O recente anuncio da desfiliação do deputado estadual João Henrique Catan do Partido Liberal (PL) adicionou uma nova variável ao xadrez político da direita em Mato Grosso do Sul.
Em discurso proferido na Assembleia Legislativa, Catan justificou sua saída afirmando que as lideranças e militantes de direita vêm “perdendo o seu protagonismo” e sendo “escanteados” dentro da sigla.
A movimentação de Catan, que busca um novo caminho partidário,com fortes indícios de filiação ao partido Novo para disputar o Governo do Estado em 2026, projeta pressão direta sobre outra figura central do conservadorismo local: o ex-deputado estadual Capitão Renan Contar.
O cenário impõe um dilema estratégico para Contar. Em 2022, o ex-deputado consolidou seu capital político e chegou ao segundo turno sustentado por um discurso antissistema, focado no combate à corrupção e em oposição frontal à gestão do então governador Reinaldo Azambuja (PL).
Atualmente, no entanto, Contar encontra-se filiado ao PL, partido que chancelou uma aliança orgânica com o próprio Azambuja e com o atual governador, Eduardo Riedel (PP), visando o pleito majoritário de 2026. A união foi inclusive endossada publicamente pela cúpula nacional, incluindo o senador Flávio Bolsonaro e o presidente nacional do partido, Valdemar Costa Neto.
A permanência de Contar no PL, dividindo palanque com o grupo político que outrora combatia, tem gerado atritos com o chamado eleitorado “raiz”. Durante o anúncio de sua saída, João Henrique Catan pontuou uma “falta de ânimo” e de conexão no PL, avaliando que os conservadores estariam sendo “utilizados ou subaproveitados” na atual composição.
Diante desse quadro, a leitura de outros personagens políticos aponta que a consolidação de uma frente conservadora independente passaria por um realinhamento partidário. Para manter a fidelidade da base eleitoral ideológica, que historicamente rejeita a aliança com a máquina estadual, uma migração de Capitão Contar nos mesmos moldes da feita por Catan desponta como uma alternativa orgânica.
Acompanhar Catan em sua nova empreitada, possivelmente no partido Novo, permitiria a Contar retomar o protagonismo do discurso de renovação e desvincular-se da política tradicional.
A configuração atual opõe forças distintas: de um lado, a garantia de estrutura partidária, tempo de televisão e recursos eleitorais oferecidos pelo PL; de outro, a viabilidade de preservação da coerência ideológica demandada pela base conservadora, a qual encontra agora nova ressonância no movimento de ruptura formalizado por João Henrique Catan.
O desfecho dessa articulação ditará se a direita sul-mato-grossense marchará unificada sob o pragmatismo institucional ou dividida pelo purismo ideológico.