Economista explica os riscos do crédito rotativo e orienta como negociar dívidas e buscar juros menores.
Pagar apenas o valor mínimo da fatura do cartão de crédito pode parecer uma solução para aliviar o orçamento no fim do mês, mas a escolha pode transformar uma dívida em um problema cada vez maior.
Pagar apenas o valor mínimo da fatura do cartao de credito transforma a divida em um problema grave devido aos juros elevados do rotativo. Especialistas recomendam quitar o valor integral, organizar as financas e negociar debitos para evitar o superendividamento. Dados recentes mostram milhares de processos judiciais sobre o tema no Brasil. A pane financeira ocorre quando o consumidor utiliza o credito para despesas basicas sem controle da renda e da capacidade de pagamento mensal.
Com a incidência de juros sobre o saldo não pago e a possibilidade de novas compras, o consumidor corre o risco de comprometer parte crescente da renda com uma conta que não consegue quitar.
Como funciona o pagamento mínimo? - A economista e especialista em finanças comportamentais, Aline Moreira, explica que o pagamento mínimo permite quitar apenas uma parte da fatura, deixando o restante para pagamento posterior, com a incidência de juros e encargos.
“Se o valor está em R$ 5 mil, eles colocam, por exemplo, R$ 500 como o valor mínimo da fatura. O restante que ele não efetuar o pagamento, R$ 4.500, fica como uma dívida com juros para o próximo mês”, explica.
Na prática, o consumidor não elimina a dívida ao pagar o mínimo. O saldo restante passa a ser financiado e, se novas compras forem realizadas, o orçamento pode ficar ainda mais comprometido. Por isso, a recomendação é pagar o valor integral da fatura sempre que possível.
Por que o crédito rotativo é tão arriscado? - O crédito rotativo é uma modalidade de financiamento utilizada quando o consumidor não paga integralmente a fatura e deixa parte do saldo em aberto, observadas as condições e regras aplicáveis. A diferença entre o valor total e o montante pago é financiada, com cobrança de juros e encargos.
Segundo Aline, a combinação de juros elevados, facilidade de contratação e ausência de uma garantia específica ajuda a explicar por que essa modalidade pode se tornar tão onerosa.
“Os juros do rotativo são um dos mais altos que a gente tem hoje no mercado, porque ele não tem garantia e trabalha com juros compostos. Então, a pessoa vai fazendo a contratação a cada mês e, a cada mês, esses juros vão aumentando e virando uma bola de neve”, afirma.
O problema se agrava quando o consumidor passa a depender do cartão para pagar despesas básicas. Assim, parte da renda que poderia ser usada para alimentação, moradia e outras necessidades acaba comprometida com o pagamento da dívida.
Como negociar e interromper o crescimento da dívida? Para quem já está endividado, o primeiro passo é conhecer a própria situação financeira. Aline recomenda levantar a renda mensal, as despesas fixas e variáveis e todas as dívidas existentes antes de negociar com o banco.
“Ela tem que fazer uma organização financeira básica, entender melhor o quanto ganha, quais são as despesas fixas e quais são as despesas variáveis”, orienta.
A especialista lembra que o cartão de crédito não é uma despesa em si, mas uma forma de pagamento. Por isso, é necessário identificar quais compras foram realizadas e quanto elas representam no orçamento.
Depois desse levantamento, o consumidor deve reunir informações sobre cada dívida, incluindo o valor necessário para quitá-la, as taxas de juros, as condições de parcelamento e a existência de seguros ou outros encargos que possam ser questionados ou eventualmente reembolsados.
Na hora de negociar, a orientação é comparar diferentes propostas. Uma parcela menor pode parecer vantajosa, mas o prazo mais longo pode elevar o custo total.
Também é importante verificar se o valor oferecido para quitar a dívida está próximo do saldo original e se as condições são melhores do que as disponíveis em outras modalidades de crédito.
Quando deixar de usar o cartão pode ser necessário - A economista destaca que, em determinadas situações, interromper o uso do cartão e evitar novas linhas de crédito pode ser parte da reorganização financeira. A prioridade deve ser impedir que novas despesas aumentem o problema.
“Se a pessoa está nessa fase, nessa situação, a gente realmente precisa fazer com que ela evite esses gastos e evite essas linhas de crédito”, afirma.
Aline também aponta a importância de construir uma reserva financeira para lidar com imprevistos e, quando possível, uma reserva destinada à quitação das dívidas.
Para evitar que o problema se repita, a orientação é acompanhar os gastos, não confundir limite disponível com renda e avaliar cada compra de acordo com a capacidade de pagamento.
Em Mato Grosso do Sul, 636 novos processos relacionados ao superendividamento foram registrados em 2026, dos quais 442 tramitavam em primeiro grau, conforme dados do CNJ (Conselho Nacional de Justiça) consultados em 27 de outubro.
No ano passado, foram 919 novos casos no Estado. Nos últimos seis anos, o total chegou a 2.860 processos. Em todo o Brasil, foram registrados 47.332 novos processos em 2026, ante 60.616 em 2025.