Programa para padronizar genética e manejo mira o potencial de vendas no país.

Raça Wagyu cresce no Brasil em busca do mercado de carnes nobres
A raça Wagyu é conhecida por sua carne de qualidade excepcional. / Foto: Guidara/Divulgação

Conhecida por ter uma das carnes bovinas mais caras do mundo, a raça Wagyu vem crescendo no Brasil. O volume de animais puros e cruzados abatidos em 2025 no país teve aumento de 30% em relação ao ano anterior, segundo dados do Programa Carne Wagyu Certificada. O número de animais abatidos no período saltou de 1.749 para 2.272 cabeças.

Mas apesar de representar um salto expressivo de produção, para Daniel Steinbruch, presidente da Associação Brasileira de Criadores de Wagyu (ABCBRW), o crescimento poderia ser maior. “Há um gargalo histórico no setor no Brasil, em função da falta de padronização para manejo e genética desses animais”, avalia o dirigente, que também é presidente da Guidara, empresa de carnes nobres.

A posição é corroborada por análise realizada pela consultoria global Mordor Intelligence. “Há uma forte demanda global por proteínas premium, como a de Wagyu, enquanto a oferta ainda é restrita. A competitividade, no entanto, permanece moderada em função de requisitos de autenticidade e rastreabilidade, que acabam criando barreiras de entrada”, pontua o relatório.
O mercado global de carne bovina Wagyu atingiu US$ 13,9 bilhões em 2025 e projeta-se que chegue a US$ 20,92 bilhões em 2030, refletindo uma taxa de crescimento anual composta (CAGR) de 8,54%, o que demonstra a forte demanda global por proteína premium, ainda conforme a Mordor Intelligence.
A raça Wagyu é conhecida por sua carne de qualidade excepcional, marcada por um alto grau de marmoreio, que é gordura entremeada, responsável por sua grande maciez. Isso faz com que seu valor seja mais elevado. No Brasil, o quilo da picanha pode passar de R$ 2.300.
Para ampliar a produção brasileira, a ABCBRW criou o Programa Carne Wagyu Certificada. “Com uma certificação, o objetivo é abrir o leque de produtores, mas dentro de um modelo claro de manejo, com critérios técnicos bem definidos e que garantam conexão com indústria”, explica Steinbruch. Em contrapartida, os frigoríficos oferecem incentivos por bonificação, qualidade e previsibilidade de oferta.

Cruzamentos
 
Tatiana Caruso, veterinária responsável técnica pelo programa, explica que a prioridade para cruzamento é com animais Angus, mas também há cruzamento com gado leiteiro holandês e jersey. O programa buscou inspirações nos modelos de criação da Austrália e Japão – dois dos maiores produtores de Wagyu do mundo -, mas também trabalhou para adequar a criação ao clima tropical e à realidade das fazendas brasileiras.
“A ideia é garantir a produção de cortes com mais padrão, rastreabilidade e confiança, visando num primeiro momento o mercado interno, mas tornando o produto apto ao mercado externo”, comenta. "Para acessar esse mercado, é preciso escala. Quando falamos em exportação, estamos falando de encher contêineres com um ou dois cortes específicos, o que exige produção constante ao longo de todo o ano", explica Tatiana.
Além do crescimento em volume, a remuneração diferenciada é um dos pilares do programa. A bonificação é aplicada aos animais que se enquadram nas exigências e pode ocorrer em dois momentos. Nos animais cruzados recriados, com dente de leite, peso mínimo de 300 quilos e castração até a desmama, a remuneração pode chegar a até 25% sobre o valor da arroba.
Já nos animais cruzados terminados, com até seis dentes, peso mínimo de 600 quilos e castrados, a remuneração varia conforme o nível de marmoreio da carcaça, podendo alcançar até 100% de ágio sobre a arroba.
Para Steinbruch, o cenário mundial atual da carne favorece a criação de carnes para corte premium no Brasil. “Estados Unidos e Austrália, que historicamente são grandes fornecedores de carne de qualidade, vivem um momento de redução de rebanho, queda nos abates e preços elevados. Isso coloca o Brasil, especialmente em programas nichados e bem estruturados como o nosso, em uma posição muito interessante nesse mercado”.
Neste ano, a Guidara comprou os primeiros animais criados a partir da capacitação do programa. Cerca de 500 animais abatidos e 1.000 animais para recria.

Qualidade da carne
 
Pesquisa realizada pela Fortune Business destaca que além do sabor e aparência únicos, a carne Wagyu também é considerada benéfica para a saúde. Rica em ácido linoleico conjugado (CLA), essa carne é considerada mais saudável do que outros cortes de carne bovina.
Ao contrário de outras carnes que precisam ser maturadas para amaciar, a Wagyu possui gordura intramuscular, o que a torna naturalmente magra e macia, com corte mais saborosos.