ele repassa o carro. A nossa sorte é que ainda conseguimos receber o dinheiro mas depois de muita insistência”, encerrou.

Prisão de golpista
No mês de janeiro, diversas vítimas procurarem a polícia, relatando terem sido lesadas por um homem que se apresentava como proprietário de três estabelecimentos comerciais destinados à compra e venda de veículos

A Dedfaz (Delegacia Especializada de Repressão aos Crimes de Defraudações, Falsificações, Falimentares e Fazendários), investigando mais de 30 crimes de estelionato desde então, prendeu o suspeito. O mandado foi cumprido nessa quinta-feira (29), em Campo Grande.

Conforme apurado, o investigado induzia as vítimas a entregar os automóveis sob o pretexto de que seriam submetidos a vistorias para liberação de cartas de crédito ou financiamentos. O pagamento, contudo, era reiteradamente postergado e jamais realizado.

Os veículos eram posteriormente repassados a terceiros, e o investigado se apropriava integralmente dos valores obtidos com as vendas, sem efetuar qualquer repasse às vítimas.

Agora, as investigações prosseguem com o objetivo de reunir novos elementos de prova quanto à autoria, materialidade e destinação dos valores obtidos ilicitamente, visando à reparação dos danos às vítimas e à responsabilização criminal do investigado.

Outras vítimas falam em prejuízo com 14 veículos
Outras pessoas que alegam ter prejuízo com o golpe milionário em Mato Grosso do Sul, cujo inquérito foi instaurado e está sendo apurado na Dedfaz (Delegacia Especializada de Repressão aos Crimes de Defraudações, Falsificações, Falimentares e Fazendários), falam no financiamento de, ao menos, 14 veículos, entre eles, carros de marcas de luxo, como a Mercedes-Benz. Três delas recentemente procuraram o Jornal Midiamax e relataram perda de dinheiro, transtornos familiares, medo e ligações de cobranças que recebem diariamente.

Conforme uma das vítimas, que não será identificada pela reportagem, no mês de novembro de 2025 foi feito um contrato verbal, de compra e venda, sendo uma negociação entre o garagista e o comprador da Mercedes. Na ocasião, o veículo foi negociado por R$ 330 mil e a pessoa pagou R$ 250 mil, sendo devolvidos R$ 120 mil para que o comprador “colocasse boletos e parcelas em dia”, enquanto o nome da vítima era prejudicado com a instituição financeira.

Pouco antes, a vítima mandou mensagem ao autor ressaltando que precisava resolver as pendências financeiras da Mercedes e que o autor precisava realizar a quitação. No entanto, este passou a ignorar as mensagens e ligações e, novamente, deixou atrasar as parcelas do veículo. Logo depois, a informação é que o nome da vítima seria encaminhado para protesto e seria providenciada a busca e apreensão.

Esta pessoa então disse que precisou quitar o financiamento e ficou com um prejuízo de R$ 27 mil, referente a juros e parcelas em aberto. Além disso, descobriu que a Mercedes foi “passada para frente” e, ao denunciar na delegacia, descobriu que outras queixas, no município de Ponta Porã, já haviam sido registradas contra o suposto golpista. Por fim, disse que tentou várias tratativas amigáveis, mas sem sucesso.

‘Acabou meu casamento e sou pressionada por ligações’
Outra vítima, que também quer ser mantida em sigilo, fala que tudo começou em março do ano passado. Ela relata que, em questão de meses, teve prejuízos financeiros e emocionais, com o fim do próprio casamento. Encorajada a fazer o boletim de ocorrência, denunciou o crime. No entanto, ressalta que vive com reiteradas ameaças e ligações pressionando-a a reconhecer dívidas.

“Estou sem crédito, fizeram quatro contas diferentes em meu nome. Vivo brigando com o meu filho, acabei com o meu casamento de mais de 20 anos e vivo recebendo ameaças. Eles ligam o tempo todo, perdi clientes por conta disso e meu nome está sujo, coisa que nunca tinha acontecido. Junto de uma pessoa, que está me ajudando, fizemos o levantamento de 12 carros financiados, a maioria caminhonetes, SUVs e uma Mercedes”, conta.

A vítima acredita que o golpe envolve pessoas do Brasil inteiro. “Para não ter desconfianças, financiam um carro em Cuiabá, São Paulo e Pernambuco, por exemplo. O garagista ganha comissão, então, faz o contrato e o banco passa usando nomes de diversas pessoas. No meu caso, começaram a chegar carnês bancários e eu nunca nem vi os carros. E me falavam: ‘Se você denunciar, vai acontecer algo com o seu filho’. Daí tive medo, mas depois me orientaram a denunciar. Minha vida ficou travada, meu CPF comprometido. Tudo isso estragou a minha vida, acabou com o meu casamento, tive muitos conflitos com o meu marido”, lamentou.

‘SUVs rodando pelo país’

A polícia ainda apura onde os veículos — principalmente SUVs de alto valor — estariam sendo comercializados de forma irregular, gerando perdas financeiras significativas para compradores e investidores. Existe, inclusive, a informação de que alguns carros estariam em outros estados, com o Rio de Janeiro, por exemplo, o que reforça a complexidade do caso e a necessidade de novas denúncias para o avanço das investigações.

 O delegado Heleno Souza, responsável pelo inquérito policial, ressaltou que, caso houver novas vítimas, devem comparecer na delegacia, e que testemunhas serão intimadas novamente para fornecerem informações complementares. Ele também ressaltou o caráter sigiloso da investigação, mas ressaltou que as diligências estão em andamento.