Procuradoria pede que inquéritos contra filho do presidente sejam enviados à primeira instância, porque não há envolvidos com foro privilegiado, e afirma não ver crime em uma das apurações. Relator no STF de duas das investigações, Mendonça deve negar a solicitação.

PGR e STF divergem sobre destino das investigações contra Lulinha
Fábio Luís Lula da Silva é investigado por suspeita de tráfico de influência. / Foto: Nelson Almeida/AFP

Os inquéritos envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho mais velho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, colocaram em uma queda de braço a Procuradoria-Geral da República (PGR) e o Supremo Tribunal Federal (STF) e impulsionaram parlamentares da oposição a usar o caso para desgastar a imagem do governo às portas das eleições presidenciais.

A PGR pediu ao ministro André Mendonça, do STF, que inquéritos envolvendo Lulinha sejam encaminhados à primeira instância da Justiça. No entanto, a tendência, de acordo com fontes ouvidas pelo Correio na Corte, é de que o magistrado negue a solicitação. Antes de decidir, porém, ele deve avaliar as informações levantadas até o momento pela Polícia Federal.

Lulinha é suspeito de tráfico de influência em órgãos do governo federal. Segundo a manifestação da PGR, não há entre os investigados ninguém com foro por prerrogativa de função que justifique a permanência das apurações no STF. A manifestação, do procurador-geral da República, Paulo Gonet, está sob sigilo.

O STF possui competência originária para julgar autoridades que têm foro por prerrogativa de função, entre elas presidente da República, deputados e senadores, ministros de Estado, ministros do próprio Supremo e procurador-geral da República.

Atualmente, há três inquéritos envolvendo Lulinha no Supremo. Dois estão sob relatoria de Mendonça, enquanto o terceiro é conduzido pelo ministro Flávio Dino. A abertura de um dos procedimentos sob responsabilidade de Mendonça foi autorizada após pedido da Polícia Federal. A defesa de Lulinha foi procurada para avaliar o pedido apresentado pela PGR, mas preferiu não se manifestar sobre o assunto.

Lulinha pede à Justiça retirada de vídeos de Flávio Bolsonaro e Zema sobre fraudes no INSS
Em mensagens obtidas pela PF, Lulinha trata de negócios com lobista
Defesa de Lulinha diz que oposição usa "setores da PF" para interferir nas eleições
As apurações que chegaram ao STF também passaram a envolver suspeitas relacionadas a uma possível relação de Lulinha com empresários investigados por suspeita irregularidades no governo federal.

O primeiro caso é sobre eventuais influências no Ministério da Saúde. Sobre esse, a PGR aponta, no parecer enviado ao Supremo, que a atuação da lobista Roberta Luchsinger e de Lulinha, para supostamente favorecer os interesses de Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, não resultaram no fechamento de contratos com o poder público. Com isso, não haveria materialidade para constatar prática criminosa.

O segundo inquérito apura suposta atuação irregular e tráfico de influência voltados a facilitar contratos com a Empresa de Tecnologia e Informações da Previdência (Dataprev). O terceiro inquérito foi distribuído por sorteio a Flávio Dino e mira contratos da empresa tecnologia 3Structure It, que possui repasses milionários com a administração pública federal.

Após o pedido da PGR, o senador Carlos Viana (PSD-MG) anunciou que vai protocolar um requerimento de criação de uma comissão parlamentar de inquérito (CPI) na Casa para investigar Lulinha.

Em publicação nas redes sociais, Viana afirmou que iniciou a articulação para obter as 27 assinaturas necessárias à instalação de uma CPI e pediu que eleitores pressionem os senadores de seus estados a apoiarem a iniciativa.

Na postagem, o parlamentar disse que pretende esclarecer a atuação de Lulinha em episódios que estão sob investigação da Polícia Federal. “Quero saber quem abriu portas dentro do governo, quais interesses foramintermediados e qual foi, de fato, o papel de Lulinha nos episódios investigados”, escreveu.

Viana também afirmou que a iniciativa será uma continuidade de sua atuação à frente da CPMI do INSS, da qual foi presidente. “Na CPMI do INSS, eu enfrentei gente poderosa. Não vai ser diferente agora”, declarou.

Na publicação, Viana afirmou que a eventual CPI deverá buscar respostas sobre a relação de Lulinha com agentes públicos e interesses privados. “O Brasil exige investigação. Filho do presidente da República não está acima da lei”, enfatizou.

O relatório final da CPMI do INSS, apresentado no fim de março, pedia o indiciamento de Lulinha por tráfico de influência, lavagem de dinheiro, organização criminosa e participação em corrupção passiva. O parecer, do deputado Alfredo Gaspar (PL-AL), foi rejeitado pela comissão.

Campanha
Integrantes da campanha de Lula à reeleição sugeriram que o presidente continue a falar abertamente sobre sua posição em relação às investigações contra o filho.

O advogado de Lulinha, Marco Aurélio Carvalho, reuniu-se na quarta-feira com o chefe do Executivo, Palácio da Alvorada, para tratar do caso. O conselho é para que o petista reforce que não tolerará qualquer tipo de irregularidade do empresário aproveitando-se da ligação familiar.

Sempre que questionado sobre o episódio, o chefe do Executivo sustenta que o filho, se for culpado, tem de pagar. “Se o meu filho for acusado de qualquer coisa, ele será tratado como filho de qualquer pessoa, como eu. Não haverá nenhum privilégio. Eu jamais pedirei a um delegado ou juiz para não fazer as coisas corretas. Se ele estiver certo, terá a minha ajuda. Se fizer coisa errada, ele sabe o que eu passei”, afirmou, no mês passado, ao podcast Inteligência Ltda.

Há, também, uma avaliação de auxiliares de Lula de que, embora os casos envolvam o filho, não têm ligação direta com o presidente. Um interlocutor reforçou que o imbróglio envolvendo o principal oponente do chefe do Executivo, o senador e candidato ao Planalto, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), é “completamente o contrário”.

A fonte se refere ao caso do Banco Master no qual o primogênito de Jair Bolsonaro fechou um contrato milionário para a suposta produção do filme sobre a biografia do ex-presidente, condenado a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado e outros crimes.