MG aparece como o terceiro estado do país com mais cidades onde há ocorrência.
A dificuldade de reduzir a população de javalis em áreas rurais de Minas Gerais tem ampliado a preocupação entre produtores, entidades do setor agropecuário e órgãos ligados à defesa sanitária. Mesmo em regiões onde há abates frequentes, o número de animais continua elevado, com reflexos sobre lavouras, fauna nativa, cursos d’água e áreas de preservação.
O problema já alcança uma grande parcela do território mineiro. Levantamento divulgado pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) em 2022 registrou a presença da espécie em 198 municípios. Com esse número, Minas Gerais aparece como o terceiro estado do país com mais cidades onde há ocorrência de javalis. Entre os municípios identificados, 64 foram enquadrados como áreas de prioridade ambiental extremamente alta, considerando a presença de fauna e flora mais vulneráveis aos efeitos provocados pela espécie invasora.
Em Sacramento, no Triângulo Mineiro, o controle realizado atualmente não tem sido suficiente para indicar queda na população. Segundo Osny Zago, presidente do Sindicato dos Produtores Rurais de Sacramento e do Núcleo dos Sindicatos dos Produtores Rurais do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba, dez caçadores atuam no município. Cada um abate, em média, sete a oito animais, volume que pode chegar a aproximadamente cem javalis por semana. Ainda assim, o acompanhamento feito por câmeras não mostra redução da população.
A presença crescente dos animais também chegou às estradas. Zago relata a ocorrência de acidentes em rodovias e vias de terra devido à travessia de javalis.
Os impactos não se limitam à circulação dos animais. O javali é classificado entre as cem piores espécies exóticas invasoras do mundo e pode causar prejuízos diretos às propriedades rurais. Entre os danos registrados estão a destruição de lavouras, alterações no solo e prejuízos a estruturas no campo. Em locais severamente afetados, há relatos de perdas de até 40% na produção de milho.
No Triângulo Mineiro e no Alto Paranaíba, produtores também observam efeitos fora das áreas agrícolas. De acordo com Zago, os animais atingem áreas de proteção ambiental e foram registrados no Parque Nacional da Serra da Canastra, onde provocam danos à vegetação. Em Sacramento, o hábito de revolver o solo e formar barreiros teria alterado inclusive o curso de um córrego responsável pelo abastecimento do município, com impacto também sobre a qualidade da água. A fauna nativa é outro ponto de preocupação. Há relatos de ataques a ninhos e filhotes de espécies como emas, perdizes e codornas.
Além das perdas econômicas e ambientais, a presença dos javalis também é acompanhada sob o aspecto sanitário. Entre os principais pontos de atenção está a Peste Suína Africana (PSA), doença viral contagiosa considerada uma ameaça à suinocultura e ao patrimônio sanitário brasileiro.
O tema integrou as discussões do Fórum Faesp/Senar/CNA – Javalis e javaporcos: impactos, estratégias e ações coordenadas, realizado em São Paulo. O encontro reuniu representantes do setor agropecuário, pesquisadores, autoridades públicas e integrantes de órgãos de defesa sanitária para discutir alternativas de controle e formas de atuação conjunta entre os estados.